Hora de resistência e ida às bases

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Depois dessas eleições e da eleição da nulidade Jair Bolsonaro à Presidência, é hora de resistência, ir para as bases e, por mais paradoxal que seja, acreditar no que ainda resta de legalidade. Deixo duas boas análises:

_ Um panorama importante e realista sobre 3 caminhos possíveis para um governo Bolsonaro: presidencialismo de coalização, “legalidade autoritária” (na prática: ditadura) e um governo errante, violento e curto, no JOTA;

_ Rosana Pinheiro-Machado no The Intercept Brasil:
“Estudando o fenômeno do bolsonarismo e observando de perto a imensa esperança depositada em sua figura por uma parcela do precariado brasileiro, estou convicta que a insatisfação popular virá muito em breve. Diante desse cenário, o risco de radicalização do seu governo (uma espécie de novo AI-5, o ato mais duro da ditadura militar em perseguição de críticos ao regime) é enorme. Isso porque Bolsonaro terá que apontar culpados, inimigos internos e bodes expiatórios para justificar seu desastre”.

Antes de jogar a toalha e partir pra um exílio (quem pode), convém fincar os dois pés aqui para reivindicar cada resquício democrático que foi conquistado. Para evitar a radicalização num governo Bolso, importante 1) criar uma barreira de contenção que force o funcionamento das instituições por meio de movimento democrático que inclua ativistas, juristas, intelectuais, professores, jornalistas, artistas. Segundo: “refundar os valores da esquerda, aprendendo alguma lição da vitória de Bolsonaro: existe uma carência profunda em uma identificação nacional, uma demanda por resgatar na política os valores de trabalho, comunidade e família, um apelo por uma vida segura e menos precária.”

“Refundar a esquerda só será feito no momento em que nos damos conta de que, apesar de estarmos convictos de que a população errou na sua escolha, algumas de suas frustrações sobre segurança pública e corrupção, por exemplo, eram legítimas. Nós temos uma possibilidade de nos reinventarmos se aprendermos a ler a frustração popular que elegeu Bolsonaro.”

Foto: Dário Oliveira/Folhapress

LabicAR, outubro de 2018

12 de outubro

Gentes diversas, lindas e con ganas de luchar da ibero-america inteira estiveram entre 10 e 21 de outubro trabalhando em 10 proyectos en #Labicar, laboratórios de inovação cidadã promovido pela Innovación Ciudadana junto ao Santalab, em Rosário (Argentina). Na beira do grande rio Paraná, uma lufada forte de esperança na colaboração e en la construcción de nuevas formas de vivir y colaborar (esto es hacer política tambien, no?) enquanto las viejas formas reacionárias ameaçam retornar para nuestro Brasil sem memória. Feliz de estar aqui colaborando e (in) tentando construir formas de resisténcia ciudadana.

(escrito propositadamente en portuñol selvage, la lengua no oficial del evento – y del futuro)

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22 de outubro

Quem me conhece faz algum tempo sabe que latino-américa sempre foi meu sul. Não que exclua aquilo que vem do norte ou vá de um latino-americanismo ingênuo a achar que toda a maldade pra nós vem dos EUA e da Europa (e muita vem mesmo, mas não é o caso agora). O mundo não é tão binário e nem há tanta clareza entre “bons e maus” para fazer divisões fechadas.
Mas o fato é que nós, latino-americanos, ainda nos conhecemos muito pouco. Olhemos para os lados: quanto estudamos da história dos países que nos cercam nas escolas? quantas artistas, escritoras, políticos ou historiadores do nosso continente conhecemos na nossa adolescência? Há todo um potencial de referências, afetos, semelhanças e diferenças que, quando se encontram, se friccionam de uma forma que essas questões sempre me vêem à tona, com um tanto de lamento (pelo nosso cruel destino-colônia) e outro de euforia (somos muito/as, e potentes demais para ficarmos longe).

