Diário da tese (8): Iniciando a TAR

ant latour

Já falei por aqui que a perspectiva teórica/metodológica que utilizo na tese é fortemente baseada na antropologia, em especial no grupo de autores que se costumou chamar de Teoria Ator-Rede – em inglês, Actor-Network Theory, ANT, que não por acaso sugere o trocadilho com Formiga (“Ant” em inglês). Originada nos estudos da Ciência e Tecnologia (em inglês, STS), a Teoria Ator-Rede surge no início dos anos 1980, no contexto de alternativas às concepções estruturalistas e funcionais da ciência; estas oferecem ora explicações sociais, baseadas em relações de causa e efeito ocasionadas pelo social isolado do “fenômeno” a ser analisado, ora essencialistas, centradas no fenômeno a ser analisado, sem considerar as suas relações sociais, econômicas, culturais, etc. Em oposição a isso, pesquisadores como Bruno Latour, Michel Callon, John Law, Madeleine Akrich e Annemarie Mol, entre outros, começaram a defender a ideia de que as inovações científicas e técnicas não poderiam ser pensadas de forma separada do contexto em que se inserem e dos atores envolvidos em sua produção. Assim, propõem uma “sociologia da mobilidade” (um dos muitos nomes já usados antes de TAR), que não considera nada do que quer explicar como algo dado a priori, e onde a explicação para os fenômenos sociais passa a se dar no fluxo, na circulação em rede entre os atores envolvidos, sejam eles humanos ou não-humanos.

Quando a TAR propõe uma análise da circulação de todos os atores envolvidos, passa também a considerar aqueles atores não-humanos no processo. A partir da observação antropológica de redes que constituem, por exemplo, descobertas científicas, estas pesquisas passal a valorizar também o papel das materialidades na produção de uma ação: a produção de um conhecimento científico não pode ser entendida sem os objetos técnicos que participam do processo. Como explica Michel Callon nesta entrevista de 2008, a ideia de dar a mesma importância a ambos vem em oposição “a uma distinção constringente, historicamente marcada e que corresponde ao modernismo, quero dizer, à convicção, segundo a qual há duas categorias de entidades no cosmos, a saber: os humanos e os outros”.

No Brasil, esta perspectiva é conhecida sobretudo pela obra de Bruno Latour, filósofo francês que já veio diversas vezes pra cá e que tem muitos livros traduzidos para o português, com destaque para “Ciência em Ação“, (Unesp/2000), “Jamais Fomos Modernos” (Editora 34/1994) e “Reagregando o Social” (Edusc/Edufba 2012). Por sinal, alguns livros infelizmente mal traduzidos, o que faz com que muita gente – entre eles o antropólogo brasileiro Eduardo Viveiros de Castro, interlocutor comum de Latour – não recomende as edições em português lançadas aqui pela Edusc, de Bauru, como a de “Reagregando”, feita em parceria com a Editora da UFBA. Li alguns textos de Latour em espanhol e inglês e me pareceu que, para quem quer se debruçar, vale o esforço de ler uma obra tão densa, confusamente escrita (como é o estilo do francês, prolixo e confuso), em outro idioma que não o português.

Apesar da popularidade de Latour, o fato é que há muita TAR pra além dele. Estou terminando um capítulo que apresenta alguns conceitos atores-rede básicos, e que usarei pra minha tese, como simetria, tradução e mediação, e estou vendo que John Law, Michel Callon e Annemarie Mol, por exemplo, tem estudos excelentes trabalhando com a perspectiva da TAR com objetos tão distintos quanto, respectivamente, as navegações portuguesas do século XVI, a queda do crescimento da população do molusco conhecido como Vieira na França e as diferentes formas que uma doença como a anemia podem ser “performadas” nos diferentes atores que fazem parte de sua rede (médicos, pacientes, enfermeiros). Nesse site, mantido por Law, há uma base de textos (em inglês) do que se identifica como Actor-Network Theory, boa parte com comentários rápidos que guiam o leitor para o que trata cada um; nesta outra página a bibliografia está dividida por tópicos. Deixo aqui em PDF três dos textos iniciais, considerados basilares da área, escrito nos anos 1980 e ainda importantes para entrar no cansativo (mas prazeroso) caminho da TAR.

_ Callon, Michel and Latour, Bruno (1981). Unscrewing the Big Leviathan: how actors macrostructure reality and how sociologists help them to do so. In K. D. Knorr-Cetina and A. V. Cicourel (Eds.) Advances in Social Theory and Methodology: Toward an Integration of Micro- and Macro-Sociologies. Boston, Mass, Routledge and Kegan Paul: 277-303.

_ Callon, Michel. (1986). Some Elements of a Sociology of Translation: Domestication of the Scallops and the Fishermen of Saint Brieuc Bay. In J. Law (Ed.) Power, Action and Belief: a new Sociology of Knowledge? Sociological Review Monograph. London, Routledge and Kegan Paul. 32: 196-233.

_ Law, J. (1986). On the Methods of Long Distance Control: Vessels, Navigation and the Portuguese Route to India. In J. Law (Ed.) Power, Action and Belief: a new Sociology of Knowledge? Sociological Review Monograph. London, Routledge and Kegan Paul. 32: 234-263.

Crédito imagem: “Reagregando o Social”, 2012.

Diário da tese (7): Liberando o bruto

Você sabe que, na internet, tudo que você faz pode ser rastreado e agregado. Os sites que acessados, os posts que você faz em redes sociais, as “curtidas”, compartilhadas e qualquer outro movimento realizado na World Wide Web, através de um navegador como o Chrome ou o Firefox, ou através de aplicativos baixados para seu celular/tablet/etc, geram dados que podem ser rastreados (se você usa criptografia isso é um pouco mais difícil). Reunidos e combinados, estes dados podem dizer muita coisa sobre a sua vida e a vida humana e não-humana no planeta, e é isso que se tem chamado de big data.

Nas investigações acadêmicas, a possibilidade de rastrear e agregar as informações possibilita transformações consideráveis no jeito de se fazer pesquisa. Bruno Latour, no texto “Beware, your imagination leaves digital traces” (2007) lembra que, quando nossos hábitos cotidianos (como comprar um livro) são atravessados pela tecnologia digital e pela internet, as diferenças entre os âmbitos social, econômico e psicológico de nossas vidas são apagados: “The ancient divide between the social on the one hand and the psychological on the other was largely an artefact of an asymmetry between the traceability of various types of carriers: what Proust’s narrator was doing with his heroes, no one could say, thus it was said to be private and left to psychology; what Proust earned from his book was calculable, and thus was made part of the social or the economic sphere. But today the data bank of Amazon.com has simultaneous access to my most subtle preferences as well as to my Visa card. As soon as I purchase on the web, I erase the difference between the social, the economic and the psychological“.

Pensando também nisso, Tommaso Venturini, pesquisador que trabalha com Latour no Sciences Po em Paris, desenvolveu em dois artigos uma metodologia, chamada Cartografia das Controvérsias, onde o rastrear e agregar informação na rede pode ser usado para expor toda a documentação utilizada numa investigação científica. Ao criar um site-repositório, o pesquisador disponibiliza todas (ou quase todas, porque algumas podem não ser possíveis de trazer) as informações que utilizou para construir sua pesquisa, em especial aquelas que são digitalizadas e que podem ser rastreadas porque foram publicadas na internet.

