A mais Recôndita Memória dos Homens

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Quando ouvi falar pela primeira vez de “A mais recôndita memória dos homens”, de Mohamed Mbougar Sarr, editado no Brasil pela @fosforoeditora , pensei: vou gostar. As referências a Roberto Bolaño e “Os Detetives Selvagens”, um dos meus 5 livros favoritos da vida até aqui; as vozes narrativas cruzadas em uma trama que vem e vai no tempo; as histórias de uma mágica África ocidental profunda e algo desconhecida ainda pra nós; o plágio sendo discutido, assunto que sempre me interessou e aparece em minhas pesquisas sobre cópia e cultura livre; a literatura como temática, longe da autoficção ególatra.

Todos motivos que me despertaram interesse, mas que não foram à época mais fortes que um certo ranço que tenho de obras que ficam famosas e se tornam best-sellers, caso de “A mais Recôndita”. Síndrome de banda indie, alguém já nomeou, para esta bobagem de desconfiar daquilo que faz muito sucesso e sai de um certo nicho. O sucesso do livro de Mbougar Sarr não é bem um estouro gigantesco como o de uma banda pop que renega as origens, eu deveria desconfiar, afinal estamos falando de literatura, não de música nem vídeo viral de 30s.

Antes tarde do que mais tarde, de julho a setembro de 24 eu finalmente venci o ranço e li o livro. Todos os elementos que me atraíam estão lá, com o acréscimo de vários outros, que só me fazem pensar que assombroso talento tem Mbougar Sarr. Uma escrita bonita, poética, por vezes sexy, em outras tantas melancólicas, pesada, engraçada, filosófica, política, mística, irônica. Um livro tão bom que aqui está o inevitável clichê: nasceu como um clássico, porque é um daqueles raros casos que a pretensão e a ousadia geram expectativas altas que são, de fato, cumpridas. Pelo menos as minhas foram.

Quando terminava de ler soube que @mbougarsarr vem ao Brasil para a Flip, daqui a 10 dias. Vai fazer sucesso, vender ainda mais livro por aqui, lotar todas as mesas que participar. E que bom será comemorar o sucesso de Mbougar Sarr!

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Mozfest, Amsterdam 2024

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Reativando esse blog depois de anos para escrever um breve relato de minha ida a Amsterdam no início de junho de 2024, sobretudo para participar do Mozilla Festival.

Considero a Mozilla – que, entre mil outras coisas, cuida do navegador Firefox – um dos atores globais mais importantes na luta por uma internet melhor, por isso fiquei feliz de ter me aproximado mais da valente e diversa comunidade da organização – uma comunidade que conheci mais proximamente (embora não tanto como gostaria) em 2018-2019 quando fui um dos Mozilla Open Leaders em um projeto conjunto com os amigos Mariana e Jorge do Artica Online, do Uruguai, e Dani Cotillas (Espanha).

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Neste ano, o tema do encontro foi “AI Trustworthy”, com o mote “On Togetherness & Solidarity”, o que já mostra um pouco da pegada do evento: juntar ativistas, desenvolvedores (muitos do software livre), artistas e participantes de organizações da sociedade civil para destrinchar e buscar construir sistemas de IA mais justos e transparentes, ou ao menos mitigar seus problemas caso eles realmente precisem existir. Este foi o tema mais comentado numa das principais mesas do evento, “We are Life: AI Accountability During War“, onde ativistas/pesquisadores da Ucrânia (Olga Tokariuk), Palestina (Marwa Fatafta) e do Congo (Kambale Musavuli) lembraram como a IA pode ser (e está sendo) usada para matar. Marwa Fatafta, em particular, deixou claro e de forma eloquente como os sistemas de IA em drones e de reconhecimento facial estão sendo usados por Israel para literalmente escolher quem deve viver e quem deve morrer na Palestina, enquanto Kambale Musavuli nos lembrou dos estragos em seu país que a busca por matéria-prima para IAs tem causado – o país tem milhares de trabalhadores (e crianças!) em condições precárias em minas de cobalto, metal azul prateado usado para fabricar baterias de íons de lítio que fornecem energia para diversos dispositivos tecnológicos.