Para mim, o #labicar, terminado sábado passado em Rosário, foi mais uma confirmação desse sentimento. Quase 100 pessoas muito interessantes e diferentes de vários países da ibero-américa juntas durante 10 dias trabalhando com inovação (tecnológica, cidadã, cultural) geram um encontro muito muito forte de risadas, ideias criativas, afetos, festas, discussões apaixonadas, organização lógica-hacker, formação de redes. É um reconhecimento de diferenças e semelhanças que nos faz continuar os caminhos meio tortos que rompem tratados, traem os ritos, gritam, desabafam e nunca se dão por vencidos, como disseram João Ricardo e Paulinho Mendonça na sempre linda “Sangue Latino” (e a preocupação e o apoio genuíno que nós brasileiros recebemos contra a ameaça de anos de retrocesso com Bolsonaro é só uma dessas várias irmandades latino-americanos que nos acalentam).

Gracias a Santalab, Innovación Ciudadana y a toda la gente que proporcionó este encuentro tan tan potente. A pesar de toda la mierda que estamos en Brasil, hay que seguir: precisamos seguir, vamos seguir. Resistir siempre ha sido con nosotres.
As fotos abaixo foram tiradas durante o evento; algumas delas são das ações da nossa equipe MercadoJusto.com.ar, um “marketplace” de produtos de comércio justo que prototipamos durante os 10 dias do evento. Entrevistamos produtores locais, pensamos em modelo de negócio e fizemos um videozito para a apresentação final do projeto no Teatro.

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Parte da equipe e o garoto-propaganda feliz com sua camiseta LabicAR

 

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Em uma feira de produtos artesanais e agroecológicos de Rosário, entrevistando produtoras de cosméticos naturais

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Equipo completa. Em sentido horário, Peru, México, Brasil, Argentina e Equador

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Apresentação final do projeto no Teatro Príncipe de Astúrias, no Parque España, em Rosário

Cultura hacker e jornalismo II

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Registro tosco de mais uma turma da pós em Especialização em Jornalismo Digital  da PUCRS que tenho o prazer de dar aula de “Cultura Hacker e Jornalismo”, disciplina criada especialmente pra essa pós e provavelmente a única da latino-américa focada nesse tema. O tempo é pouco, e também não se “ensina” a ser hacker, mas deu pra fazer um bot de telegram, um site e falar bastante de privacidade, criptografia & táticas antivigilância na rede. Gracias alunxs!

p.s: a foto mostra uma mensagem escrita a mão “Bem vindxs, hackers” – sim, sou desses que às vezes escrevo no quadro – e o pad com as referências da disciplina está aqui. O material-guia das aulas pode ser acessado na aba “Aulas” desse site.

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Vitório

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Duas semanas atrás Vitório Uberti, avô da Sheila (minha compnaheira), fez 90 anos. Gosto de ouvir histórias e Vitório gosta de contar; fechamos uma boa dupla desde que nos conhecemos. Homem simples de origem italiana, Vitório sempre teve uma vida “comum” no interior do RS, trabalhador que saiu do campo pobre para buscar trabalho na cidade, onde se achou na área de mecânica de carros e equipamentos diversos e com isso construiu sua família e sua casa, em Bento Gonçalves. A riqueza de detalhes e da construção narrativa que ele adquiriu de episódios que outros achariam banais é o que fazem dele um excelente contador de causos. Conheci mundos e redescobri outros do interior ouvindo as histórias dele; aprendi muito sobre mecânica, geografia, história, carros e sobre o valor de pequenas coisas como uma música tocada no rádio, amizades fiéis, uma ressaca bem vivida – perdoem o clichê, mas felicidade é construída dessas pequenas coisas.

Segunda-feira 20/8 à noite Vitório morreu. Sempre difícil buscar palavras para dar conta desse mistério tão grande que sempre será a morte, mas lembrei do presente que eu e Sheila damos a ele nos 90: um zine com uma de suas muitas histórias. Chamamos de “Causos do Vitório” e distribuímos como lembrança a todxs os presentes na festa. O texto abaixo é uma pequena biografia que está na publicação, na foto localizado na mala com outros presentes e lembranças de Vitório; a segunda foto foi quando mostrei a ele o zine, agora sei que uma de suas últimas leituras, ele que nos últimos anos lia muito, livros, revistas, jornais, tudo que caía em suas mãos.