A documentação do trabalho realizado possibilita reverter as simplificações inevitáveis que o pesquisador teve que fazer ao transformar seus dados em um produto, geralmente uma peça escrita como um artigo ou uma tese. Graças ao ambiente hipertextual quase infinito da internet, podemos disponibilizar não só os resultados como cada passo da pesquisa, encorajando o reuso dos dados e das técnicas de pesquisa por outros pesquisadores, ou simplesmente deixando transparente os processos de edição realizados ao dar a possibilidade de confronto entre o que foi pesquisado e o que foi (vai ser) publicado.

Inspirado por Venturini e Latour, e também pela filosofia do software livre na qual sou entusiasta, resolvi eu também criar um repositório online das informações de minha pesquisa. A ideia é a de expor o bruto dos dados para que seja possível ver as escolhas simplificadoras que tive de fazer ao longo do tempo para por as informações em um formato que se convencionou chamar de “tese”, este trabalho final realizado após 3 ou 4 anos de um curso de doutorado (no Brasil). Também disponibilizo como forma de potencializar um reuso destas informações que obtive no processo de feitura da investigação, caso alguém tenha interesse nisso.

Minha pesquisa não é feita por um grande laboratório com muitos investigadores nem financiada pela União Européia, como foi o caso da que baseou os artigos de Venturini – o site com o bruto da pesquisa continua na rede, mesmo ela tendo sido finalizada em 2010. Mas este trabalho, como todos, é coletivo, feito com a contribuição milionária de múltiplos erros (Oswald!) e de muitos artigos/livros/comentários disponíveis na rede. Nada mais justo que devolver um pouco a esta mesma rede que está possibilitando ele ser feito.

Vou disponibilizar o bruto nesta página, e dividido em quarto partes: projetos, fichamentos/referências, matérias na mídia e dados de pesquisa. A primeira são os projetos que fiz ao longo dos 4 anos de doutorado, sendo o primeiro o utilizado na seleção, em 2013, e o segundo o defendido na qualificação, ano passado. A segunda são as referências que estou utilizando para construir o trabalho, e os fichamentos que estou produzindo destes textos, muitos em arquivos algo caóticos, como é o caso dos dois textos de Venturini, disponibilizado nessa primeira leva. Aliás: nem todos os textos faço o fichamento, e alguns faço só de certos capítulos e trechos de determinadas obras, mas disponibilizo igual todos que conseguir. Na terceira parte trago os links das muitas matérias e textos publicados em mídias diversas na internet. Por fim, na última parte vou disponibilizar as entrevistas e os diários de campo das observações realizadas, se os entrevistados assim permitirem, e a coleta de dados que fiz na rede para analisar os momentos que estou investigando para a tese.

A ideia é trazer este material na medida em que ele vai sendo produzido, espero que semanalmente nestes próximos (e últimos!) meses de trabalho para a entrega da tese. Alguns artigos que já publiquei e estou a publicar por aí estão na seção Publicações deste site, e quem tiver afim de conferir verá que muita coisa da tese virá deles também.

Tá lá: INVESTIGAÇÃO DE DOUTORADO.

Diário da tese (6): voltar do campo e escrever

Voltar do campo, escolha das “controvérsias”, definir prazos e capítulos, sobre o fazer da tese: esses todos eram os temas pra escrever na volta do diário da tese. Mas justo estas quatro coisas foram os motivos principais pelos quais este diário está há quatro meses sem atualização. O trabalho de chegar do campo, dar o tempo necessário para se distanciar do diário para então voltar a ele e (re) ver a pesquisa de modo a encaminhar a escrita da tese; de, a partir daí, retrabalhar a metodologia sob a perspectiva de que ela é uma construção ao longo do tempo e de acordo com o objeto e não o contrário; e, finalmente, o contexto político brasileiro, que fez de março um mês movimentado de protestos em ambos os “lados” do espectro político nacional e de abril, maio e junho meses de Impeachment, situação que modificou (e potencializou o alcance) das ações da Mídia Ninja, o objeto analisado. Todos foram fatos para este diário se atrasar e só vir aqui, agora, nesse momento, também como um descarrego – “faça esse post que está no rascunho faz meses e depois reorganiza o site e o diário conforme tu planejou!”.

Aí está.

[E pra não ficar só nisso: terminei o fichamento dos dois textos de Tommaso Venturini que definem a Cartografia das Controvérsias, uma metodologia criada por Bruno Latour e desenvolvida por Venturini como uma espécie de versão “prática” da Teoria Ator-rede . São os artigos: Diving in Magma: How to Explore controversies with Actor-Network Theory (2009) e Building on faults: how to represent controversies with digital methods (2010), escritos na sequência para uma mesma revista, Public Understanding of Science. O trabalho apresenta como identificar e explorar as controvérsias (1) e representá-las digitalmente (2).

Nesta parte dois, Venturini faz uma interessante proposta de deixar todo o material utilizado na pesquisa de forma aberta, na rede, em um site-controvérsia – que no caso dele, foi um projeto coletivo encabeçado pelo Médialab do Sciences Po, de Paris (onde Latour e Venturini trabalham), chamado MACOSPOL (MApping COntroversies in Science and techonology for POLitics). Ele embasa sua escolha de diversas formas teóricas que não vou citar agora aqui, mas dois pontos são essenciais: o fato de, na internet, tudo pode ser rastreado e agregado; e a reversibilidade, nas palavras de Venturini: “Like Theseus, scientists wouldn’t wander the maze of representation without a thread to follow back. By maintaining the reversibility of aggregation, researchers assure themselves (and their peers) the possibility of climbing back up their formalizations and then trying other descents“(p.7).

Baseado nisso é que, nas próximas semanas, vou trazer algumas novidades pra esse diário.]

 

Diário da tese (5): seguindo em frente

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Começo o 2016 com a cabeça ainda nos comentários e retornos dos congressos e conversas que tive em novembro e dezembro de 2015, nas possíveis implicações que estes terão na tese e, ao mesmo tempo, com a preocupação de seguir em frente na pesquisa de campo, por isso este primeiro texto de 2016 vem só em fevereiro.

Como falei no post anterior, foram dois os eventos acadêmicos que participei: o II Congresso Internacional de Net-ativismo, em São Paulo, e a XI Reunião de Antropologia do Mercosul (RAM), em Montevideo. No primeiro apresentei um artigo que não trata diretamente do assunto da minha pesquisa, e sim de desdobramentos do que norteava o projeto com que entrei no doutorado – que tratava de jornalismo e a cultura hacker – com a discussão do conceito de mídia tática, muito difundido no Brasil na década de 2000 e próximo às minhas ações práticas no BaixaCultura (página que edito desde 2008) e na Casa da Cultura Digital em São Paulo.

A ideia do trabalho foi de resgatar o histórico do conceito, originária da leitura de Michel De Certeau  em “A Invenção do Cotidiano” (1994) sobre as práticas e táticas criativas que a cultura popular produz com os artefatos e técnicas que a rodeiam, e que apareceu organizado como um conceito estruturado pela primeira vez com Geert Lovink e David Garcia no seminal “O ABC da Mídia Tática“, de 1997. É uma concepção teórica originária do contexto europeu pós queda do muro de Berlim e que se desenvolveu em festivais e redes de comunicação, tecnologia e ativismo no final da década de 1990 e início dos anos 2000 como “uma tentativa de identificação de uma tendência de convergência nos campos políticos e culturais desta época, influenciada pelo crescimento da produção midiática viabilizada por equipamentos baratos e de fácil utilização”, como diz Lovink no texto “Atualizando a mídia tática. Estratégias de midiativismo”, presente num dos capítulos do livro “Informação, Conhecimento e Poder: Mudança tecnológica e inovação social“, de 2011.

