A mais Recôndita Memória dos Homens

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Quando ouvi falar pela primeira vez de “A mais recôndita memória dos homens”, de Mohamed Mbougar Sarr, editado no Brasil pela @fosforoeditora , pensei: vou gostar. As referências a Roberto Bolaño e “Os Detetives Selvagens”, um dos meus 5 livros favoritos da vida até aqui; as vozes narrativas cruzadas em uma trama que vem e vai no tempo; as histórias de uma mágica África ocidental profunda e algo desconhecida ainda pra nós; o plágio sendo discutido, assunto que sempre me interessou e aparece em minhas pesquisas sobre cópia e cultura livre; a literatura como temática, longe da autoficção ególatra.

Todos motivos que me despertaram interesse, mas que não foram à época mais fortes que um certo ranço que tenho de obras que ficam famosas e se tornam best-sellers, caso de “A mais Recôndita”. Síndrome de banda indie, alguém já nomeou, para esta bobagem de desconfiar daquilo que faz muito sucesso e sai de um certo nicho. O sucesso do livro de Mbougar Sarr não é bem um estouro gigantesco como o de uma banda pop que renega as origens, eu deveria desconfiar, afinal estamos falando de literatura, não de música nem vídeo viral de 30s.

Antes tarde do que mais tarde, de julho a setembro de 24 eu finalmente venci o ranço e li o livro. Todos os elementos que me atraíam estão lá, com o acréscimo de vários outros, que só me fazem pensar que assombroso talento tem Mbougar Sarr. Uma escrita bonita, poética, por vezes sexy, em outras tantas melancólicas, pesada, engraçada, filosófica, política, mística, irônica. Um livro tão bom que aqui está o inevitável clichê: nasceu como um clássico, porque é um daqueles raros casos que a pretensão e a ousadia geram expectativas altas que são, de fato, cumpridas. Pelo menos as minhas foram.

Quando terminava de ler soube que @mbougarsarr vem ao Brasil para a Flip, daqui a 10 dias. Vai fazer sucesso, vender ainda mais livro por aqui, lotar todas as mesas que participar. E que bom será comemorar o sucesso de Mbougar Sarr!

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El Fondo, Damián González Bertolino

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Anos atrás, viajei ao Uruguai e gastei algumas horas em livrarias para achar um escritor contemporâneo, que estivesse vivo e publicando (gosto dessa busca, já fiz isso em outros locais também, mas aí é outra história). Achei um livrinho de nome raro, “El increíble Springer”, ganhador de um concurso nacional, escrito por um tipo um pouco mais velho que eu, da região de Maldonado, Punta Del Este, chamado Damian Gonzaléz Bertolino. Narra a bonita relação da amizade de dois meninos dessa região, com o extraordinário aparecendo sutilmente na rotina de brincadeiras de rua, escola e na praia, o que me lembrou Onetti (meu escritor uruguaio favorito, enorme nome da literatura latino-americana) e suas borradas divisões entre realidade e ficção – mas longe, muito longe, da popular hoje autoficção.

No final do ano passado fui ao Uruguai e passei novamente um tempo em livrarias, mas dessa vez para procurar outro de Bertolino, e assim voltei com “El Fondo”. Novamente a infância e a mesma paisagem, mas agora a visão de uma criança sobre as histórias de sua família, especialmente de seu pai, um tipo raro de contador de causos extraordinários. Está ali também o cotidiano das descobertas infantis, as questões escondidas de família, que rendem também boas risadas (e umas lágrimas) na prosa simples de Bertolino, que emenda uma história na outra sem divisão de capítulos, às vezes nem de parágrafo (como costuma ser quando uma criança conta uma história?). Me peguei lendo e notando o quanto gosto dessas histórias que são também relato de uma paisagem, um modo de ser no mundo, narrado sem afetação, citações ou experimentação vazia, onde as referências e inovações estão à serviço da criação.