Chamou atenção também o papel do jornalismo nessa edição do evento. A parceria com o Pulitzer Center rendeu três mesas onde jornalistas do mundo todo contaram de suas investigações sobre Accountability AI, dos “ghost workers” por trás dos treinamentos de dados para sistemas de IA até a proliferação de deep fakes turbinados por IA no WhatsApp. Uma das principais falas do evento foi também de uma jornalista, Mona Chalabi, que faz visualizações de dados incríveis para assuntos de interesse público no NY Times e no Guardian, mostrando como até aí é possível trazer características mais humanas – portanto, sensíveis e divertidas – que nos tiram do torpor do “doom scrolling” dos automatismos tecnolinguísticos.

Outro momento importante pra mim foi ver a Royal Shakespeare Company, uma das mais tradicionais companhias de teatro do mundo, que não se furta a brincar com tecnologias digitais de co-presença desde 2011, quando citei eles no meu livro sobre teatro digital, “Efêmero Revisitado“.

Dá para assistir todas as principais mesas no canal do Youtube.

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Em Amsterdam, também conheci parte do (enorme) departamento de Media Studies da Universidade de Amsterdam, uma das principais referências hoje nos estudos de plataformização, comunicação política e cultura digital. Meu guia por um dos campus, Gabriel Pereira me mostrou também como foi incorporado à universidade o headquarters da Companhia das Índias Orientais, provavelmente a 1º startup colonial do planeta, que entre 1603 e 1799 formou colônias em diversos cantos do planeta (inclusive o Brasil e especialmente a Ásia) para trocas comerciais, usando para isso mão de obra-escrava e diferentes (e cruéis) formas de exploração de pessoas e locais. Gabriel também me levou para um ótimo restaurante vietanamita no centro da cidade, uma portinha ao lado de um coffeshop numa rua estreita perto da Universidade.

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Conheci também, finalmente de forma presencial, Geert Lovink, ativista e pesquisador referência nos estudos críticos da internet desde os anos 2000. Dele publicamos, ano passado, “Extinção da Internet” – que revisei a tradução e escrevi o prefácio – primeiro livro completo publicado no Brasil por Geert, que tem uma extensa carreira de livros e obras publicadas. Visitei a sede do INC, Institute of Network Cultures, criado em 2004 por Geert dentro da Universidade de Ciências Aplicadas de Amsterdam, um enclave difusor de conhecimento sobre cultura da internet, conhecimento livre, arte e política digital, sobretudo a partir de seus livros (todos livres pra download) que documentam as transformações da internet ocorrida nessas duas últimas décadas. Levei alguns exemplares do “Extinção da Internet” para Geert, além do “A Cultura é Livre” e “Manifestos Cypherpunks” e trouxe de volta alguns outros do INC.

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Deu para conhecer um pouco Amsterdam, de bicicleta e de barco, e de visitar também um local histórico particular do meu interesse: a praça Spui, lugar dos venturosos Provos de Amsterdam, um dos primeiros movimentos da contracultura dos anos 1960 e inspiração até mesmo para o Festival BaixoCentro de SP, em 2011.

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Dias Perfeitos

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Faz duas semanas que vi “Dias Perfeitos”, do Wim Wenders (até hoje provavelmente o cineasta que vi mais filmes na vida) e ainda tenho me pego pensando nele – ajudado também pela playlist com as músicas das fitas de Hirayama (o protagonista) expandida um tanto para um rock psicodélico japonês que me fez descobrir a maravilhosa Sachiko Kanenobu (a “Joni Mitchell japonesa”, numa redução ruim mas que talvez ajude). Não é um filme onde coisas explodem, nem há reviravoltas malucas nem cenas chocantes; há a rotina mostrada numa existência ritualizada, onde os prazeres e os momentos de lazer se encaixam numa dinâmica geral e programada. Um eterno retorno do mesmo: dos mesmos horários, dos mesmos gestos, dos mesmos lugares, do mesmo trajeto, com sutis diferenças criadas pelo destino – o inesperado da diferença que sempre se apresenta.