No artigo, identifiquei alguns exemplos da chamada “era de ouro” das mídias táticas, no final da década de 1990, como o flood net em apoio aos zapatistasdesenvolvido pelo Eletronic Disturbance Theater, uma estrutura ad hoc com os integrantes do coletivo Critical Art Ensemble (a ação está documentada neste link); o caso Dow Ethics, proposto pelo Yes Men, em que dois integrantes do coletivo aplicam um “trote” clássico na BBC britânica quando um deles se passa pelo executivo da empresa Dow Chemicals e concede uma entrevista ao vivo assumindo que vai pagar os custos do desastre químico promovido pela empresa causado na cidade indiana de Bhopal. Pro Brasil de 2016, seria como se um integrante de um coletivo de ativistas tivesse convencido a Globo de que era um executivo da Samarco, principal responsável pela tragédia em Bento Rodrigues – Mariana, e concedesse entrevista num programa como o Jornal da Globo assumindo que a empresa vai pagar uma indenização de bilhões de reais às famílias atingidas (o que, convenhamos, deveria ser o mínimo, não?). Fiz uma versão desta primeira parte do artigo neste post do BaixaCultura. Num segundo momento, trouxe um breve histórico da mídia tática no brasil, enfatizando a (re) apropriação feita a partir da gambiarra e uma aproximação com os princípios da ética hacker. Farei uma versão desse post pro BaixaCultura nas próximas semanas.

No segundo apresentei um artigo que discutia a mediação e os objetos técnicos na Mídia NINJA, a partir de alguns dados da primeira parte da observação participante que estou fazendo. [O arquivo em PDF que fiz para guiar a apresentação está aqui]. A proposta foi discutir, no GT de Simetria, Agência e Etnografia: Experiências de Pesquisas Sobre Relações entre Humanos e Não Humanos, qual a agência dos objetos na mediação jornalística da NINJA.

Foi um momento de muitos aprendizados sobre a prática da etnografia, área que os antropólogos criaram e dominam, e alguns retornos importantes sobre a pesquisa. Por exemplo: a ideia de levar menos pressupostos a campo e descrever aquilo que acontece, de forma direta, deixando para os atores definirem (se quiserem) aquilo que fazem – caso, por exemplo, de jornalismo ou ativismo – e não o pesquisador “explicar”, em 2º mão. Outra: campo é deslocamento, não só estar em um lugar “físico”, o que significa que o trabalho de campo pode ir além do espaço geográfico e percorrer as redes sociais e outros “lugares” da internet – aqui, a ideia da etnografia multi-situada entrou para ficar. Mais uma: não há resposta definitiva sobre se os atores são intermediários (que não “traduzem” nada) ou actantes (“que fazem outros fazerem coisas”) na mediação: essa resposta será temporária para um dado momento (o analisado), no curso da ação.

Todas ideias podem parecer óbvias para quem já está na antropologia há muito tempo, mas este não é caso aqui. A participação na RAM só reforçou, pra mim, o quanto faz bem transitarmos por áreas de conhecimento que não a nossa de origem (no meu caso, a comunicação e o jornalismo): novos olhares para assuntos já dados como “certos”, complexificação de questões aparentemente simples são algumas das contribuições que o sair da zona de conforto da nossa área original de pesquisa podem trazer. Em especial, quando o ponto de saída é a comunicação e o de passagem é a antropologia, as diferenças são ainda mais visíveis: há um mundo de possibilidades e aberturas nos estudos da antropologia que são difíceis de serem encontrados na comunicação, uma área às vezes tão fechada em discussões restritivas, sobre demarcação de territórios e fechamento de conceitos enquanto o mundo lá fora acontece múltiplo, desconexo, indisciplinar.

P.s: Na linha da etnografia, um texto clássico (1978) da área que li e gostei se chama “O ofício do etnógrafo, ou como ter anthropological blues“, do Roberto Da Matta. Fácil e bom de ler, traz alguns ensinamentos para ter este tal anthropological blues do título dizendo, resumidamente, que em campo o desafio é 1) transformar o exótico em familiar; e 2) transformar o familiar em exótico. Aqui tem ele pra baixar em PDF.

(a foto é do céu do interior do Uruguai, da Sheila Uberti)

diário da tese (4): jornalismo e/ou ação?

 

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O semanário da tese falhou nas últimas semanas, mas nesta cá estamos, com um texto menorzinho, com um dos temas que desde a qualificação (ou até antes dela) tem me perseguido na pesquisa: a relação entre jornalismo e/ou ativismo.

Uma das perguntas que Fábio Malini fez na banca ainda ressoa por aqui: quão ativista deve ser o jornalista? ou, do contrário: quão jornalista deve ser o ativista? Pelo entendimento de mediação da TAR que resgatei no post passado, refaço a pergunta: quão ativista consegue não ser o jornalista? Na mediação, qualquer que seja, não existe neutralidade, e sim a influência de uns mais do que outros na rede de mediações envolvidas. Sabe-se que no jornalismo, a ideia de ser objetivo, de buscar fazer um relato mais próximo possível à dita realidade é, a grosso modo, um procedimento: nunca vai se conseguir ser completamente objetivo, mas é possível ser mais ou menos objetivo de acordo com os procedimentos adotados. O jornalismo moderno do século XIX pra cá adota esse lema como regra de ouro de seus manuais. Mas as redes modificam esse cenário ao mostrarem, de modo mais rápido e fácil, os múltiplos pontos de vista possíveis de um dado acontecimento, deixando mais evidente o que antes era velado: que o relato jornalístico fruto desses procedimentos objetivos pode estar muito mais longe da realidade que se quer mostrar do que a instituição “jornalismo” faz crer.

Assim, o “lado” em que aquele relato foi produzido é mais escancarado do que antes, e muitas vezes mais do que a instituição jornalística tradicional gostaria.  Se esse lado é a manutenção de um status quo que vai contra direitos humanos fundamentais (como o caso, por exemplo, do PL do Aborto do atual presidente da Câmara, Eduardo Cunha, que dificulta o acesso ao aborto legal para vítimas de violência sexual), como não se posicionar? Como fazer uma matéria e usar de procedimentos para atingir uma objetividade sabendo que estes procedimentos podem (supostamente) equilibrar lados tão desequilibrados historicamente e na realidade brasileira atual como o direito das mulheres sobre seu corpo?

Esse é um dos dilemas do jornalismo hoje, que é traduzido de forma rápida na frase “a transparência é a nova objetividade“. Numa situação como a citada acima, alguns jornalistas, professores e pesquisadores da área estão a trabalhar com a ideia de que a transparência – assumir uma posição, um lugar de fala – pode substituir a objetividade na cultura jornalística como procedimento (ou ritual estratégico, segundo Gaye Tuchman) para relatar determinado acontecimento. A transparência de adotar determinada posição em detrimento de outras é uma das marcas de certo midiativismo, o que embaralha mais a questão discutida no post anterior sobre “quando se é jornalismo” e “quando se é ativismo”. É possível separá-los?