“Vitório Uberti nasceu em 9 de agosto de 1928 no interior de Viadutos, pequena cidade ao norte do Estado às margens do rio Uruguai, na divisa do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Saiu de casa aos 18 anos e passou a trabalhar por décadas com mecânica de diversos equipamentos, especialmente máquinas e tratores utilizados na construção de estradas. Trabalhou em cidades como Montenegro, Porto Alegre, Novo Hamburgo, Rio Pardo, Nova Prata, Campos Novos e em acampamentos temporários criados na construção de estradas, como a que liga Santa Cruz do Sul a Rio Pardo (RS)e a Br 116, no trecho chamado Rio-Bahia. É apaixonado por carros e mecânica; teve quatro dessas paixões em forma de carro: uma “Fubica” Chevrolet 32, uma DKW, um Corcel I e um Voyage. Foi morar em Bento Gonçalves em 1979 e ali construiu sua casa, localizada no bairro São Francisco, onde vive até hoje com sua companheira, Angelina De Bona Uberti, de 84 anos. Vitório cumpriu poucos anos de estudos formais, mas tem experiência e habilidade com tanto tipo de trabalho lógico e manual que deixa muito “doutor” formado em universidades no chinelo, como comenta sua neta Sheila Uberti: “Me ensinou e incentivou a usar as ferramentas da oficina, a trabalhar com madeira, com fiação, a pensar em soluções para restaurar cabo de panela e a fazer esquema de iluminação – só pra listar por alto. Do it yourself muito bem feito, se assim quiserem chamar.” Acompanha diariamente o noticiário na rádio e no jornal, lê livros e revistas com frequência e é um contador de causos de mão cheia – lembra de muitas passagens de sua vida em detalhes e é uma ótima parceria para quem gosta de ouvir histórias por horas. Esta publicação nasceu em homenagem aos 90 anos de Vitório.”

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A Colaboradora

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Estive em Santos em maio de 2018 para acompanhar a imersão de inauguração da Colaboradora, projeto experimental inspirado na La Colaboradora de Zaragoza, na Espanha, mas com todas as diferenças possíveis que um projeto com 14 artistas e produtores culturais, em vez de empreendedores criativos como na Espanha, num território rico e complexo como esse pode ter. A facilitação nesse processo feita pelo trio Etinerâncias foi coisa linda de se ver e sentir, trazendo o corpo, os sentimentos e a brincadeira para jogar no espaço a ser criado (o que é uma colaboradora? um espaço de colaboração artística e cultural com pelo menos 10 meses de duração, e o que mais?), no território ao redor a ser experimentado e no interior de egos complexos como costumam ser o de gente que se expressa enquanto artista no mundo.

No primeiro relato da documentação, tentei trazer um pouco do que foram os três dias de imersão inicial do projeto, com destaque para o território onde o lab e a Colaboradora se situa, a Bacia do Mercado. Um trecho: “Ao final da tarde do último dia de imersão, seguimos todxs para o espaço em frente ao Mercado Municipal onde ocorre o embarque e o desembarque dos pequenos barcos de madeira chamados catraia. São esses barcos, espécie de canoas maiores e motorizadas que levam até 20 pessoas sentadas, a forma mais rápida de acesso entre Santos e Vicente de Carvalho, distrito de 130 mil habitantes que pertence à cidade de Guarujá. O trajeto de 800 m é feito por pequenos barqueiros que atracam em frente ao Mercado; cobram R$1,50 para a travessia, que percorre em 10 minutos o Estuário de Santos, onde os enormes navios que chegam ao porto atracam, até chegar em Vicente de Carvalho. Para pegar o estuário, as catraias tomam um pequeno canal que passa embaixo de avenidas e armazéns das Docas do porto. Nesse dia, a maré alta fez com que o espaço entre as águas do canal, em baixo, e as ruas e armazéns, em cima, fosse menor que o usual. Os mais altos tiveram que se abaixar para não baterem no concreto enquanto o barco deslizava em direção ao estuário.”

Depois, fiz algo que, enquanto jornalista bissexto, não fazia há muito tempo: perfis. Tinha até me esquecido do quanto é bom ouvir pessoas interessantes e buscar traduzir em palavras suas histórias de um modo mais preciso, correto e sensível possível. Sem o relógio diário da “atualização contínua” a martelar, torna-se um trabalho prazeroso e artesanal, ainda que não ter cobrança diária não signifique não ter prazo, o que sabemos ser a causa mortis de muitos projetos, ideias e pesquisas.