A existência de Hirayama é marcada pela simplicidade (alguns diriam também “pobreza”), onde a felicidade se torna possível, descomplicada e discreta – o que não significa que não exista dor, trauma e sofrimento, já que há tb muita coisa escondida nessa rotina que não acessamos por completo. Algo muito bonito que ficou disso tudo pra mim é que Hirayama parece ter um certo “compromisso com um modo de existência”, uma definição de ética que está em Deleuze (que, por sua vez, buscou em Espinosa). O pouco que acessamos de sua vida fora dos “Dias Perfeitos” é uma sugestão sutil de que este modo de vida é um compromisso consigo, uma diferenciação com relação àquilo que esperam dele, talvez uma recusa em repetir os gestos da família, ou um desejo mais forte de tornar-se o que se é, com o mínimo, ou o máximo, de autoria e singularidade.

Teatro Oficina e Zé Celso

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Quando cheguei pela primeira vez para morar em SP, uma das prioridades da lista do que fazer na cidade era ir ao @oficinauzynauzona . Fui pela primeira vez ver “Bacantes”, uma experiência teatral-política-erótica assustadora, chocante pra mim na época – por isso transformadora e maravilhosa. Passei a acompanhar mais de perto para a pesquisa sobre teatro digital que resultou no “Efêmero Revisitado”, de 2012. É do livro esse trecho, p.126:

“A migração do vídeo para a internet se deu ao natural, em 1999, na transmissão ao vivo, on-line, de “Boca de Ouro”, de Nélson Rodrigues. A transmissão das peças passou a ser regra a partir de 2001, primeiro com o “Festival Oficina”, quando foram apresentadas três peças do repertório do grupo, e depois com o megaprojeto “Os Sertões”, cinco espetáculos de quase horas cada um, que viraram uma caixa de DVDs – numa mistura de teatro com cinema que rendeu um produto que não parece nem um nem outro. (..) Ainda que não fale em “teatro digital”, o Oficina visa usar a tecnologia para aproximar o espectador dos atores no espetáculo, com o intuito de acercar-se daquilo que consideram uma das experiências mais avançadas dos palcos teatrais, o teatro grego, feito em arenas enormes, para duas, cinco mil pessoas (…). A encenação ritualística e orgiástica do teatro do Oficina se presta, como em raros grupos brasileiros, ao uso de recursos tecnológicos: a mistura de linguagens, hibridismo, experimentalismo e a ideia de imersão dos espectadores no palco é uma característica forte de seus trabalhos”. Tem mais um monte de detalhes do uso do vídeo e do streaming no Oficina na entrevista que fiz com @tommypietra, um dos responsáveis à época, no livro.

Além de tudo o que foi e é, o Oficina também foi (e é) pioneiro em muitas frentes. São gênios os que constroem mundos estéticos que mudam a história da vida de muitas pessoas e da própria arte. Zé Celso era um destes raros, guia que levou o Teatro Oficina a um lugar incontornável na história do teatro brasileiro (e mundial).

A imagem é da última vez que vi Zé em cena, “Roda Viva”, 2019.

Nós somos umas Almôndegas

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Os Almôndegas talvez tenha sido uma das mais importantes descobertas da minha vida adulta.

Lembro bem quando os conheci, em 2007; um amigo de um amigo, de Pelotas como a maior parte dos integrantes, trouxe um pendrive com 16 músicas, uma espécie de The Best Of dos 4 discos que eles produziram nos anos 1970 (até hoje não sei como ele conseguiu, mas chuto que “ripou” de LPs). À época, pouca coisa se encontrava deles; não havia streaming, torrents eram escassos, discos esgotados. Bateu logo que escutei “Sombra Fresca e Rock no Quintal”, “Androginismo”, “Em Palpos de Aranha”: como assim nunca havia ouvido falar deles antes? como assim existia uma banda da minha região que misturava rock com regionalismos gaúchos sem ser careta e conservador e ainda por cima com leveza, bom humor e sagacidade? Pois sim, havia os Almôndegas, praticamente inventando a música pop urbana gaúcha, na melhor escola “rock rural” em voga daquele início/meados dos 1970 da qual Sá, Rodrix & Guarabira e a turma do Clube da Esquina eram parentes distantes, ainda que próximos. Inventar um modo de representar uma juventude, e com isso um modo de estar no mundo, é abrir uma porta atemporal de permanência na cultura. Não é pouca coisa. Por isso o show de retorno deles, depois de mais de 40 anos sem tocar com a formação original (faltou Pery), foi um acontecimento; de contemporâneos que cresceram ouvindo a banda, hoje a maioria com 50 e 60+, à minha geração, que os conheceu e cada vez mais os celebra na internet, todos pareciam muito comovidos, cantando todas as letras num auditório lotado, emocionados em ver, finalmente juntos, bem e ao vivo, aquela que talvez seja a mais importante banda da música popular gaúcha, como falou o @vitorramil.satolep , os “nossos Beatles”, como disse o @arthur.de.faria , que entende do riscado, ambos exagerados (ou não?).