Estou resumindo aqui uma questão que é muito mais complexa só para vocês perceberem o tamanho que é essa discussão. Sigo, nesse momento, por dois caminhos apontado pela banca de qualificação: a relação do jornalismo-ativismo, de um lado, e de outro a antropologia. Ao me aprofundar na Teoria Ator-Rede, me aproximei da área de onde ela nasceu, a antropologia e a sociologia da ciência, e tenho ido mais na origem de algumas concepções antropológicas para esmiuçar tanto a ideia de mediação proposta por Latour e cia quanto a noção de agência não humana.

Não por caso, dois artigos que estava trabalhando (e que me fizeram não postar aqui nas últimas semanas) são, justamente, para dois congressos nessas duas áreas: O II Congresso Internacional de net-ativismo, entre 16 e 19 de novembro em São Paulo, e a XI Reunião de Antropologia do Mercosul (RAM), entre 30 de novembro e 5 de dezembro, em Montevideo. Espero com eles conseguir entender e esmiuçar melhor algumas questões, que trago pra cá depois que terminar estes eventos.

 

(foto Mídia NINJA/Brasil de Fato)

diário da tese (3): a questão da mediação

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Como prometido, o diário-semanário da tese traz hoje algumas questões discutidas na qualificação do projeto de tese, intitulado até então de “A Mediação no jornalismo feito por não jornalistas: um estudo das agências humanas e não humanas na Mídia NINJA“. Digo até então porque título é das partes que mais se mexe num trabalho acadêmico, e este será mudado por, entre outros fatores, trazer uma questão importante apontada pela banca: será que as pessoas que trabalham na Mídia NINJA não são jornalistas mesmo? No sentido de não serem formados numa faculdade de jornalismo está claro que não são, mas jornalista só é aquele que tem um diploma de universidade?

É uma questão que rende muitas discussões na academia, no mercado profissional e nos tribunais – atualmente, não é obrigatório o diploma para ser jornalista, mas o assunto está sendo discutido novamente na Câmara dos Deputados. Do ponto de vista do trabalho analisado em questão, não, jornalista não é só aquele que é formado em jornalismo, porque a concepção que defendo nos referenciais teóricos é de que o jornalismo é, acontece, a partir de determinadas circunstâncias de mediação dadas na ação, e não por questões estabelecidas a priori, como formação ou registro profissional.

É uma visão influenciada pela concepção de mediação trabalhada pela Teoria Ator-Rede (TAR), em especial por Bruno Latour, e por alguns trabalhos que aproximam a TAR ao jornalismo, como um artigo de 2015 de Alex Primo e Gabriela Zago. Esta concepção vê a mediação sempre como movimento, ação, tradução, um processo híbrido, instável e constituído de diversos elementos estabelecidos em uma rede de significados (como diz Latour em On Technical Mediation, texto de 1994 chave para entender essa visão).

Dois pontos são importantes: o primeiro é assumir que, como toda tradução, há sempre um grau de interferência destes elementos na rede de significados constituída. Não existe um mediador “puro”, que não vai interferir na ação e vai traduzi-la tal qual ela é. Pode parecer uma questão óbvia, ainda mais para quem trabalha com tradução de textos de uma língua para outra, mas basta olhar os jornais de grande circulação no Brasil, como Folha de S. Paulo, O Globo e Zero Hora, no papel ou em suas versões digitais, para perceber que a visão predominante no jornalismo ainda é a de que o jornalista relata “a verdade” de forma transparente, o que pressupõe que não existe intereferência. Admitir que existe construção no processo de tradução que ocorre na mediação só deveria ser um problema se ainda considerássemos as notícias e a realidade a mesma coisa, visão que desde Walter Lippmann em seu clássico “A Opinião Pública“, lá em 1922, já se criticava: “a hipótese que me parece mais fértil é que as notícias e a verdade não são a mesma coisa e precisam ser claramente distinguidas”.

O segundo ponto é um dos mais polêmicos: se devemos entender a mediação como tradução em que todos os atores envolvidos podem interferir na ação, então os objetos técnicos também devem ser incluídos aí – e se vamos estudar as mediações, precisamos estudar estes objetos. No caso do jornalismo, as discussões sobre se robôs podem ou não fazer uma notícia, o jogo de mostra-esconde do algoritmo do Facebook, softwares utilizados no jornalismo de dados, por exemplo, são questões em que a ação dos objetos técnicos está bastante saliente, mas mesmo outras em que, a princípio, essa ação não é tão visível – como o publicador de notícias de um jornal online, os blocos de anotação usados pelos jornalistas ou o uso do telefone para uma entrevista – também podem ser melhor compreendidas à luz dessa ideia de mediação como tradução trazida pela TAR.

Para não alongar muito essa discussão que é intensa, densa e tem rendido livros e mais livros, volto ao título do trabalho: “A Mediação no jornalismo feito por não jornalistas: um estudo das agências humanas e não humanas na Mídia NINJA”. Será que posso fazer essa distinção já no título entre jornalistas e não jornalistas na hora de trabalhar a mediação? Se considerar que o jornalismo pode ser feito por um profissional denominado jornalista, estou, de um lado, também trabalhando com um a priori, o de que certos humanos – jornalistas – são mediadores privilegiados, e só cabe a eles fazerem jornalismo. Seria uma contradição com a ideia de que a mediação é uma tradução, um movimento, e de que os papéis assumidos na mediação são relativos, que só podem ser definidos quando analisados no curso da ação.

De outro lado, afirmar que o jornalista é um mediador privilegiado e que só ele pode fazer o que se convencionou chamar de jornalismo é trazer a questão para o jornalismo enquanto profissão, institucionalizada desde o final do século XIX, período de florescimento do ideal moderno que, justamente, tinha como fato o de que… a realidade poderia ser mostrada tal qual ela é a partir da ideia da objetividade. Algo que, sabemos hoje, não pode. Se vai ser possível/viável ou produtivo conciliar estas duas questões num único trabalho acadêmico é algo que ainda não sei…

(Imagem que abre o post é uma ilustração do artigo On Technical Mediation, de Bruno Latour, 1994)

Diário da tese (2): a técnica da qualificação

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A defesa do projeto de tese no processo que se chama “qualificação” na academia ocorreu semana passada, e foi tudo bem. A banca trouxe excelentes contribuições para melhorar (e reformular) algumas questões do projeto. Deixou mais claro alguns caminhos em vez de outros. Promoveu debate sobre questões que até então pouco tinham sido conversadas cara a cara. E com isso, trouxe um pouco de segurança para se tocar os próximos passos. Dito isso, vamos aos detalhes.

Cheguei cerca de 1h antes da banca para testar os equipamentos, já que não ia usar os que se costuma usar naquela sala. Explico: a mim não faz sentido estudar objetos técnicos e a mediação e fazer uma chamada voz sobre IP em um software “caixa-preta” que seu código só é conhecido pela sua empresa, como é o caso do Skype e da empresa que o desenvolve, a Microsoft. Se boa parte dos intuitos da pesquisa com que, por exemplo, a Teoria Ator-Rede (TAR) trabalha, é o de abrir as caixas pretas e ver o social em formação, em fluxo (e rede), então a escolha dos objetos a fazer parte da videoconferência também deve buscar essa abertura. Pelo menos é o que acredito, e conta aí também alguns anos de defesa e uso do software livre, movimento que justamente defende a abertura dos códigos como questão primordial de liberdade, segurança, acesso ao conhecimento e, principalmente, autonomia. Fiz um artigo de uma disciplina do doutorado, inclusive, propondo essa aproximação da TAR com a filosofia do software livre, que ainda vou revisar e publicar em algum lugar – ou de repente trago aqui mesmo do jeito que está.

