Sexta-feira, sentado no parque

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Sexta-feira, 16h28, estou no Parque Marinha do Brasil, em Porto Alegre, sentado na grama & encostado numa árvore, de frente para o Guaíba. Os carros chacoalham rápido na avenida que separa o parque da orla, o sol começa a descer e refletir nas águas do lago-rio. Começo a acalmar a mente para meditar e, depois, ler um livro para preparar uma aula. Quando o turbilhão de pensamentos começa a tranquilizar, um caminhão furgão branco passa rápido na avenida em frente. Do lado do acompanhante, um homem põe a cabeça para fora da janela e grita:
_ VAI TRABALHAR VAGABUNDO! DEIXA DE FICAR AÍ SENTADO ESSA HORA. VAI TRABALHA!
Eu rio.

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Diário da tese (21): a versão final e o pós-tese

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Passados dois meses e quase meio da defesa, eis que está disponível no LUME (sistema de biblioteca da UFRGS) a versão da tese entregue para a biblioteca e que será, definitivamente, a prova cabal de que defendi a tese e posso ser considerado um “doutor” pelos sistemas acadêmicos. Boa parte do material que usei, assim como alguns fichamentos, está disponível nesta página também. Passado esse tempo, já vejo o trabalho com outros olhos. Ainda olhos viciados, mas menos do que antes, com um início de distanciamento do processo que já me faz ver com melhor nitidez os defeitos e as qualidades da tese.

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Ajudou a ter esse olhar, também, duas ocasiões em que estive falando do trabalho na Unisinos, a primeira na aula de Ronaldo Henn e Maria Clara Aquino Bittencourt na pós-graduação (a foto que abre o post é de lá, feita pelo Ronaldo Henn), uma semana depois da defesa; a segunda no VI Seminário Aberto de Jornalismo da mesma pós, numa mesa a debater “Práticas e Novos Modelos de Jornalismo Digital” com Leandro Demori (Medium/Piauí) e Daniela Bertocchi. Uma parte de minha fala foi transmitida ao vivo via Facebook, e um relato de Ronaldo resumindo o evento inteiro foi publicado no Medium.

Um sentimento muito presente pós-defesa é o de um certo alívio, oriundo do clichê “missão cumprida”. Outro, talvez mais meu do que de muitos recém-doutores, é o cansaço da academia: do sistema hierárquico, da cobrança de produtividade sem relevância, do diálogo às vezes viciado de formalidades que revelam mais falsidade do que honestidade. Felizmente, nas duas ocasiões na Unisinos, o diálogo foi produtivo e sincero, mas ainda estou num processo de afastamento desse universo e (re) aproximação de outros mais práticos. Busca pessoal mesmo, de ir para outras frentes que me interessam mais e que, por motivos tortos, nunca entraram na linha de frente de minha vida acadêmica.

Aos que aqui me acompanham, convido também a visitar o BaixaCultura, que está sendo reformulado para virar um laboratório online de cultura livre e (contra) cultura digital. Não é uma novidade em si, já que o Baixa vem sendo esse espaço experimental que caracteriza um laboratório já faz uns bons anos, mas agora isso vai estar mais explícito. E também o Enfrenta, projeto de mapeamento de coletivos espanhóis que participei em janeiro e fevereiro deste ano – quando a tese estava sendo revisada, aliás – e que, nestes meados de 2017, está em sua 2º etapa, de realização dos produtos da pesquisa. Com esses dois projetos e outros embrionários, busco criar caminhos, bem como fortalecer os já existentes, que me tragam algumas respostas sobre a viabilidade (“sustentabilidade”) de modos de vida alternativos,  uma busca de autonomia guiada pelas ideias da cultura livre e da economia solidária. Também é um teste de criação de caminho para buscar uma resposta bem particular: quais são as possibilidades de ser um “doutor” sem ser professor em tempo integral numa universidade, pública ou particular, tal como conhecemos a universidade hoje? É viável, em termos de sobrevivência financeira, ensinar e aprender com profundidade em sistemas que fujam do tradicional instituído na academia, mesmo que em alguns pontos não deixem de dialogar com ela?

Algumas pessoas tem dito e mostrado que sim, outras tem investigado bastante sobre isso (veja o Lab21), e eu tenho tentando entender um pouco melhor como se dão estes projetos, de doutorados informais à Escola da Ponte (veja essa entrevista com José Pacheco, um dos criadores da Escola), da Nuvem ao laboratórios de inovação cidadã (como o brasileiro LabxSantista, criado pelo Instituto Procomum). Como disse num post anterior, com a catástrofe ambiental sendo cada vez mais uma realidade, com a “Intrusão de Gaia” (termo de Isabelle Stangers) nos fazendo perder todas as referências e com a chegada do Antropoceno, essa era geoológica que só deverá dar lugar a uma outra muito depois de termos desaparecido da face da terra, como diz Eduardo Viveiros de Castro e Déborah Danowski (em “Há Mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins”, 2014), entendo também a busca de espaços de aprendizagem alternativos aos que existem hoje como fundamental para nossa sobrevivência enquanto espécie neste planeta.