Os vídeos, toscos, foi o que deu pra fazer estando emocionado demais.

El Fondo, Damián González Bertolino

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Anos atrás, viajei ao Uruguai e gastei algumas horas em livrarias para achar um escritor contemporâneo, que estivesse vivo e publicando (gosto dessa busca, já fiz isso em outros locais também, mas aí é outra história). Achei um livrinho de nome raro, “El increíble Springer”, ganhador de um concurso nacional, escrito por um tipo um pouco mais velho que eu, da região de Maldonado, Punta Del Este, chamado Damian Gonzaléz Bertolino. Narra a bonita relação da amizade de dois meninos dessa região, com o extraordinário aparecendo sutilmente na rotina de brincadeiras de rua, escola e na praia, o que me lembrou Onetti (meu escritor uruguaio favorito, enorme nome da literatura latino-americana) e suas borradas divisões entre realidade e ficção – mas longe, muito longe, da popular hoje autoficção.

No final do ano passado fui ao Uruguai e passei novamente um tempo em livrarias, mas dessa vez para procurar outro de Bertolino, e assim voltei com “El Fondo”. Novamente a infância e a mesma paisagem, mas agora a visão de uma criança sobre as histórias de sua família, especialmente de seu pai, um tipo raro de contador de causos extraordinários. Está ali também o cotidiano das descobertas infantis, as questões escondidas de família, que rendem também boas risadas (e umas lágrimas) na prosa simples de Bertolino, que emenda uma história na outra sem divisão de capítulos, às vezes nem de parágrafo (como costuma ser quando uma criança conta uma história?). Me peguei lendo e notando o quanto gosto dessas histórias que são também relato de uma paisagem, um modo de ser no mundo, narrado sem afetação, citações ou experimentação vazia, onde as referências e inovações estão à serviço da criação.

Recordei também o quanto me toca e é familiar esse “ethos” uruguaio; o mate, as praias enormes e ventosas, o horizonte aberto, a honestidade na comunicação, a noção algo lenta da vida que valoriza as coisas ditas “pequenas” porque ali tudo é um tanto pequeno. Inés Bortagaray em “Um, dois, e já” apresentava lindamente esse modo, assim com muitos Onetti (em vários contos), Morosoli (“A Longa Viagem de Prazer”) – e agora também Damián González Bertolino.

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Natália Ginzburg

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Comecei a ler Natália Ginzburg no final de 2020, com “As Pequenas Virtudes”, que me pegou pela honesta, discreta, fraterna sabedoria escrita de forma precisa e sem excessos, como mostra esse trecho (foto 2) lindo da abertura de “Retrato de um Amigo”, dedicado ao poeta Cesare Pavese. Depois veio “Léxico Familiar”, um romance magistral costurado de ocorrências mínimas da vida de uma família (a da autora) que, em meio a perseguição política fascista italiana e a inúmeras tragédias, resiste, vive, cria afetos, luta silenciosamente. O trecho da p. 163 (foto 3) nos lembra que a história se repete como tragédia E farsa nesse Brasil fascista de hoje.

Por fim até aqui, acabei hoje “Caro Michele”, um romance quase todo epistolar, de vazios tremendos (a começar pelo próprio Michele do título), silêncios profundos e de uma escrita permeada por não-ditos de tremenda sabedoria, melancólica por vezes, mas muito bonita e emocionante (caso do trecho da foto 4).

A escrita direta, por vezes seca, mas sempre fraterna e comovente de Natália Ginzburg, seus personagens perdidos, sofridos, interessantes, sobretudo sábios e “curtidos” de vida, acontecimentos e sentimentos reais, é uma daquelas coisas que quero ter por perto durante muito tempo.