As opções que tinha levantado era o Mconf, programa bem completo de videoconferência produzido por um grupo da própria UFRGS, e o Meet.jit.si, muito utilizado pelo pessoal do software livre. Já havia testado ambos e gostado mais do segundo, embora o primeiro seja interessante também e um ambiente bastante completo para grupo de estudos e videoaulas. Na sala destinada a banca, ligo o computador e detecto uma primeira questão: assim como todos os outros que já tive acesso na UFRGS, o computador tem como sistema operacional Windows, da mesma Microsoft. Meu lado ativista/pesquisador apita: por que uma universidade pública usa em seus computadores um sistema operacional que custa alguns milhares de reais por ano em licenças tendo a opção de, com esse mesmo dinheiro de licenças, bancar um grupo de desenvolvimento e customização de alguma distribuição livre baseada em GNU/Linux específica pra universidade?

Encontro duas razões principais: o fato das pessoas estarem “acostumadas” a usar mais o Windows, já que ele foi colocado na cotidiano de muita gente desde muito cedo; e, o lobby político e financeiro da Microsoft, que explica a primeira também. Ambas razões, a meu ver, deveriam ser questionadas por universidades públicas que sempre dizem ter como princípios o livre acesso ao conhecimento: quão livre é esse conhecimento se não temos acesso aos códigos que são construídos os softwares de um computador que usamos? Não seriam estes softwares também conhecimento que devemos ter livre acesso? Ou o entendimento geral é de que os computadores e seus códigos seriam apenas “ferramentas”, meios que não interferem nos fins a que são destinados? Sob esta perspectiva política (e econômica) é que pode se compreender o uso do Windows na universidade: “vamos pagar a Microsoft para fornecer um produto fechado e não pensar mais nisso” é melhor que “que tal desenvolvermos nossa própria distribuição livre customizada e assim abrir as ‘caixas-pretas’ dos nossos computadores e sabermos minimamente o que tem ali?”. Como se percebe, este ponto de vista da neutralidade da técnica, criticada pelos pesquisadores da TAR e por tantos outros filósofos (Heidegger entre eles) e pensadores, ainda predomina (e muito!) no nosso senso comum.

Com Windows a contragosto, surge o segundo problema: não há o navegador Chrome instalado, de modo que tenho de baixá-lo e instalar, já que o “jitsi”, por enquanto, só funciona em Chrome (e sua variante livre, o Chromium). Vou falar com o pessoal da “técnica” – assim são chamados o pessoal do “Setor de Informática” – pra ver a possibilidade de baixar o Chrome, já que tinha ouvido falar que certos computadores da universidade não tem permissão pra instalar softwares. Eles me dizem que é possível sim, mas que no próximo início do computador o Chrome vai estar apagado; afirmam que esse é o funcionamento de praxe para evitar a instalação de programas desnecessários pelos alunos; questão de segurança. Digo do meu desejo de usar um outro sistema de videoconferência para a banca: eles respondem que possivelmente não vai funcionar, porque o CPD (Centro de Processamento de Dados) pode barrar os pacotes de dados em outros softwares que não os testados na máquina. Precisaria ter avisado com antecedência para eles testarem, é o que me falam.

Não quis mais discutir e voltei pra sala da qualificação. Instalamos a webcam, testamos o áudio. Entrei no Skype e loguei com minha conta – que nem lembrava mais, faz pelo menos uns três anos que não usava ele. Mas também baixei o Chorme e fiz uns testes com o Jitsi: funcionou bem, ouvi claramente o professor da banca (Fábio Malini) e ele me ouvia. A imagem oscilava, mas mais por conta da conexão (cabeada, rede da universidade) do que por outro motivo. Testei a opção do jitsi em compartilhar a tela com o outro participante, de modo a poder mostrar a tela da apresentação da quali, mas deu “tilt”: travou o som de retorno do Malini e ele não nos ouvia mais. Como já havia passados 5 minutos do horário de início, desativei essa função e regulei a webcam para mostrar a tela do projetor que estava sendo passada a apresentação. Gambiarra que deu certo e assim começamos a banca, com minha apresentação, seguido da fala de Malini, a de Alex Primo e minhas respostas. Como já disse na abertura do texto, foi uma ótima banca (pelo menos pra mim) e trouxe muitas contribuições pro andamento da pesquisa.

Na semana que vem falo mais desses encaminhamentos; aqui está o PDF da apresentação utilizada.

Diário da tese (1): do início até a qualificação

imagem post blog

Entrei no doutorado em comunicação e informação no PPGCOM da UFRGS em março de 2013. De lá até aqui, setembro de 2015, muita coisa aconteceu nesse processo: disciplinas cursadas na UFRGS e na PUCRS (existe um convênio entre os programas de pós-graduação em comunicação da região – Unisinos e UFSM, além dos já citados – que possibilita esse intercâmbio para cursar disciplinas, de forma gratuita e a depender da disponibilidade de vagas); estágios-docências realizados (no doutorado, dois são obrigatórios para quem é bolsista CAPES, o que é meu caso; fiz ambos em webjornalismo, no curso de jornalismo); orientações de trabalhos finais da graduação (oficialmente coorientação, porque só professor da universidade pode “assinar” a orientação do trabalho, segundo normas da UFRGS de 2014 pra cá, o que é uma questão complexa a se discutir em outro momento); entre outras coisas diversas que não vale citar aqui.

Nesse período, é natural – eu diria até normal – que o projeto inicial do doutorado se altere. Foi o meu caso; do nome do projeto com que entrei no doutorado, “Cultura hacker no jornalismo: métodos e ética do it yourslelf nas práticas jornalísticas contemporâneas do ciberespaço“, só a palavra jornalismo permanece hoje. Leituras, vivências e problemáticas levantadas nesses dois anos e meio foram os fatores responsáveis por essas mudanças, muitas delas trazidas pelas disciplinas cursadas, outras tantas por experiências fora da academia – no meu caso, a pesquisa estava (e ainda está) umbilicalmente ligada com minha prática fora da universidade. Nunca consegui pesquisar assuntos que não permeiem minha ação prática, profissional ou não, e suspeito que fazer esta separação seja um dos motivos pelo qual a universidade continua a construir muros de separação com a comunidade (a “realidade”), com raras exceções em alguns cursos e oficinas e nos projetos chamados de “extensão”. Projetos que, no caso de programas de pós-graduação em comunicação, não são comuns; no programa onde estou, só sei da existência de um destes projetos, e não me parece que seja muito diferente nos outros 44 programas existentes na área no Brasil, segundo a CAPES. Culpa do sistema produtivista, que não valoriza muito no Lattes esse tipo de ação, e também de todos que cá estamos, que às vezes não estamos preocupados (ou não queremos, ou – mais raro – não conseguimos) em trazer algum retorno, depois de anos de estudo, para determinada comunidade.

Mas voltando ao projeto: embora muita coisa tenha se modificado, outras permanecem. O projeto atual tem o nome de “A mediação no jornalismo produzido por não-jornalistas: um estudo das agências humanas e não-humanas na Mídia Ninja“. Da bagagem teórica e prática sobre cultura hacker e jornalismo que pesquisei nos últimos,  algumas questões permanecem, sobretudo da relação da ética hacker com a ideia de transparência presente em alguns coletivos de comunicação e o espírito “faça você mesmo” sem pedir autorização nem a “benção” de alguém. Outras mudanças são substanciais, como a forte presença da teoria ator-rede no trabalho (“agências humanas e não-humanas” vem daí), popularizada (e questionada) pelo antropólogo Bruno Latour, que tomei conhecimento em uma das disciplinas cursadas no PPGCOM, “Artefatos da Cultura Digital”, com a professora Suely Fragoso, e foi uma daquelas experiências conceituais que “viram a chave” de diversos entendimentos, tanto pra pesquisa específica como pra vida.