Recordei também o quanto me toca e é familiar esse “ethos” uruguaio; o mate, as praias enormes e ventosas, o horizonte aberto, a honestidade na comunicação, a noção algo lenta da vida que valoriza as coisas ditas “pequenas” porque ali tudo é um tanto pequeno. Inés Bortagaray em “Um, dois, e já” apresentava lindamente esse modo, assim com muitos Onetti (em vários contos), Morosoli (“A Longa Viagem de Prazer”) – e agora também Damián González Bertolino.

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Natália Ginzburg

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Comecei a ler Natália Ginzburg no final de 2020, com “As Pequenas Virtudes”, que me pegou pela honesta, discreta, fraterna sabedoria escrita de forma precisa e sem excessos, como mostra esse trecho (foto 2) lindo da abertura de “Retrato de um Amigo”, dedicado ao poeta Cesare Pavese. Depois veio “Léxico Familiar”, um romance magistral costurado de ocorrências mínimas da vida de uma família (a da autora) que, em meio a perseguição política fascista italiana e a inúmeras tragédias, resiste, vive, cria afetos, luta silenciosamente. O trecho da p. 163 (foto 3) nos lembra que a história se repete como tragédia E farsa nesse Brasil fascista de hoje.

Por fim até aqui, acabei hoje “Caro Michele”, um romance quase todo epistolar, de vazios tremendos (a começar pelo próprio Michele do título), silêncios profundos e de uma escrita permeada por não-ditos de tremenda sabedoria, melancólica por vezes, mas muito bonita e emocionante (caso do trecho da foto 4).

A escrita direta, por vezes seca, mas sempre fraterna e comovente de Natália Ginzburg, seus personagens perdidos, sofridos, interessantes, sobretudo sábios e “curtidos” de vida, acontecimentos e sentimentos reais, é uma daquelas coisas que quero ter por perto durante muito tempo.

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Poeta Chileno

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Gosto do Alejandro Zambra desde o primeiro que li, Bonsai, depois A Vida Privada das Árvores e Formas de Voltar para a Casa; todos tem uma certa concisão e uma precisão com as palavras que tornam a experiência de ler seus livros muito agradável, bonita mesmo, mesmo que falando de temas pesados.

Mas o que me chamou atenção desde o Bonsai é o seu tom terno de falar das coisas, de ver a “vida comum” com uma inteligência sutil, às vezes melancólica, às vezes muito engraçada, que faz com que criemos um clima de cumplicidade com os personagens (ainda mais sendo latino-americanos, com nossas diferenças e muitas semelhanças). Aquela vontade de pelo menos tomar um trago com alguns desses personagens numa mesa de bar e conversar sobre tudo noite adentro.

Poeta Chileno tem esse tom de ternura, humor, melancolia dos outros elevado ao quadrado – até porque ele é pelo menos o dobro de tamanho dos anteriores. Fala de poesia sem ser pedante, fala de sexo, relacionamento, encontros e desencontros, pais (e padrastos) e filhos, escritores e viagens, política e cidade, escolas e trabalhos, bebidas e enterros, comidas e música, feminismo e masculinidade: todo um mosaico de temas que compõe a vida comum (especialmente a de seres urbanos, nascidos na e pós década de 1980) com sutileza, beleza, leveza, ternura – essa parece ser a palavra mesmo, ternura. Dá vontade de sempre ter esses personagens de Zambra (e seus livros, e especialmente este “Poeta Chileno”, pra mim seu melhor até aqui) próximos, nem que seja para lembrar que mesmo sendo sul americanos fodidos de uma terra soterrada de retrocessos, ignorâncias, violências, burrices e maldades, existe beleza, leveza, arte, poesia, companheirismo, vida e amor que segue.