Não perco totalmente a relação com a universidade porque acredito que haja uma possibilidade (pequena) de hackear ela por dentro. E, também, ainda dou aulas esporádicas de narrativas jornalísticas digitais em duas especializações, na UCS e na PUCRS, e nesta última começo no semestre que vem uma disciplina chamada “cultura hacker e jornalismo digital” que quero que seja um experimento de uma educação mais próxima à iniciativas que listo acima. Reconheço a Universidade como, mais do que produtora, um espaço de normatização e legitimação sistêmica do conhecimento, e o contato com ela é importante. Mas é certo que há muita vida e coisas a fazer também fora da universidade, não é mesmo?

 

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La caníbal, em Gràcie, Barcelona, “una cooperativa de trabajo asociado sin ánimo de lucro que quiere contribuir a la transformación radical -un horizonte anticapitalista, (trans) feminista y descolonizado”. Uma das diversas excelentes livrarias-cooperativas de guerrilha criada no vácuo da crise de 2011 na Espanha, com livros/zines/revistas de ativismos, feminismos, arte, ficção, histórias, anarquismos, filosofía… Periódicos de cooperativismo e encontros sobre os temas das estantes também compõem o clima. Num dos dias em que fomos lá, em janeiro de 2017, estava pra começar um encontro de mulheres sobre maternidade. Dalí veio, entre outras cosas, “Cincuenta presentimientos”, livro com os pressentimentos (intervenções provocadoras en las calles) do coletivo catalão Espai In Blanc. Fotos de janeiro de 2017.

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Re-habitar de um “jeito antigo”

 

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Quando me formei em jornalismo pela UFSM em 2007, um dos presentes que ganhei foi um livro chamado “A Nova Visão, de Blake aos beats”, de Michael McClure. Na época, o livro me despertou mais atenção pelo beats da capa do que por qualquer outra coisa: havia sido durante a faculdade leitor assíduo dos romances de Kerouac, e conhecia alguma coisa de Ginsberg, Burroughs, Gregory Corso, Neal Cassady (o Dean Moriarty de On the Road) e do autor do livro, Michael McClure. O amigo que me deu o livro sabia desse meu interesse nos beats, e pensando nisso me presentou com “A Nova Visão”, uma coletânea de ensaios e poemas traduzidos para o português por Daniel Bueno, Lúcia Leite e Sérgio Cohn, também editor do livro, na Azougue.

McClure não me bateu de imediato: sua busca por uma poesia mamífera (e não só humana), suas sacadas ecológicas, biológicas e sua descrição de animais, habitats, o pendor para a história e a antropologia, as narrativas simbólicas do lobo não foram compreendidos por mim naquele tempo. Não eram os beats que havia conhecido na leitura que havia feito de Kerouac – Os Vagabundos Iluminados, Tristessa, Cidade Pequena, Cidade Grande e sobretudo On the Road – de estrada, liberdades, caronas, parceria e viagens de todos os tipos, embora McClure estivesse nessas viagens também e na clássica leitura na Six Gallery em 1955, marco inicial do que se popularizou como “geração beat”. Durante alguns anos, enquanto folheava de maneira muito esporádica “A Nova Visão”, visitava outro livro da mesma coleção da Azougue em uma livraria na cidade onde morava, buscando, hoje sei que secretamente, cotejar McClure com este outro livro e ver porque aqueles poemas e ensaios sobre montanhas, fogueiras e animais eram temas de escritores “beats”. Frequentei a livraria por anos e folheava sempre o mesmo exemplar, que já estava um tanto gasto e nem novo mais parecia, até que em 2010 tomei a coragem de comprá-lo, mesmo que fosse usado (talvez só por mim).

O livro se chamava “Re-Habitar“, ensaios e poemas, de Gary Snyder, outro escritor que se tornou famoso com a geração beat, que participou da leitura de 1955, das viagens (inclusive como personagem dos livros de Kerouac, em especial o “Japhy Ryder de “Vagabundos Iluminados”) e também escrevia de animais, ecologia, povos ameríndios e fogueiras. Em 2010, “Re-Habitar” me bateu melhor que “A Nova Visão”, muito por conta de seus ensaios, que se relacionavam com uma na época crescente visão que tinha de que estamos fodidos, enquanto humanos, à caminho da extinção de nosso planeta. Durante os anos seguintes, enquanto uma certa visão ecológica se amadurecia em mim, mantive o livro por perto em diferentes cidades onde morei, como uma espécie de farol ancestral que me servia de iluminação para saber para onde estamos indo –  e, principalmente, de onde viemos e quem são aqueles que estavam aqui quando nem nos conhecíamos enquanto pessoas, estados, nações. Fui atrás de algumas entrevistas com o autor, e passei a admirá-lo ainda mais quando ouvi o que falava, como falava e desde que lugar falava sobre temas como ecologia, zen budismo, integridade, ética, relação com os povos ameríndios ancestrais –  essa entrevista feito pelo escritor e poeta brasileiro Rodrigo Garcia  Lopes, em 2009, é especialmente interessante. Descobri que vivia (e ainda vive, aos 87 anos)  em um rancho que ele mesmo construiu nas montanhas de Sierra Nevada, na Califórnia, que havia passado 10 anos vivendo no Japão como um monge zen-budista, que havia ganho o prêmio Pullitzer por “Turtle Island” (1974), que é professor émerito da Universidade da California – Davis. Tornou-se, pra mim, um raro modelo de integridade de vida, arte e ativismo.