Este post inaugural do diário da tese tem um motivo especial de sair hoje: amanhã, dia 1/10, às 15h no auditório 2 do prédio da Fabico (faculdade de biblioteconomia e comunicação onde se situa o PPGCOM) vou a qualificação com este projeto. A banca é formada por Virgínia Fonseca, minha orientadora, e Alex Primo (UFRGS) e Fábio Malini (UFES). A qualificação é como uma pré-banca, onde o projeto de tese é avaliado e criticado, com o objetivo de afiná-lo até a defesa final, no meu caso a ser realizada entre dezembro de 2016 e março de 2017. Neste um ano e alguns meses até lá, o objetivo aqui é compartilhar referências, problemas, angústias e informações desse trabalho extremamente solitário que é a feitura de uma tese – por mais que haja orientador, colegas, amigos e grupos de pesquisa para se discutir, é sabido que a feitura de uma tese é um processo interno profundo, de cada um e seu(s) computador(res). Que seja, então, um processo solitário compartilhado.

P.s: Aproveitei a ocasião também para compilar alguns materiais espalhados, publicações e utilizados em aulas, palestras e oficinas, neste mesmo site, assim como informações sobre projetos que participo/participei. A ideia é ir agregando novos na medida em que forem sendo produzidos.

(a foto que abre o post é da Sheila Uberti)

Erros, acertos e experiências no jornalismo pós-industrial

post industrial

No início de junho de 2014 fiz um comentário breve no Facebook sobre boas novas pro jornalismo brasileiro a partir de um cenário otimista de expansão de iniciativas “independentes” dos grandes grupos de mídia (Globo, Folha, Estadão, RBS, etc). Fiz motivado pelo surgimento de “A Ponte“, um site de jornalismo de investigação focado em temas como direitos humanos, segurança pública e justiça, temas tão importantes quanto mal noticiados ultimamente.

O comentário também falava de como a crise do modelo industrial de informação poderia gerar uma “Idade de Ouro” no jornalismo, como acredita, por exemplo, o Bruno Torturra, ex-editor da “Trip”, um dos idealizadores da “Mídia Ninja” e ele mesmo, hoje, tocando um projeto independente de jornalismo, o estúdio “Fluxo“, que recentemente (final de julho de 2014) começou uma campanha de financiamento coletivo para o projeto.

Mais ou menos um mês depois do comentário, uma notícia quis que eu pensasse um pouco mais o tom otimista do comentário. A notícia é esta, publicada em 22 de julho de 2014: “O braço fraqueja às vezes: o Impedimento acabou“, que anuncia o fim de uma das iniciativas mais interessantes de jornalismo esportivo brasileiro, o site Impedimento. Na hora, senti o golpe no tom otimista, de cenário promissor, de explosão do jornalismo – da mídia de massas à massa de mídias, como diz o jornalista e professor francês Ignácio Ramonet em seu último livro – e escrevi o texto “Sobre o fim do Impedimento e o ecossistema do jornalismo“, no Brasil Post. Dizia, entre outras coisas:

“Hoje sabemos que o mundo é outro, que a publicidade por si só não paga o jornalismo na internet, e que, principalmente, o jornalista não está mais sozinho na produção de informação como em outros tempos. Muitas pessoas com o mínimo de acesso a internet podem cometer “atos de jornalismo” ao noticiar para milhares de pessoas em uma rede social, por exemplo, que um acidente de carro ocorreu em frente a sua casa. Neste cenário, como “premiar”, que seja com a continuidade, as melhores iniciativas de pessoas que trazem informações importantes para a nossa vida cotidiana? Como sustentar e qualificar uma quantidade grande de produtores de informação para bancar uma “dieta saudável” de informação, não dependente apenas de notícias “industrializadas” e, não rara, carregadas de quantidades tóxicas de interesses disfarçados? Como promover a continuidade de um jornalismo que seja um pouco mais transparente em seus interesses, um pingo mais sincero em sua forma de comunicar e que consiga, ainda assim, ter condições de ir atrás de histórias interessantes e importantes para a nossa vivência diária?

Talvez o comparativo com a produção da agricultura orgânica e/ou familiar possa servir para apontar um possível caminho para o aumento do “ecossistema”: pequenos produtores, menos (ou zero) fertilizantes, produção e consumo local, ecologicamente sustentável, menos intermediários, mais sinceridade no trato e menos cinismo. Talvez caminhar no fortalecimento dessa via seja uma boa coisa para a saúde desse ecossistema. Ou nos resta assumirmos que essas iniciativas que vem e vão são – nesse enquanto que o jornalismo tateia reinvenções – efêmeras, rotativas, e transformadoras dessa forma, no processo, no “foi bom enquanto durou”, como é (foi) o caso do Impedimento.”

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impedimento

Marcelo Träsel, professor de jornalismo digital da PUCRS, recentemente fez uma ótima análise em seu blog sobre o caso Impedimento e o do blog Destemperados. Ambos iniciaram suas atividades como blogs amadores em Porto Alegre e ampliaram suas atividades ao longo do tempo, profissionalizando-se e buscando formas de financiar a atividade editorial. Entretanto, o Impedimento acabou e o Destemperados assumiu recentemente a direção do caderno de culinária da Zero Hora. Por quê? A resposta mais simples é que, enquanto o Impedimento produzia jornalismo no sentido estrito, o outro publicava crônicas agradáveis que registrassem estabelecimentos interessantes, sem criticar, mas servir como um guia. Inclusive, um dos dez mandamentos dos Destemperados é “não avaliarás”, algo que não soa bem para o jornalismo, sempre tão crítico a tudo e todos.

Träsel faz uma análise completa do histórico dos dois casos. Cita que o Impedimento buscava, dentro dos “limites operacionais estreitos de um grupo de repórteres sem esteio numa empresa ou instituição, publicar informação que alguém, em algum lugar, preferiria não ver publicada”. Já o Destemperados não tinha esse compromisso. Queria, sim, ser um mostruário de gastronomia, não um jornalismo crítico de culinária. O fato deste último ter, em seu quadro, um publicitário, um advogado e uma profissional de Relações Internacionais, facilitava esse afastamento da “missão principal da imprensa”. Coisa que no Impedimento não acontecia, pois todos seus fundadores eram jornalistas. A partir das diferenças dois dois exemplos, o texto aponta 4 lições sobre empreendimentos jornalísticos independentes hoje. A saber:

1. Se é um empreendimento, alguém na equipe deve assumir o papel de empresário. A principal diferença entre o Impedimento e o Destemperados foi a predominância de uma mentalidade jornalística no primeiro e de uma mentalidade empresarial no segundo. Deixando-se de lado esse fator, todas as outras condições e circunstâncias são muito semelhantes, assim como ambos apresentam boa qualidade de conteúdo dentro de suas propostas.