A busca da memória

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Já de volta ao sul, leio o livro de Samarone Lima, ” O Aquário Desenterrado” (2015). Jornalista e escritor, Samarone é um recente dono de sebo em Olinda, a Casa Azul, onde fizemos o lançamento dos zines do BaixaCultura e uma roda de conversa (registros em foto aqui; relato mais detalhado em breve). Nasceu no Crato, no interior do Ceará, mas habita Recife desde 1987, onde já escreveu sete livros, entre reportagens, crônicas e poesia. Abriu seu sebo na região do Carmo, Cidade Alta de Olinda, no início de 2017, no início da temporada de chuvas do inverno nordestino, e lá tem promovido alguns cursos, sediado algumas peças de teatro, tudo aos poucos, devagar como a vida em Olinda durante um inverno chuvoso sem (tantos) turistas. O sebo tem uma seleção preciosa de livros de ficção e teoria, poucas e boas prateleiras que ocupam as duas salas da frente de um casarão típico daquela região da cidade, com uma estreita face virada para a rua que não sugere os diversos cômodos e o amplo pátio que se extendem ao longo da casa.

Samarone é um cronista dos bons, e em sua página, Estuario, é possível ter uma amostra disso – dos mais recentes, leia, em especial, “Anotações de um dono de sebo em Olinda“, relato de coisas simples que acontecem no seu dia a dia na Casa Azul. Gostei de vários poemas de “O Aquário Desenterrado”, poesias que evocam a memória, a infância, com imagens simples e poderosas, escritas com a precisão de palavras de um bom jornalista de tempos da máquina de escrever, onde apagar era mais custoso. Um dos que mais me interessou se chama “A Busca da Memória”, pg. 44-45, que reproduzo aqui abaixo não na exata diagramação livresca porque ela é impossível na tela, mas ao menos me atendo às quebras de linhas e espaços. Depois do texto, algumas fotos que fiz na Casa Azul e nos arredores, em Olinda.

A BUSCA DA MEMÓRIA

Saio à procura de memórias, palavras
murmúrios.
Encontro escadas, corredores
maçanetas geladas
de lugares que nunca vi.

De nada adianta
esta busca frenética:
tudo está no subsolo.

O esquecimento passa, arando.
O esquecimento anda com uma sacola
cheia de outras sementes
(é aleatório em seus costumes. Ama e esquece. Ama e malquer. Não ama e diz Amor).

Melhor não buscar, Samarone.
Aquieta-te.

Amordaça teu desejo de alcançar
o que já nem sombra é.

Nunca foi.

Deixa que a memória adormeça
que se proteja
como as vítimas do frio.

Apenas se tocando
em gestos impulsivos
em silêncio.

Apenas se aquecendo.

Apenas morrendo.

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Isabelita nos zines

Isabelita nos zines

Re-habitar de um “jeito antigo”

 

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Quando me formei em jornalismo pela UFSM em 2007, um dos presentes que ganhei foi um livro chamado “A Nova Visão, de Blake aos beats”, de Michael McClure. Na época, o livro me despertou mais atenção pelo beats da capa do que por qualquer outra coisa: havia sido durante a faculdade leitor assíduo dos romances de Kerouac, e conhecia alguma coisa de Ginsberg, Burroughs, Gregory Corso, Neal Cassady (o Dean Moriarty de On the Road) e do autor do livro, Michael McClure. O amigo que me deu o livro sabia desse meu interesse nos beats, e pensando nisso me presentou com “A Nova Visão”, uma coletânea de ensaios e poemas traduzidos para o português por Daniel Bueno, Lúcia Leite e Sérgio Cohn, também editor do livro, na Azougue.

McClure não me bateu de imediato: sua busca por uma poesia mamífera (e não só humana), suas sacadas ecológicas, biológicas e sua descrição de animais, habitats, o pendor para a história e a antropologia, as narrativas simbólicas do lobo não foram compreendidos por mim naquele tempo. Não eram os beats que havia conhecido na leitura que havia feito de Kerouac – Os Vagabundos Iluminados, Tristessa, Cidade Pequena, Cidade Grande e sobretudo On the Road – de estrada, liberdades, caronas, parceria e viagens de todos os tipos, embora McClure estivesse nessas viagens também e na clássica leitura na Six Gallery em 1955, marco inicial do que se popularizou como “geração beat”. Durante alguns anos, enquanto folheava de maneira muito esporádica “A Nova Visão”, visitava outro livro da mesma coleção da Azougue em uma livraria na cidade onde morava, buscando, hoje sei que secretamente, cotejar McClure com este outro livro e ver porque aqueles poemas e ensaios sobre montanhas, fogueiras e animais eram temas de escritores “beats”. Frequentei a livraria por anos e folheava sempre o mesmo exemplar, que já estava um tanto gasto e nem novo mais parecia, até que em 2010 tomei a coragem de comprá-lo, mesmo que fosse usado (talvez só por mim).