Em 2017, tenho “Re-habitar” ainda mais perto de mim. Com a catástrofe ambiental sendo cada vez mais uma realidade, com a “Intrusão de Gaia” (termo de Isabelle Stangers) nos fazendo perder todas as referências e com a chegada do Antropoceno, essa era geoológica que só deverá dar lugar a uma outra muito depois de termos desaparecido da face da terra, como diz Eduardo Viveiros de Castro e Déborah Danowski (em “Há Mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins”, 2014), entendo mais dos apontamentos de Snyder e de sua antevisão disso tudo que hoje vivemos.  Sua forma de falar de poesia, antropologia, história e biologia e encadear ideias densas em frases simples nos toca na raiz daquilo que nos faz humanos. Sua escrita, tanto nos poemas quanto nos ensaios, evoca séculos de ancestralidade, como se se ao lê-lo viajássemos pelas florestas e pradarias ao lado de um xamã – Snyder – que apresenta cada ser vivo do lugar com calma e cuidado, explicando de onde vem, para que servem e como vivem em rede com todos que ali habitam.

É do livro que trago alguns trechos de “Re-Habitação”, ensaio que se baseia numa palestra dada na Conferência sobre Rehabitação na Escola de San Juan Ridge, em agosto de 1976, e publicada originalmente no livro “The Old Ways“, editado pela City Lights (de seu amigo e outro beat que descobri tardiamente, Lawrence Ferlinghetti) em 1977. O texto articula ecologia, história, poesia e memória pessoal para falar da necessidade de nós, seres humanos, nos tornarmos re-habitantes, seres que possam conhecer um pouco daquele “Jeito Antigo” dos habitantes de verdade de um terrritório, que estão ali há séculos, milênios. Um jeito, ele ressalta, que “está fora da história e é, para sempre, novo”, na tradução em português  de Luci Collin.

Observando toda as diferentes árvores e plantas da floresta, um reflorestamento de Abetos Douglas e mais as pastagens que compunham o universo da minha infância, eu percebi que meus pais eram limitados num certo tipo de conhecimento. Eles sabiam dizer “Isso é um Abeto Douglas, aquilo é um cedro, isso é uma samambaia”, mas eu percebi uma sutileza e uma complexidade naquelas matam que iam muito além de uns poucos nomes. Quando criança falei com o velho índio Salish algumas vezes, ao longo dos anos, quando ele fazia as visitas – então, de repente, ele nucna mais voltou. Eu percebia o que ele representava, o que ele sabia,e o que isto significava para mim: ele sabia, melhor do que qualquer outra pessoa que eu tivesse conhecido, onde eu estava. Eu não tinha nenhuma noção de uma herança de branco americano ou europeu que oferecesse uma identidade; eu me definia pela ligação com o lugar. Mais tarde também compreendi que “língua inglesa” é uma identidade – e depois, através dos livros, recebi a visão cultural e histórica completa – mas nunca esqueci ou abandonei aquele princípio, o “onde” do “quem somos nós?. (p.242)

O propósito de toda essa vivência e estudo não é a auto-realização e o auto-conhecimento? Como o conhecimento do lugar nos ajuda a conhecer o Eu? A resposta, exposta de forma simples, é que todos nós somos serem compostos, não só fisicamente, mas intelectualmente, cuja característica individual e exclusiva, que nos identifica, é uma forma ou estrutura particular que muda constantemente no tempo. Não há nenhum “eu” a ser encontrado nisso e, ainda assim, bastante estranhamente, há. Parte de você está lá fora esperando para ser incorporada e outra parte de você está a seu lado, e o “agora” do momento sempre presente sustenta todos os pequenos eus transitórios em seu espelho. (p.247)

Não acontece apenas da integridade da terra norte-americana nativa estar ameaçada, ou as florestas e parques nacionais: é toda a terra que está sob uma mira, e qualquer pessoa, ou grupo de pessoas, que tentar permanecer num lugar e fazer bem alguma coisa, tempo suficiente para poder dizer, “eu realmente amo e conheço este lugar”, se encontra na posição de ser penalizado. A economia disso trabalha de forma que qualquer um que se atire à oportunidade de lucro rápido é recompensado – fazer agricultura adequada não corresponde a amontoar chances mais lucrativas – a correta administração de florestas ou de jogos significa fazer as coisas tendo em mente o futuro distante – e o futuro não pode nos apagar por isso de imediato. Fazer as coisas corretamente significa viver considerando que seus netos também desejarão estar vivos nesta terra, continuando o trabalho que nós estamos fazendo agora e com prazer intensificado”.  (p.248)