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Poeta Chileno

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Gosto do Alejandro Zambra desde o primeiro que li, Bonsai, depois A Vida Privada das Árvores e Formas de Voltar para a Casa; todos tem uma certa concisão e uma precisão com as palavras que tornam a experiência de ler seus livros muito agradável, bonita mesmo, mesmo que falando de temas pesados.

Mas o que me chamou atenção desde o Bonsai é o seu tom terno de falar das coisas, de ver a “vida comum” com uma inteligência sutil, às vezes melancólica, às vezes muito engraçada, que faz com que criemos um clima de cumplicidade com os personagens (ainda mais sendo latino-americanos, com nossas diferenças e muitas semelhanças). Aquela vontade de pelo menos tomar um trago com alguns desses personagens numa mesa de bar e conversar sobre tudo noite adentro.

Poeta Chileno tem esse tom de ternura, humor, melancolia dos outros elevado ao quadrado – até porque ele é pelo menos o dobro de tamanho dos anteriores. Fala de poesia sem ser pedante, fala de sexo, relacionamento, encontros e desencontros, pais (e padrastos) e filhos, escritores e viagens, política e cidade, escolas e trabalhos, bebidas e enterros, comidas e música, feminismo e masculinidade: todo um mosaico de temas que compõe a vida comum (especialmente a de seres urbanos, nascidos na e pós década de 1980) com sutileza, beleza, leveza, ternura – essa parece ser a palavra mesmo, ternura. Dá vontade de sempre ter esses personagens de Zambra (e seus livros, e especialmente este “Poeta Chileno”, pra mim seu melhor até aqui) próximos, nem que seja para lembrar que mesmo sendo sul americanos fodidos de uma terra soterrada de retrocessos, ignorâncias, violências, burrices e maldades, existe beleza, leveza, arte, poesia, companheirismo, vida e amor que segue.

Extremo: Crônicas da psicodeflação

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Terminei de ler “Extremo – crônica da Psicodeflação“, do Franco Berardi, terceiro livro dele publicado pela Ubu Editora e quarto que leio do autor. Uma parte diário outra “meditações” a partir da pandemia. Talvez o mais irregular que li dele, também porque escrito no calor do momento. Ainda assim, ótimo pra refletir sobre esse período divisor da humanidade que é/será a pandemia. E também para acompanhar um pensamento em processo, vivo e se modificando ao vivo, sempre remix total e em rede com outras mentes, jamais tirado de um “nada” original que nunca existe.

Alguns trechos: “Era uma questão de levar, por meio da luta, o trabalho do cuidado para a esfera produtiva. Hoje, porém, fica claro que o movimento a ser promovido é o oposto. É necessário lutar para transformar todo trabalho produtivo em cuidado com a Terra, com a vida”. Guido Viale na p.121.

“Para quem vê bem o vírus (ou acredita que vê bem), a emergência é apenas uma contingência que passará se o vírus passar; para quem vê bem a emergência (ou acredita que a vê bem), o vírus será cada vez menos letal do que as consequências das políticas de emergência”. Wu Ming na p.119.

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Luigi d’Elia, “A Pandemia é como um Tratamento de Saúde Obrigatório Coletivo”, p.44, do diário de Bifo dia 23/3/2020.

Por fim, pra não ficar só no remix de outras falas, o próprio Bifo em um quase encerramento, profecia de atenção aos delírios das coisas reais, p. 127, 18/5/2020 no diário:

“Tudo vai ficar instável, como um bando de bêbados em um barco no meio da tempestade em alto-mar. É preciso nos preparar para um longo período de instabilidade e resistência e é preciso fazê-lo imediatamente. Resistência significa criação de espaços de autodefesa, de sobrevivência, de produção do indispensável, do afeto e da solidariedade.
Existem pelo menos 85 chances em 100, talvez 90 e até mesmo 91, de que a vida social piore, de que as defesas sociais se esfalecem, de que formas de controle tecnototalitário permaneçam agarradas ao corpo doente da sociedade, de que o nacionalismo belicioso prevaleça. É provável, provável, provável. Talvez inevitável”.