O livro se chamava “Re-Habitar“, ensaios e poemas, de Gary Snyder, outro escritor que se tornou famoso com a geração beat, que participou da leitura de 1955, das viagens (inclusive como personagem dos livros de Kerouac, em especial o “Japhy Ryder de “Vagabundos Iluminados”) e também escrevia de animais, ecologia, povos ameríndios e fogueiras. Em 2010, “Re-Habitar” me bateu melhor que “A Nova Visão”, muito por conta de seus ensaios, que se relacionavam com uma na época crescente visão que tinha de que estamos fodidos, enquanto humanos, à caminho da extinção de nosso planeta. Durante os anos seguintes, enquanto uma certa visão ecológica se amadurecia em mim, mantive o livro por perto em diferentes cidades onde morei, como uma espécie de farol ancestral que me servia de iluminação para saber para onde estamos indo –  e, principalmente, de onde viemos e quem são aqueles que estavam aqui quando nem nos conhecíamos enquanto pessoas, estados, nações. Fui atrás de algumas entrevistas com o autor, e passei a admirá-lo ainda mais quando ouvi o que falava, como falava e desde que lugar falava sobre temas como ecologia, zen budismo, integridade, ética, relação com os povos ameríndios ancestrais –  essa entrevista feito pelo escritor e poeta brasileiro Rodrigo Garcia  Lopes, em 2009, é especialmente interessante. Descobri que vivia (e ainda vive, aos 87 anos)  em um rancho que ele mesmo construiu nas montanhas de Sierra Nevada, na Califórnia, que havia passado 10 anos vivendo no Japão como um monge zen-budista, que havia ganho o prêmio Pullitzer por “Turtle Island” (1974), que é professor émerito da Universidade da California – Davis. Tornou-se, pra mim, um raro modelo de integridade de vida, arte e ativismo.

Em 2017, tenho “Re-habitar” ainda mais perto de mim. Com a catástrofe ambiental sendo cada vez mais uma realidade, com a “Intrusão de Gaia” (termo de Isabelle Stangers) nos fazendo perder todas as referências e com a chegada do Antropoceno, essa era geoológica que só deverá dar lugar a uma outra muito depois de termos desaparecido da face da terra, como diz Eduardo Viveiros de Castro e Déborah Danowski (em “Há Mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins”, 2014), entendo mais dos apontamentos de Snyder e de sua antevisão disso tudo que hoje vivemos.  Sua forma de falar de poesia, antropologia, história e biologia e encadear ideias densas em frases simples nos toca na raiz daquilo que nos faz humanos. Sua escrita, tanto nos poemas quanto nos ensaios, evoca séculos de ancestralidade, como se se ao lê-lo viajássemos pelas florestas e pradarias ao lado de um xamã – Snyder – que apresenta cada ser vivo do lugar com calma e cuidado, explicando de onde vem, para que servem e como vivem em rede com todos que ali habitam.

É do livro que trago alguns trechos de “Re-Habitação”, ensaio que se baseia numa palestra dada na Conferência sobre Rehabitação na Escola de San Juan Ridge, em agosto de 1976, e publicada originalmente no livro “The Old Ways“, editado pela City Lights (de seu amigo e outro beat que descobri tardiamente, Lawrence Ferlinghetti) em 1977. O texto articula ecologia, história, poesia e memória pessoal para falar da necessidade de nós, seres humanos, nos tornarmos re-habitantes, seres que possam conhecer um pouco daquele “Jeito Antigo” dos habitantes de verdade de um terrritório, que estão ali há séculos, milênios. Um jeito, ele ressalta, que “está fora da história e é, para sempre, novo”, na tradução em português  de Luci Collin.