Na primavera passada eu vi velhos fazendeiros no Kentucky que pertencem a um outro século. Eles são habitantes de verdade; eles assistem ao mundo que eles conhecem se desmoronar e evaporar a olhos vistos, em face a uma lógica diferente que declara: “Tudo o que você sabe e faz, e o modo que você faz isto, não significa nada para nós”. Quão maior não será a dor e a perda das elegantes habilidades por parte das remanescentes culturas primitivas e não-brancas do quarto mundo – que podem econhecer as propriedades especiais de uma determinada planta, ou como se comunicar com os golfinhos – habilidades que o mundo industrial pode nunca mais recuperar. Não que esses conhecimentos especiais e intrigantes sejam o ponto em questão: o que está perdido é o sentido do sistema mágico, a capacidade para ouvir a canção de Gaia naquele lugar. (p.248)

Re-habitacional se refere ao ínfimo número de pessoas que deixam as sociedades industriais (tendo coletado ou desperdiçado os frutos de oito mil anos de civilização) e então começam a retornar à terra, de volta ao lugar. Isso surge para alguns com a percepção racional e científica das interconexões e dos limites em nível planetário. Mas as demandas reais de uma vida comprometida com um lugar, e que se mantém com um pouco da energia solar das plantas que se concentram naquele lugar são, física e intelectualmente, tão intensas que essa é também uma escolha moral e espiritual. (p.249)

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Diário da tese (20): final de processo?

 

 

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Ontem foi a defesa da tese no PPGCOM. Depois de três longas horas de discussão, terminei aprovado. Muita coisa foi discutida e criticada durante esse tempo, e talvez boa parte dessas críticas e apontamentos sejam aproveitados em reescrituras da tese, novos artigos, quiçá um livro.

O amigo Douglas Freitas fez a transmissão via Periscope de uma parte da defesa – a minha apresentação, a fala de Fábio Malini e Ronaldo Hennn. As fotos são da Sheila. Os agradecimentos a tod@s que de alguma forma estiveram presentes no processo estão na própria tese. Por hora, esse diário da tese dá uma parada, voltando daqui a uns meses para, quem sabe, contar o que da tese se fez.

Diário da tese (19): Data da defesa

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Nos últimos meses não consegui manter uma periodicidade frequente aqui no diário, o que é de praxe em blogs. A reta final de um trabalho longo como uma tese sempre é desgastante e corrida. A viagem pra Espanha que fiz entre dezembro e fevereiro para o projeto Enfrenta! também ajudou a não ter mais muita postagem por aqui.

De qualquer modo, entreguei a tese (e hoje, 22/2, as cópias pra banca) e a data da defesa está marcada: 23 de março, no Auditório 2 da Fabico/UFRGS. A banca é a relacionada na imagem: Alex Primo e Fábio Malini, que estiveram também na qualificação, mais Suely Fragoso (UFRGS) e Ronaldo Henn (Unisinos).

Um pouco antes da defesa volto aqui para compartilhar mais um pouco de material produzido durante o processo da tese. Agora, umas férias merecidas de desconexão.

UPDATE, 20/3/2017:  Nesta página estão alguns fichamentos, textos publicados na mídia e outros materiais usados na tese. Depois da defesa publico o restante dos dados e a própria tese.

Diário da tese (18): sobre processos e formas

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As últimas semanas foram de intenso trabalho por aqui, tão intenso que mal deu pra postar neste diário. É algo que já previa: a quantidade de texto escrita e a revisar nestas últimas semanas somam horas em frente ao computador, e quando tenho momentos mais livres não é em frente a um dispositivo como este que escolho ficar. Mas também acontece que o diário é uma forma de refletir sobre o próprio processo, uma espécie de “alívio mental” que faz o texto sair da “caixa-preta” que ele se encontra, aberta apenas por quem o escreve e a orientadora que o corrige, e ganhar o mundo, mesmo que as poucas gentes que acompanham este processo e de uma forma diferente daquela a ser lançada na tese. O status de “publicado”, mesmo que aqui no blog, dá a tese uma materialização prévia, um pequeno ensaio do que será quando for defendido e estiver disponível por aí.

Sobre o processo de feitura, dá pra dizer que estas últimas semanas foram de fechamentos. O tempo que estabeleci para o término é até o final deste 2016; janeiro é o tempo de alguém de fora revisar o texto, fevereiro de 2017 é a entrega e março, a defesa. Com alguns meses de escrita, é notável que nosso texto vai ganhando consistência, a mente fica treinada e pega o “tom” das frases, fazendo um trabalho de filtro prévio de forma mais efetiva do que nos primeiros meses, onde tudo parece ser mais vago e os caminhos a seguir menos claros. Percebo também que uma boa organização dos textos lidos – fichamentos, sobretudo – ajudam demais nessa hora: as ideias vem em torrentes fortes e saber relacionar elas com os textos lidos (às vezes tantos que esquecemos) é fundamental para seguir o caminho. Infelizmente não fichei tantos textos como gostaria, então às vezes surge uma ideia que quero relacionar com determinado texto mas não sei em que parte do computador, da estante ou da rede ele está – e ir atrás dessa referência, num momento de turbilhão de ideias, pode frear a criatividade.