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Darcy Ribeiro nos ensina a re-imaginar futuros

Darcy Ribeiro com índios Kadiwéu, Mato Grosso do Sul, 1947. Foto Berta Ribeiro

Darcy Ribeiro com índios Kadiwéu, Mato Grosso do Sul, 1947. Foto Berta Ribeiro

Em setembro de 2020, à convite do Outras Palavras, participei do ciclo de debate “O Futuro do Trabalho no Brasil” na mesa chamada “Os serviços sofisticados: Cultura e Conhecimento“. Ao lado de duas pessoas que admiro bastante: Tatiana Roque, professora do Instituto Matemática da UFRJ, ativista da Renda Básica e ativa pensadora feminista e das subjetividades na esquerda brasileira; e Célio Turino, historiador, escritor, agente cultural, esponsável pelo conceito e implantação dos Pontos de Cultura no Ministério da Cultura de GIlberto Gil nos anos 2000.

Fui falar de cultura livre e da relação cultura e tecnologia que permeia meu trabalho faz mais de uma década – aqui está um breve texto sobre a mesa e o vídeo na íntegra. Porém, um pouco antes, fui atravessado por uma leitura recente que fala de utopia – e não distopia, palavra da moda e tão real pra esses tempos – e pensei que seria bom inserir alguns trechos dessa leitura para trazer um pouco de ideias que nos ajudem a repensar o futuro mesmo (ou principalmente) com as iminentes discussões sobre o fim do mundo, Antropoceno, Instrusão de Gaia, entre outros termos que falam da destruição do que chamamos de natureza de forma irreversível pela ação humana, ainda mais vísivel em 2020 no Brasil de Bolsonaro.

Por motivos diversos, acabei não usando na mesa o trecho resgatado da leitura em questão: “Utopia Brasil“, livro de Darcy Ribeiro, mais precisamente um texto desse livro chamado “IVY-MARAẼN, TERRA SEM MALES, 2997”, uma ficcão utópica do antropólogo (e também escritor de ficção) criador da Universidade de Brasília, vice-governador do Rio de Janeiro (Leonel Brizola era o governador) entre 1983-1986, entre muitas outras ocupações desse que é um dos maiores intelectuais brasileiros da história. Editei este trecho para transformá-lo no texto que segue logo abaixo, por dois motivos principais: o primeiro é que sigo achando importante lembrar do que nós, brasileiros e latino-americanos, somos capazes quando criamos entornos sociais que potencializem nosso modo de vida tradicional. E o segundo porque fiquei instigado em olhar para esse passado para encontrar uma (ou mais) solução para sair deste buraco que nos metemos, estimulado pela provocação trazida de uma entrevista recente de Bruno Latour à Ana Carolina Amaral, na Folha de S. Paulo:

É que —como posso dizer isso sem parecer desesperado?— se vocês administrarem uma solução, vocês salvam o resto do mundo. Porque em nenhum lugar há a mesma intensidade das duas tempestades se juntando, a ecológica e a política, como há no Brasil. O Brasil é hoje como a Espanha era em 1936, durante a Guerra Civil: é onde tudo que vai ser importante nas próximas décadas está visível.

Se hoje fomos agraciado em sermos o lugar onde todas as tempestades estão ocorrendo ao mesmo tempo, que seja também o lugar onde possamos jogar ideias possíveis sobre como viver apesar do fim. Seria o fim só o começo?

*

Buenas, gente. Agradeço o convite para participar do debate e poder dialogar com duas pessoas que admiro e acompanho o trabalho faz anos e que fizeram, ou estão fazendo, políticas públicas que são fundamentais para o Brasil, caso do Cultura Viva e dos pontos de cultura que Célio Turino foi um dos criadores; e da Renda Básica, em que Tatiana é uma das principais articuladoras da Rede Brasileira de Renda Básica.

O convite de Antônio para discutir o futuro do trabalho na cultura hoje, num governo que menospreza a cultura, me fez lembrar não da palavra que estamos nos acostumando a usar hoje para situar esse contexto político trágico – distopia – mas do seu contrário: UTOPIA. Sinto que também é necessário arejar nosso horizonte imaginativo para, então, pensar nos caminhos práticos pra chegar lá.