2. Se ninguém na equipe mantém boas relações com empresários, políticos ou agências de publicidade, só há duas alternativas de financiamento: patrocínio do terceiro setor ou faturamento com venda direta à audiência. O problema do patrocínio do terceiro setor é depender também, em alguma medida, de boas relações políticas. Embora em geral a concorrência por bolsas seja mais aberta, baseada em editais, os selecionadores levam em conta a inserção de um determinado projeto numa comunidade de ativistas — por exemplo, o fato de algum dos proponentes já haver participado de outros projetos como voluntário ou funcionário. Além disso, em geral esse tipo de patrocínio se foca em jornalismo voltado a questões políticas e sócio-econômicas, o que eliminaria tanto o Impedimento quanto o Destemperados do concurso.

3. O problema de contar com financiamento direto pela audiência é ninguém ainda ter descoberto exatamente como vender notícias para leitores na era do jornalismo pós-industrial. Se alguém descobrir como fazê-lo, avise.

4. A terceirização parece ser uma via promissora, ao menos no Brasil. Além do Destemperados, há em Porto Alegre a experiência de agências como Cartola, Fronteira e República. Seus fundadores são repórteres jovens que, insatisfeitos com as restrições das redações tradicionais, pediram demissão e criaram suas próprias empresas. Hoje, prestam serviços para seus ex-empregadores e inclusive grandes veículos do Sudeste. Ganharam mais liberdade de escolha das pautas a serem perseguidas e, ao mesmo tempo, melhores salários e qualidade de vida.

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farol

Marcela Donini, jornalista e professora de jornalismo da ESPM, também leu o texto de Träsel e comentou em outro artigo importante para entender a situação hoje, a começar pelo título: Não sabemos de nada. Ali, também a partir dos dois casos, ela aponta o que, nas palavras dela, todo mundo já sabe: nós, jornalistas, ainda não sabemos como bancar reportagens desde que as verbas publicitárias começaram a migrar para outros canais na internet. Ela aposta numa hipotése: não é que as pessoas não querem mais pagar pelo jornalismo, a maioria delas talvez nunca quis pagar, pagava porque não tinha opção.

O texto foi publicado no Farol Jornalismo, uma interessante iniciativa de ideias, produção e pesquisas sobre novas formas de jornalismo, um projeto dela e de Moreno Osório, também jornalista e pesquisador do tema. “As pessoas pagavam uma assinatura de jornal diário mas acabavam lendo só a seção de esportes. E nós jornalistas tínhamos a ilusão de que elas se interessavam por todo o nosso produto, porque era difícil medir. Na internet, é possível saber direitinho o que dá audiência e o que não dá – e por testemunhos nossos, de colegas e por experiência como leitores, sabemos que esportes, celebridades e serviço fazem, em geral, mais sucesso do que política e economia. É o eterno embate entre o que o público quer ler e o que os jornalistas acham que o público precisa ler.”

Jornalista com experiência de anos em redação, ela comenta que esteve com uma editora de um jornal que falou de um conteúdo multimídia bem acabado com vídeos e infográficos sobre os 25 anos da Constituição e cuja audiência foi pífia. Um tema relevante, mas que, infelizmente, não interessa a muita gente, ainda mais na rede, com zilhões de outros assuntos te pedindo atenção. A partir daí, ela conclui que o “problema do jornalismo hoje não é que essas 3 pessoas não pagam a execução de um especial multimídia como esse; as pessoas nunca financiaram inteiramente o jornalismo, quem sempre bancou a imprensa foram os anunciantes“.

Sabemos que o jornalismo moderno é fruto do alvorecer capitalista do século XVIII, e seus financiadores foram, principalmente, os partidos, naquela época (até meados do XIX) em que o jornalismo era em suma opinativo e ligado a política; e a publicidade, notadamente do final século XIX e todo o século XX, em que a objetividade serviu como garantia de uma suposta neutralidade necessária para aumentar – e depois manter – o esquema industrial de produção de notícias. Hoje talvez saibamos que a publicidade não dá mais conta de (ou não quer) pagar o jornalismo. Mas o que dá?

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publica

Pergunta de um milhão.

Há iniciativas de vários lados, além das várias já citadas aqui: as financiadas por fundações privadas, em geral dos Estados Unidos, onde existe uma tradição de filantropia que potencializa iniciativas como a Pro Publica e a Agência Pública, no Brasil, que tem a Fundação Ford como principal financiador, além da Open Society e da Omydar, esta comandada pelo milionário Pierre Omydar, criador do E-bay, e que hoje está bancando outra iniciativa importante de jornalismo de investigação, o First Look Media, lar do The Intercept, comandado por Glenn Greenwald.

As “ongs” de jornalismo, como a Repórter Brasil, que trabalham com pesquisas, junto à governos (federal e estadual) ou a iniciativa privada (fundações e institutos) e também contam com doações, o que permite uma certa liberdade para tocar projetos de maior fôlego e que não teriam espaço nas publicações tradicionais, como é o caso do Moendo Gente, um especial multimídia sobre as condições de trabalho nos frigoríficos brasileiros. E, em especial, do Arquitetura da Gentrificação, uma investigação jornalística sobre o processo de gentrificação no centro de São Paulo financiada coletivamente – e que está em sua 2º edição em captação no Catarse. O AG tem por foco as medidas de higienização social adotadas durante as duas últimas administrações municipais de São Paulo (2005-2012), em especial as relações entre poder público e empresas privadas do setor de construção civil e ramo imobiliário – tradicionalmente, os dois ramos que mais investem na publicidade dos grandes jornais de SP, Folha e Estadão.

Existem, ainda, as startups, empresas pequenas que focam em soluções inéditas para problemas não-resolvidos (ou não pensados), em geral relacionadas a tecnologia digital e a internet. O cenário de muita experimentação e de crescimento da importância da tecnologia na produção do jornalismo (taí o jornalismo de dados para provar) parece ser favorável para o surgimento de pequenas empresas que criam produtos (aplicativos) ou serviços relacionados ao jornalismo. Nos Estados Unidos, onde a tradição empreendedora é forte, já existe até um centro de investigação com uma especialização nessa área, tocada por um Instituto ligado a Kony University e ao Knight Center.

Rosental Calmon Alves, brasileiro fundador da Knight Center para as Américas na Universidade do Texas, comentou, no último congresso da Abraji, que ele mesmo dá uma disciplina chamada jornalismo empreendedor (“Entrepreneurial Journalism”; dá uma olhada no currículo da universidade). A ideia da cadeira é que os estudantes criem uma startup, e para isso eles devem passar por “pitchings” diversos, inclusive o famoso “Elevador Pitching”, que consiste de apresentar a sua ideia em 3 minutos, como se estivesse num elevador com um investidor e aquela fosse tua única chance para convencê-lo a investir. Ao final, os alunos apresentam sua ideia para um jurado de investidores, que os avalia. No caso do Texas não há dinheiro de fato envolvido para os “vencedores” da turma, mas na especialização da Kony, por exemplo, esse mesmo processo dá R$50 mil para quem passar no pitching final.

Há um relatório sobre inovação no jornalismo, feito pela equipe do NY Times e muito citado por Rosental em sua fala, que aponta para o caminho das startups como um dos mais promissores na era do jornalismo pós-industrial. Vice, BuzzFeed, Huffington Post, Vox Media parecem dizer que esse é uma via em expansão – pelo menos nos Estados Unidos. No Brasil, há iniciativas que visam abertamente a incentivar a inovação no jornalismo, como é o caso da OrbitaLab, que surgiu para reunir quem tem projetos de mídia e quer tirá-los do papel e na última Campus Party fez uma maratona de debates sobre este assunto (estive lá e fiquei com a impressão que Marcela nomeou seu texto: não sabemos de nada. Estamos só testando. Quem errar melhor agora parece ter mais chance de acertar depois).