Outro aspecto importante desse período é a questão dos conceitos. Uma base teórica (metodológica) como a Teoria Ator-Rede traz muitos conceitos, que somados aos relacionados ao mundo onde estamos entrando (no caso, o da Mídia Ninja), podem fazer com que nos percamos facilmente. Quando o trabalho já tem vários capítulos e páginas, é muito fácil se perder em coisas como: “mas eu já não descrevi esse termo antes”? Não é a toa que muitos trabalhos guiados pela TAR usam de glossários no final, caso de “After Method” de John Law e “Into the Newsroom” de Emma Hemmingway, ou a tese de André Holanda (que fez um glossário online): é uma forma fácil, tanto para o leitor quanto para quem escreve, organizar melhor onde estão e o que definem estes conceitos. Também nesse caso dos conceitos é fundamental a leitura externa, de orientador ou revisor, que vai perceber melhor que a gente as repetições ao longo do trabalho.

Sobre a forma, minha proposta desde o início foi, na medida do possível (ou da briga que quero comprar), não fazer um texto “padrão” acadêmico, formal, em terceira pessoa. Para mim estava claro que isso não significa menos “rigor” na hora de escrever, mas sim buscar ser sincero na própria investigação e usar de recursos estilísticos (alguns poderiam dizer “literários”) que podem tornar o texto mais leve e agradável de se ler. Às vezes nos esquecemos que uma tese, como um TCC e uma dissertação, são para a banca mas também para outras pessoas lerem, e escrever “difícil”, encadeando citações sem “respiro” ou frases que só o autor entende, denota em muitos casos uma confusão de pensamento – que pode ser interessante quando intencional, mas certamente não é quando torna-se ocasional. A primeira pessoa é um procedimento comum em diversas áreas acadêmicas, em especial na antropologia e quando se trata de uso de métodos etnográficos, e nada mais é que a percepção de que o “eu” do autor está sempre presente no texto e na pesquisa. Não há como falar de um grupo onde se fez um trabalho de campo, por exemplo, sem mencionar o “eu” enquanto alguém que interferiu naquele lugar: escrever em primeira pessoa é só a afirmação desse eu e a negação de uma suposta “neutralidade” que sabemos ser irreal.

Outro aspecto que busquei (ou melhor, estou buscando, porque ainda não acabei) trazer na forma foi uma coisa que, por hora, estou chamando de “Interlúdio (Im) prescindível”. São trechos de texto que abrem os capítulos e tratam de temas ditos “complementares” ao capítulo que se segue, às vezes trazendo outros referenciais teóricos e uma escrita algo mais “leve”, narrativa, ou ensaística. É uma proposta inspirada por autores da própria TAR, como John Law e Bruno Latour, que trazem trechos assim, inclusive diagramados de forma diferente, em alguns de seus livros – notadamente “After Method” e “Reagregando o Social”, respectivamente – para trabalhar questões que não se ligam diretamente na sequência dos capítulos das obras, mas que de alguma forma fazem todo sentido estarem ali, como um “saiba mais”. O nome que estou usando para estes trechos vem a partir da inspiração de Rayuela (traduzido no Brasil para “O Jogo da Amarelinha”), de Julio Cortázar, e sua distinção entre a história propriamente dita, contada na parte “Del Lado de Allá“, do capítulo 1 ao 56, e a segunda parte, “De Otros Lados“, os capítulos chamado por ele de “prescindíveis”, do 57 ao 155, que trazem textos que poderiam ser chamados de complementares, mas que podem ser lidos em uma sequência junto aos capítulos da primeira parte, como sugere o próprio autor no início do livro.

Esta divisão foi a forma que encontrei para, também, por trechos de outros textos produzidos durante o doutorado, insights que não tive tempo para desenvolver por completo mas que fazem sentido estar na tese, questões relacionadas que fogem do escopo estritamente da TAR, entre outros motivos. Sobre o jeito que a banca vai ver esses capítulos, só em março para saber.