Nisso, começo aqui retomando um texto que conheci faz algumas semanas, de 1997, do Darcy Ribeiro – ele mesmo, antropólogo, escritor, político, vice-governador do Rio, aqui fazendo ficção utópica. O texto se chama “IVY-MARAẼN, TERRA SEM MALES, 2997”, e é um exercício imaginativo em que a américa inteira é uma só nação, ecofuturista, feminista, livre. É narrado em primeira pessoa por um cientista que faz um sobrevoo, de nave, pelo continente, chamado IVY MARÃEN, um bloco de 2 bilhões de gente, destacando alguns lugares em que ele mais prezava.

Ele começa falando dos Amazonidas, povo que habitam a grande região Amazônica, que convivem em harmonia com a natureza, uma gente feliz que tem por função ver a mata viver e crescer com seus milhões de seres vivos. O mais lucrativo para este povo, segundo Darcy, são as densas plantações de árvores frutíferas que dão as polpas e os sucos mais deliciosos que há – cupuaçu, maracujá, açaí, pupunha, murici. “É tambem bonito de ver e sentir o ritmo milenar de vida da floresta. Árvores antiquíssimas, ainda verdejantes. Outras empalidecendo, marcadas para morrer. Por baixo do manto florestal é insondável a trama de cipós, que descem das árvores ou sobem a elas. No chão, são lindos de ver os arbustos variadíssimos e arvorezinhas teimando para crescer com a nesga de sol que dificultosamente chega até elas.

Segue então para o Incário, região das nascentes do Amazonas, nos Andes, “onde as construções são edificadas ao redor de um templo de orações, num altar cortado na rocha viva”, em diálogo constante com os “pan-chinos” do oriente através do pacífico, sua principal fonte de renda. “O processo de conquista da autonomia e autodeterminação foi uma luta secular, em que tiveram que destruir as cidades de Lima e de La Paz, que funcionavam como agências de cristinização e europeização dos podos do Incário. Afinal, tiraram de lá toda a sua gente (…) deixando os que só sabiam ser euros para viverem como quisessem nas praias do Pacífico. (…) A partir do seu ser original, criaram uma nova civilização. Todos falam uma mesma língua local, desenvolvida a partir do quéchua e do aimara. Culturam velhos hábitos, sua antiga culinária, orgulhosos de terem dado ao mundo, de novo, a presença do império incaico, tão ameaçado de desaparecer“.

A nave então chega ao Pantanal, centro do continente, um dos grandes jardins da terra e um dos maiores centros fotográficos do mundo – que infelizmente, nesse setembro de 2020, está pegando fogo. Lá ele encontra o único grupo indígena da América do Sul que dominou o cavalo e fez do animal o principal parceiro na criação de gado, fonte principal de renda da região. “No meio daquele agual extensíssimo, encontramos gente vivendo em palafitas amplas e confortáveis, que cumprem duas ordens de funções em veículos semelhantes aos nossos e com instrumental adequado para mover as águas. Uns ocupam-se de deixar entrada livre aos grandes peixes que vêm do oceano Atlântico para ali desovar e se reproduzir. O ofício dos outros é fomentar o crescimento da fauna do próprio Pantanal“.

Então ele chega nos Sulinos, ao redor do Rio da Prata. Ele se surpreende com robôs, não mais humanos, criando gados e ovelhas na região que hoje seria o norte da Argentina e parte do Rio Grande do Sul. Também fala particularmente dos uruguaios, discretos plantadores de um “cogumelo negro, suculento e de cheiro insuportavelmente bom”, que tomou o lugar do gado nos campos da Banda Oriental. “Os uruguaios mesmo mal se deixarm ver, e nossa curiosidade era enorme. Eles são os únicos homens que ousaram moldar a figura humana. Quando toda a gente deixou de fumar cigarros, depois de quinhentos anos fumando gostosamente, os uruguaios substituíram os cigarros de tabaco por novas formas de cigarro, que são alimentícias e tem muita vitamina. Fumando-os através dos séculos, alargaram enormemente seus peitos e afinaram a cintura. Isso porque passaram a usar o pulmão como a melhor forma de alimentar, porque põe fumaças substanciais diretamente em contato com o sangue, que as absorve incontinenti. Os intestinos, dado o pouco uso, se reduziram a tripinhas“.