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ocupamidia

Ocupação da Câmara Municipal de Porto Alegre, 2013.

Um assunto que nem sempre aparece relacionado ao ecossistema em expansão do jornalismo hoje é o debate sobre a democratização da mídia, em especial no que diz respeito as verbas de publicidade dos governos. Há no Brasil uma forte concentração de dinheiro da publicidade governamental no que se convencionou chamar de “grande mídia” (tvs, rádios, jornais, revistas e portais de notícias), frequentemente conglomerados de comunicação que contém vários meios. Alega-se que estes grupos e seus meios tem a maior audiência e, por isso, são os que mais recebem dinheiro, sobrando pouco para pequenas publicações, rádios e tvs comunitárias que poderiam diversificar o leque de canais de informação a disposição da população.

Para ficar num exemplo prático, vejamos o caso do Rio Grande do Sul. O Grupo RBS, dono da RBS TV, jornais Zero Hora e Diário Gaúcho e da Rádio Gaúcha, abocanhou 35% da verba de publicidade do estado do RS em 2013, segundo dados obtidos pelo site Jornalismo B, o que dá cerca de R$17,5 milhões. Só em TV, onde a produção jornalística requer mais equipamentos e investimentos, 65% da verba de publicidade para o interior do RS fica com a RBS; na capital Porto Alegre, são 45%. No rádio, são 46% na capital para a Rádio Gaúcha, enquanto que nas rádios do interior esse valor é amplamente diluído, ficando a rádio Gaúcha com 6%.

Alguém pode alegar: nada demais nesses números. No que pergunto: recebem mais verba porque os veículos do grupo RBS são os mais vistos, ouvidos e lidos no RS, ou porque recebem mais verbas é que o produto final acaba sendo o mais lido? Há diversas explicações por trás dessa questão tipo “o ovo ou a galinha”, que se esmiuçadas nos ajudam a entender porque determinado grupo anda de mãos dadas ou jogando pedras em certos governos ao longo da história. Para ficar apenas em um exemplo: o jornal Zero Hora, hoje o principal do RS, foi criado em 4 de maio de 1964, um mês depois do golpe militar no Brasil. Não é coincidência que no seu início o jornal tenha saído abertamente pró-golpista, congratulando os militares que recém haviam tomado o poder e que nele permaneceram por duas décadas. Esse especial, também do Jornalismo B, esmiuça a relação da ZH com a ditadura militar brasileira.

Não tenho acesso ao orçamento do grupo RBS hoje, mas certamente o dinheiro da publicidade governamental não é a sua principal fonte de renda. Mas em algum momento foi para hoje não ser mais. O que me remete novamente ao contexto atual, de um novo ecossistema de informação, com milhares de novas publicações “não-industriais” e várias pessoas cometendo “atos de jornalismo” diariamente. Se ampliamos a distribuição de verbas do governo para novas mídias, blogs, jornais de bairro, tvs e rádios comunitárias, não estaríamos fomentando a proliferação de mais mídias, ampliando o ecossistema do jornalismo e proporcionando uma saudável concorrência por um jornalismo de qualidade? Ainda que haja críticas diversas a Lei dos Meios na Argentina, por exemplo, ela permitiu durante a última Copa do Mundo com que muitas comunidades humildes, indígenas, paróquias, municípios pequenos, pessoas jurídicas ou organizações não governamentais pudessem transmitir, sob a sua visão particular, os jogos, um ganho considerável em questão de pluralidade de pontos de vista.

Sabe-se que este certamente é um vespeiro difícil de mexer, dado a ferrenha oposição que os grandes grupos de comunicação brasileiros já demonstraram contra qualquer mudança no status quo da mídia no país, das concessões de tvs e rádios a criação de um conselho de jornalismo, batalhas estas da qual o coletivo Intervozes é a principal frente de oposição aos interesses corporativos. Não é preciso imaginar muito que estes mesmos grupos atacariam qualquer iniciativa de democratização da comunicação – possivelmente alegando palavras contrárias a “liberdade de expressão”, ou relacionando corrupção com investimento em blogs “governistas”, já que ser “tendecioso” é um risco que se corre com o investimento em pequenas mídias.

No mesmo RS, há uma tímida reação no sentido de democratização das verbas de comunicação com a criação da Política Estadual de Incentivo às Mídias Locais, Regionais e Comunitárias, lei aprovada na Assembléia Estadual em abril de 2014. Ela contempla 20% da verba de publicidade do governo do RS (executivo, legislativo e judiciário) para periódicos, jornais e revistas impressas com tiragem entre 2 mil e 20 mil exemplares editados sob responsabilidade de empresário individual, micro e pequenas empresas e veículos de radiofusão local – devidamente habilitados em conformidade com a legislação brasileira.

Não menciona qualquer linha as mídias na internet, o que é uma pena, dada a importância que a rede tem para a proliferação de pontos de vistas diferenciados. Mas uma exclusão compreensível, pelo menos em parte, pela relativa novidade (para o governo, sempre correndo atrás da sociedade) da questão, que põe lado a lado formas organizadas de pressão política (a realizada, ainda que timidamente, por jornais de bairro, tvs e rádios comunitárias) e a de blogs e mídias digitais, dispersas e não raro apartadas da política “tradicional” por recusa ao sistema político como está posto. Há, por fim, a justificativa da falta de formalização de muitas mídias digitais hoje, o que inviabilizaria que estas vencessem os trâmites burocráticos para concorrer as verbas do governo e abriria precedentes para diversas acusações de favorecimento de “amigos” – “mas como o blog Z ganhou X reais do governo?”, e coisas do tipo. A criação de um fundo estadual com esta verba, somada a regras bem claras e um conselho amplo que organizasse a distribuição, poderiam amenizar essa situação – mas achar que evitaria 100% estes casos ainda é, hoje, infelizmente uma utopia.

Ainda assim, a iniciativa não deixa de ser uma pequena vitória no sentido de fortalecer os pequenos veículos de comunicação e democratizar o fluxo das informações direcionadas à população. Talvez, nesse contexto caótico e afeito a novidades de hoje, esperava-se mais rapidez e avanços na proposta. Se o jornalismo está virando pós-industrial, os interesses políticos (e os da “indústria” da comunicação) ainda parecem estar fincados numa pesada e lenta era industrial.

Post originalmente publicado no BaixaCultura, em 11 de setembro de 2014.

Crédito fotos: 1, 2, Douglas Freitas (que ajudou na escolha da primeira foto também, valeu!)

Livraria que amamos (1)


shakespeare and co

Escrevi isso esse texto em 26 de janeiro de 2013, quando estive em Paris. Não me orgulho dele, mas reproduzo aqui:

Sei que é meio brega postar estas coisas, mas foi emocionante.
A livraria (ainda) é realmente incrível, espaço pequeno, apertado, daqueles de folhear um livro e pedir licença pra pegar o outro e não esbarrar no próximo leitor. Tem um piano pra quem quiser tocar e bonitos sofás pra sentar e ler calmamente. Acervo e preços bem ok (só de livros em inglês). A história e a aura gigante dali não se sustentariam se ainda não fosse um lugar interessante e aberto a novidades. E finalmente comprei um livro da City Lights, a editora de Lawrence Ferlinghetti que publicou os beats pela 1ª vez, o “Uivo” inclúido. (o livro adquirido foi “
San Francisco Poems”, do próprio Ferlinghetti).