Diário da tese (17): em trânsito & transformações

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Escrito no Facebook em 9 de novembro.
Vou a SBPJor 2016, em Palhoça-SC, depois de alguns anos sem participar desse que é o congresso acadêmico que mais fui na vida. Nas últimas vezes, encontrei pouco diálogo com perspectivas que não fossem centradas num jornalismo “tradicional”, o que excluía (ou deixava bem de lado) pesquisas que não fossem centradas em “veículos jornalísticos empresariais”, ou perspectivas teóricas que também considerassem os “objetos” (ou “as tecnologias”) como participantes do processo de produzir do jornalismo. Como pesquisador interessado em tecnologias e comunicação para além dos grandes meios (alguns chamam de comunicação alternativa/radical/guerrilha), não me via nos debates focados amplamente em conteúdo – e conteúdo de jornais tradicionais. Nesse tempo, fiquei feliz de encontrar diálogo produtivo em áreas como os estudos de ciência e tecnologia, a antropologia, a filosofia, a computação e a arte, e em espaços pra além da universidade, locais autônomos de saber como as ruas, labs e hackerspaces, por exemplo. Mas tô voltando pra apresentar um texto que propõe um diálogo sobre metodologia pra além de só aquela coisa de “regras fixas que tem de seguir pra fazer um trabalho científico”, e que considere, de forma simétrica, “as tecnologias” que tomam (cada vez mais!) parte do processo de produção do jornalismo. Vai ser na sexta pela manhã, sessão 14, pra quem estiver no evento – quem não tiver por lá, logo publico o artigo na rede.
Fico imaginando (e torcendo) que esse diálogo seja mais presente nesta edição.

*

15 de novembro
De fato, foi um congresso interessante. Participei de duas mesas e de diversas conversas paralelas que me deram ânimo para continuar na pesquisa. Apesar de ainda ser uma perspectiva minoritária na SBPJor, muita gente tem atentado para dois fatos:

a) o jornalismo de veículos tradicionais – Folha de S. Paulo, Estadão, O Globo, Zero Hora e outros jornais chamado “de referência” – tem cada vez menos presença no consumo de informação na sociedade contemporânea. Com os cortes e as transformações do ato de produzir narrativas de informação de interesse público do tempo presente, já faz tempo que o jornalismo “de referência” não é a principal opção dos egressos de uma faculdade de jornalismo (embora ainda seja esse o que predomina no ensino de muitas faculdades por aí…): basta ver, numa turma de 30 alunos, quantos trabalham numa redação “tradicional” jornalística, e quantos trabalham com outras atividades, como assessoria de imprensa, social media, agências de conteúdos, “freelas” de diversos tipos, entre outras funções sendo inventadas a cada dia. Estudar só estes veículos tradicionais, portanto, é se ater a uma cada vez menor parcela da prática social conhecida como jornalismo. Existem outros vários jornalismos para além deste – inclusive para além de somente aquele produzidos por jornalistas.

b) o jornalismo, prática social central na modernidade, não organiza mais a sociedade, não inventa mais a esfera pública – seja qual for esta(s) esfera(s) – como fez durante boa parte do século XX. A vitória do boçal Donald Trump nos Estados Unidos, contra todos os grandes veículos de mídia “de referência” dos EUA, ilustra essa percepção (que não é só minha, foi comentada por um pesquisador na mesa onde apresentei, Elias Machado, da UFSC). Que é mais forte nos Estados Unidos e em outros lugares que aqui no Brasil, haja vista a influência que ainda teve os grandes veículos jornalísticos tradicionais no golpe travestido de Impeachment que tivemos neste ano. Mas é uma constatação importante: o jornalismo está deixando de ocupar, de forma muito veloz, essa posição central de indicador de caminhos para o debate público para se tornar “mais um” ator nesse cenário. Quem está ocupando este lugar que outrora foi do jornalismo? Acertou se você disse o que está pensando: as redes sociais – e especialmente o Facebook.

Semana que vem publico o artigo que apresentei no congresso. É um trecho de um dos capítulos da tese (o que apresenta e traduz os principais conceitos da Teoria Ator-Rede), com algumas inserções da metodologia do trecho de metodologia. Um trabalho em construção, uma versão primeira de algumas reflexões que tenho feito durante o processo de feitura da tese.

Imagem: do apptivismo do En Medio, trumpdonald.org.

Diário da tese (16): até onde ir?

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Uma das primeiras coisas que nos ensinam numa aula de metodologia na universidade é de que precisamos “recortar” nosso referencial teórico, metodologia, objetivos, hipóteses. Se quero estudar comunicação digital, por exemplo, não preciso necessariamente fazer uma revisão bibliográfica que vá ao início da comunicação humana, dos computadores e da internet. Se quero investigar um sistema de publicação online de um jornal, não posso entrevistar os seus criadores, os usuários, fazer uma etnografia na redação para acompanhar como ele é usado E ainda fazer uma análise do discurso dos textos “de ajuda” inseridos no software e uma análise de conteúdo com todas as postagens já publicadas pelo sistema. Ou, no caso de uma pesquisa empírica, se vou estudar a transmissão online “ao vivo” de acontecimentos do tempo presente na Mídia Ninja – para ficar no caso específico de uma parte da tese – não necessito estudar toda a história da transmissão “ao vivo” na comunicação para isso.