Observando toda as diferentes árvores e plantas da floresta, um reflorestamento de Abetos Douglas e mais as pastagens que compunham o universo da minha infância, eu percebi que meus pais eram limitados num certo tipo de conhecimento. Eles sabiam dizer “Isso é um Abeto Douglas, aquilo é um cedro, isso é uma samambaia”, mas eu percebi uma sutileza e uma complexidade naquelas matam que iam muito além de uns poucos nomes. Quando criança falei com o velho índio Salish algumas vezes, ao longo dos anos, quando ele fazia as visitas – então, de repente, ele nucna mais voltou. Eu percebia o que ele representava, o que ele sabia,e o que isto significava para mim: ele sabia, melhor do que qualquer outra pessoa que eu tivesse conhecido, onde eu estava. Eu não tinha nenhuma noção de uma herança de branco americano ou europeu que oferecesse uma identidade; eu me definia pela ligação com o lugar. Mais tarde também compreendi que “língua inglesa” é uma identidade – e depois, através dos livros, recebi a visão cultural e histórica completa – mas nunca esqueci ou abandonei aquele princípio, o “onde” do “quem somos nós?. (p.242)

O propósito de toda essa vivência e estudo não é a auto-realização e o auto-conhecimento? Como o conhecimento do lugar nos ajuda a conhecer o Eu? A resposta, exposta de forma simples, é que todos nós somos serem compostos, não só fisicamente, mas intelectualmente, cuja característica individual e exclusiva, que nos identifica, é uma forma ou estrutura particular que muda constantemente no tempo. Não há nenhum “eu” a ser encontrado nisso e, ainda assim, bastante estranhamente, há. Parte de você está lá fora esperando para ser incorporada e outra parte de você está a seu lado, e o “agora” do momento sempre presente sustenta todos os pequenos eus transitórios em seu espelho. (p.247)

Não acontece apenas da integridade da terra norte-americana nativa estar ameaçada, ou as florestas e parques nacionais: é toda a terra que está sob uma mira, e qualquer pessoa, ou grupo de pessoas, que tentar permanecer num lugar e fazer bem alguma coisa, tempo suficiente para poder dizer, “eu realmente amo e conheço este lugar”, se encontra na posição de ser penalizado. A economia disso trabalha de forma que qualquer um que se atire à oportunidade de lucro rápido é recompensado – fazer agricultura adequada não corresponde a amontoar chances mais lucrativas – a correta administração de florestas ou de jogos significa fazer as coisas tendo em mente o futuro distante – e o futuro não pode nos apagar por isso de imediato. Fazer as coisas corretamente significa viver considerando que seus netos também desejarão estar vivos nesta terra, continuando o trabalho que nós estamos fazendo agora e com prazer intensificado”.  (p.248)

Na primavera passada eu vi velhos fazendeiros no Kentucky que pertencem a um outro século. Eles são habitantes de verdade; eles assistem ao mundo que eles conhecem se desmoronar e evaporar a olhos vistos, em face a uma lógica diferente que declara: “Tudo o que você sabe e faz, e o modo que você faz isto, não significa nada para nós”. Quão maior não será a dor e a perda das elegantes habilidades por parte das remanescentes culturas primitivas e não-brancas do quarto mundo – que podem econhecer as propriedades especiais de uma determinada planta, ou como se comunicar com os golfinhos – habilidades que o mundo industrial pode nunca mais recuperar. Não que esses conhecimentos especiais e intrigantes sejam o ponto em questão: o que está perdido é o sentido do sistema mágico, a capacidade para ouvir a canção de Gaia naquele lugar. (p.248)

Re-habitacional se refere ao ínfimo número de pessoas que deixam as sociedades industriais (tendo coletado ou desperdiçado os frutos de oito mil anos de civilização) e então começam a retornar à terra, de volta ao lugar. Isso surge para alguns com a percepção racional e científica das interconexões e dos limites em nível planetário. Mas as demandas reais de uma vida comprometida com um lugar, e que se mantém com um pouco da energia solar das plantas que se concentram naquele lugar são, física e intelectualmente, tão intensas que essa é também uma escolha moral e espiritual. (p.249)

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