Darcy com sua nave passa também por Rio, Bahia e Brasília, capital de Ivy-Marãen, templo da Universidade do Mundo, centro de energia solar, a mais pura que existe. “Hoje, os campos energéticos de Brasília substituem o que eram as explorações de carvão e de petróleo”, já extintos em 2997, diz o texto, que segue expressando que o que mais agradou na capital foi a visita ao Templo Maior de Brasília, “que funciona como o núcleo principal de controle do Lexomundo, que emite o saber humano para toda a terra. Funciona hoje como um enlace de qualquer pessoa, de qualquer parte, que queira construir-se como um sábio. Quem o quer comunica-se por aparelhos ou por comunicação mental – se desenvolveu bem seus talentos para conectar-se e pedir orientação. É bem atendido e posto em contato com as pessoas mais capazes de ajudá-lo no seu campo de formação. Escolhido o mestre e aceito como aluno, o estudante da Universidade Virtual passa a trabalhar com toda uma massa de informações que recebe e na realização de programas de observação direta e expressão escrita da realidade, bem como no treinamento sistemático para pesquisas científicas“.

Ao final, Darcy Ribeiro começa a falar de como a civilização tropical dos “ivynos” é avançada tecnologicamente, com tecnologia de ponta e também valorização de toda a sua rica herança histórica e humana. De como eles também tem um sistema digital de conhecimento livre e de participação política – democracia direta, alguns diriam – onde todos os “ivynos” podem participar, seja nas questões de seu bairro como nas questões globais, tal qual um orçamento participativo. “O mais espantoso para nós e para nossos acompanhantes cibernéticos na vista a Ivy-Marãen é a completa integração de seu povo. Falando a mesma língua, oriunda do mesmo tronco, e cada vez mais parecidos uns com os outros, isso apesar da enorme variedade de gentes que havia ali ali antes do invasor europeu chegar, e dos constrates daqueles que vieram depois. Como tanta gente tão variada pode fundir-se racial, cultural e espiritualmente? (…) Seria acaso o próprio sofrimento secular de gente avassalada e escravizada que lhes dá esse sentimento de necessidade de vida?“.

Outro espanto, comenta o texto, é a modernidade dessa civilização tropical, “assentada na ciência mais avançada e na tecnologia de ponta, mas capaz de valorizar profundamente toda nossa herança humanística. “Eles formam hoje, em 2997, um corpo de dois bilhões de gentes, uma das parcelas maiores da humanidade. Nela totalmente incorporada, orgulhosa tanto de sua singularidade como de sua capacidade de convivência alegre com todos os homens da Terra”(…) A modernidade de Ivy-Marãen se expressa e se vê por toda parte de muitos modos, principalmente na sua capacidade e gozo de comunicação com o mundo. Diante deles quaquer ser humano merece respeito como ser único, que vale a pena conhecer e ouvir“.

Ao final do texto, o Darcy Ribeiro perosnagem do texto aponta que o que mais o espantou em Ivy-Marãen foi a negação de todas as mulheres a casar-se. Em tempos como os nossos, a imagem de uma utopia ciberfeminista traz um raro acalento imagético de futuro: “Só aceitam integrar a comunidade a que chamam casamento bororo. Ele consiste em viverem juntas vida autônoma, num casarão, as mulheres de várias gerações que integram aquela comunidade. Lá recebem seus maridos e têm filhos, que pertencem totalmente a elas e crescem todos juntos, aos cuidados daquele enorme mulherio. Para os filhos, o pai não é mais que um namorado eventual da mãe, que ela pode mandar embora para a comunidade dele e arranjar outro na hora que queira. O importante, para as crianças, é o tio materno, que está sempre por ali, conversando com eles e participando ativamente da vida comunitária. Essa família esdrúxula, que nem é família, surgiu do fracionamento da antiga família nuclear, quase sempre fracassada, em que os avós se convertem em sogros insuportáveis e as crianças eram de fato entreguem a creches. O casamento bororo superou todas essas dificuldades e floresce belamente, com mulheres namoradeiras e felizes crescendo contentes”.