A questão é: será que não mesmo? Até onde devemos ir na hora de embasar nosso trabalho conceitualmente, propor nossos objetivos, escolher nossos objetos de pesquisa ou definir nossa metodologia? Uma resposta simples seria: até onde conseguirmos. Questão de tempo: na maioria das situações de pesquisa (ou seriam todas?), não podemos ficar o tempo necessário para uma investigação profunda. Não terminamos um trabalho científico, nos livramos dele em algum momento, em especial quando o prazo (e as bolsas) dizem que devemos entregar…

No caso específico de uma investigação guiada por uma perspectiva ator-rede, a operação pela qual o mundo social e o natural tomam forma é compartilhada por diversos atores, que mobilizam outros para seus cursos de ação, e outros, e assim indefinidamente: quanto mais olhamos de perto essa operação mais veremos atores agindo e fazendo outros agirem e produzindo diferenças. É uma situação parecida com o fractal* de Mandelbrot na ilustração que abre esse post. O “objeto mais complicado da matemática“, segundo alguns, é, como um ator numa rede, algo aparentemente muito simples: digitalmente, 6 toques num teclado são necessários para produzir um.  Mas mergulhos sucessivos em sua estrutura revelam uma complexidade crescente: detalhes aparecem cada vez que você aproximar a imagem. Se você der um zoom, as formas mudam, aparecem regiões dos fractais que lembram animais específicos, mais zoom e um ponto aparentemente negro sem detalhes ganha mais milhares de detalhes, que lembram a estrutura inicial, e assim sucessivamente, numa vertigem sem fim.

Como trabalhamos com textos e não cálculos matemáticos, nos debruçar sobre todos os atores, ou sobre muitos atores, levaria mais tempo e se estenderia por mais espaço que um ser humano dentro de uma universidade poderia ter – nesse aspecto, a matemática é mais rápida: com cálculos, muita coisa que nem conseguimos imaginar, que dirá escrever, pode ser prevista! Por conta disso, temos de fazer recortes, descrever aqueles atores que, ao longo da operação de tradução de uma coisa em outra, produzem mais diferença, ou que produzem outras ações que são significativas para uma dada investigação. Como diz Bruno Latour em Reagregando o Social, “Um bom relato ANT é uma narrativa, uma descrição ou uma proposição na qual todos os atores fazem alguma coisa e não ficam apenas observando. Em vez de simplesmente transportar efeitos sem transformá-los, cada um dos pontos no texto pode se tornar uma encruzilhada, um evento ou a origem de uma nova translação” (LATOUR, 2012, p.198).

Emma Hemmingway, em Into the Newsroom (2008, p. 73) afirma que para tentar definir o limite da rede em que os atores agem, muitas vezes se faz necessário seguir um ator para trás, para identificar onde ele se tornou significativo para essa rede e, só então, traçar o processo de tradução que tem sido feito até ali. Mas como definir onde determinado ator foi significativo em algum momento? Onde ele começou a fazer diferença seria uma boa resposta, embora não seja tão fácil quanto parece determinar onde e quando exatamente isso acontece…

No vocabulário da TAR, a diferenciação entre mediadores e intermediários tenta dar conta dessa dificuldade. É uma definição que nos ajuda a entender o que está importando em dado momento e que, por conta disso, devem constar no relato do investigador. Os mediadores são aqueles que transportam algo, produzem ação e alteram o curso das coisas, enquanto os intermediários até transportam, mas não mudam nada – ou não deixam prova de que mudaram algo, ou deixam provas que não conseguimos rastreá-las a ponto de trazermos para a investigação. São os mediadores, é claro, que almejamos descrever numa pesquisa científica, de forma a fazer com que todos aqueles que trazemos no relato científico façam alguma coisa e não fiquem no lugar de outros que não fazem (LATOUR, 2012, p.222). A pergunta, então, que está no título desse post pode ser refeita: até onde devemos ir na hora de escrever uma investigação científica? Questão para a próxima postagem.

*No ótimo perfil que João Moreira Salles faz de Mandelbrot na Revista Piauí, é narrado assim o momento em que o francês precisava dar um nome as “formas selvagens” que tinha descoberto. “Uma tarde, em 1975, seu filho chegara da escola e fazia o dever de casa com um dicionário de latim à mão. Folheando o livro, Mandelbrot caiu no arquivo fractus, do verbo frangere, “quebrar”, “fraturar”. Havia achado a palavra adequada: fractal.
Outro trecho é bem exemplar da importância da descoberta “Mandelbrot observou que formas irregulares – o litoral, por exemplo – tinham uma característica singular: sua complexidade não se alterava com a escala. O homem percebia certos recortes, o réptil percebia outros mais e outros ainda o inseto. Mas não era só isso: independentemente da escala, a forma percebida se mantinha substancialmente a mesma, como se cada segmento repetisse o todo. Essa característica – a autossemelhança – é o centro da geometria criada por Mandelbrot. O mínimo se parece com o imenso. Uma pequena nuvem é semelhante a uma nuvem grande e ambas obedecem a um princípio organizador único. A natureza está repleta de formas assim, cheias de reentrâncias, segmentos retorcidos, entrelaçados, irredutíveis à suavidade das formas puras. O salto que ele deu foi afirmar que essa é a verdadeira geometria do mundo natural. As irregularidades não são deformações da perfeição clássica, mas o idioma próprio da natureza.

Imagem daqui.

Diário da tese (15): descrever, descrever, descrever

twittcasting

Descrever é uma prática comum no jornalismo, nem tanto naquele que é produzido diariamente, mas sim naquele feito com tempo, cuidado e que passa por muitas mãos, seja na hora de mexer no texto (no vídeo, no áudio, em desenho, em site, ou em tudo isso misturado) ou a partir de fontes as mais diversas possíveis. Também é na antropologia, na escrita dos diários de campo etnográficos, em que os detalhes são importantes e a ação observada (e participada) é fundamental para se construir boas considerações teóricas. Não é raro de ver antropólogos com diários de centenas –  milhares! – de páginas de descrição profunda de detalhes para “transformar o exótico em familiar, ou o familiar em exótico”, como diz Roberto Da Matta em “O ofício do etnógrafo, ou como ter anthropological blues“ (1978), já citado por aqui.

E também é parte fundamental do trabalho que use a Teoria Ator-Rede como guia metodológico, como é o meu caso. Mas um trabalho de descrição de redes (de actantes, seres que agem, sejam eles objetos ou humanos), ao contrário do que talvez possa se imaginar, não é uma tarefa simples. Latour, em Reagregando o Social (2012, p.209) diz que a descrição completa, observar um estado de coisas concreto, descobrir o único relato adequado a uma situação, é uma tarefa muito desgastante: “o simples ato de registrar alguma coisa no papel já representa uma imensa transformação que requer tanta habilidade e artifício quanto pintar uma paisagem ou provocar uma complicada reação química (LATOUR, 2012, p.199)”.

Em diversos momentos, o caráter maçante de uma descrição pode nos fazer substituí-la por explicações trazidas por entidades vagas como “Sociedade, Capitalismo, Império, Normas, Individualismo, Campos”, o que faz com que o social escape pelas mãos. Como diz o pesquisador francês: “Ou as redes que tornam possível um estado de coisas são plenamente desdobradas – e, nesse caso, acrescentar uma explicação seria supérfluo – ou “acrescentamos uma explicação” declarando que outro ator ou fator deve ser levado em conta, de sorte que a descrição avance mais um passo. (LATOUR, 2012, p.200).

Trago a descrição pra este diário porque é justo neste processo de descrição do “estado das coisas” das redes de mediação na Mídia Ninja que me encontro neste momento. Ninguém disse que seria fácil, e não tá sendo: são páginas tentando buscar as melhores palavras para descrever como a Mídia Ninja chegou até a cobertura das manifestações de 2013, por exemplo. Muita coisa aconteceu entre 2006 e 2013 na rede que deu a sustentação à formação da Mídia Ninja, o Fora do Eixo, e a decisão de escolher o que foi importante (fez diferença) e o que não fez é sempre uma escolha difícil, ainda mais se tratando de uma rede que, por si só, já não é fácil de entender e tem um caminho muito distinto de redações jornalísticas mais tradicionais. Um caminho pra escolher o que está importando naquele dado momento analisado sempre parece ser as provas: se os atores não deixam provas que agem, ou deixam provas que não conseguimos rastrear de modo a compor um relato convincente dessas ações neste trabalho, então esse ator não vai estar na narrativa. A descrição não deixa de ser o resultado do rastreamento das associações entre actantes. Um trabalho de detetive. Ou de jornalista?

No caso da TAR, há ainda o fato de não separar os objetos dos sujeitos na hora da descrição. Então, se dado objeto está importando em dado momento, ele também vai ser descrito. Na prática, isso significa que você vai ter que descrever aspectos “técnicos” que demandam muita pesquisa para dominá-los a ponto de conseguir produzir uma boa narrativa. Um exemplo do trabalho que tenho feito: o twittcasting, software/aplicativo de streaming usado em junho de 2013 na Ninja. Os momentos de maior visibilidade do grupo se deram a partir de transmissões ao vivo do aplicativo usado a partir de um Iphone, uma prova suficiente de que ele agiu modificando outros atores e fazendo diferença. Mas como ele funciona? quem produziu? quais são os códigos que fizeram ele possibilitar a narrativa de uma dada realidade no que costumamos chamar de “ao vivo”? É necessário abrir esta caixa-preta para entender. E isso não é tarefa fácil para se fazer quando há outros outros atores que também esperam para ser descritos em detalhes.

Felizmente, há boas descrições em diversos relatos atores-rede. Tenho tentado ler alguns para me inspirar e ver melhor como posso construir a minha narrativa. Além dos já citados em outros posts, dois textos que são essenciais para a descrição de objetos técnicos estão abaixo, com seus respectivos arquivos em PDF; o último é indicação de William Araújo, colega doutorando e também um investigador ator-rede.

AKRICH, Madeleine.The De-scription of Techinical Objects. In: BIJKER, W. E., LAW, J. (Eds.).Shaping Technology/ Building Society. Studies in Sociotechnical Change. Cambridge: The MIT Press, 1992, p. 205-224.

CALLON, Michel. (2001). Writing and (Re)writing Devices as Tools for Managing Complexity. In J. Law and A. Mol (Eds.) Complexities in Science, Technology and Medicine. Durham, N. Ca., Duke University Press.