Fiz 13 perfis dos integrantes da Colaboradora. Conheci melhor Santos e a Baixada Santista a partir de cada história dos artistas e produtores culturais participantes. As agruras de se readaptar ao seu país de origem, de sobreviver fazendo arte enquanto outros afazeres do status quo são mais fáceis de pagar as contas, de ser mulher negra e fora dos padrões de beleza, de sair (ou fugir) da casa dos pais para tentar a vida como artista, de fazer arte, dar aulas e cuidar dos filhos pequenos, de se descobrir artista/produtor depois de anos em outras carreiras; tem um pouco de tudo isso nos perfis. Todos eles podem ser vistos aqui.

“Eu não sou um Homem fácil”

Essa semana assisti “Eu não sou um Homem Fácil” (“Je ne suis pas un homme facile”), primeiro filme francês produzido pelo Netflix e dirigido pela tb francesa Eléonore Pourriat. A história traz um protagonista, machão conquistador clássico, que bate a cabeça e acorda em um mundo onde as mulheres e os homens têm seus papéis invertidos na sociedade, e tudo é dominado por mulheres. Somos nós que andamos de roupas curtas preocupados com os olhares e as ações delas nas ruas; são elas que fazem coisas ditas viris, como cortar carnes num açougue, enquanto o homem fica no caixa; somos nós os responsáveis pelos cuidados da casa, enquanto que elas ocupam os cargos de chefia nos trabalhos; entre outras inúmeras situações que a 1h38min do filme permite.

Apesar dos clichês e das simplificações por vezes excessivas típicas de uma comédia para a massa, é um filme muito interessante. Ao virar o olhar patriarcal de cabeça para baixo revertendo os papéis, nos faz refletir sobre o machismo nosso de cada dia absorvido desde a infância e endossado de todos os lados (trabalho, relações, amizades, famílias, esportes, etc). Nos faz perceber ainda mais como o machismo é uma prisão que dificulta a expressão de nossos sentimentos e, em muitos casos, não nos permite ser o que gostaríamos de ser porque “isso não é coisa de homem”. Uma prisão que, como é sabido, causa muitos males às mulheres, mas também a nós homens, que crescemos analfabetos emocionais e não raro pessoas mimadas sem nenhuma responsabilidade nem cuidado conosco, que dirá com outras pessoas.

Fica a dica, em especial para outros homens: relevem os clichês e as simplificações, assistam o filme, entrem na narrativa vendo a sociedade de outra perspectiva – e discutam sobre isso depois. Tá no Netflix e se encontra fácil para baixar (é de abril deste ano).

 

 

Cambalache

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Quem me conhece sabe que gosto de tango – como de jazz, milonga, afrobeat entre muitas outras coisas que não cabe aqui listar. Quem me conhece de mais perto sabe que “Cambalache“, escrito em 1934 por Enrique Santos Discépolo (imagem acima), é um dos meus tangos favoritos, por motivos que nunca sabemos explicar bem quando se trata de sentir, mas vou tentar organizar algumas impressões aqui sobre ela.

Escutei pela primeira vez a música na faculdade, quando estagiava num programa semanal na TV da universidade em que estudava. O programa era sobre psicologia e tinha a participação de dois professores-psicólogos da universidade e um aluno deles, no formato mais utilizado pela TV na época: todxs sentados numa bancada conversando sobre alguma tema – no caso, psicologia. Eu trabalhava na produção, preparando toda semana um vídeo de uns 3 minutos com diversas cenas de filmes que dialogavam com o tema escolhido. Locava os filmes (em fita) indicados pelo pessoal, selecionava os trechos e editava numa mesa de edição linear, um processo que nem consigo imaginar o quão mais fácil é hoje do que naqueles inícios de anos 2000.

Um dos últimos programas que editei foi o de despedida de um dos professores-psicólogos da universidade. Ele havia se aposentado e já estava de mudança para a Argentina, seu país de origem. Preparamos com toda a equipe uma edição especial e a mim calhou de fazer o que sempre fazia, o vídeo temático. Fui conversar com o professor argentino sobre o que ele queria ver/ouvir no programa, já que o tema era ele. Lembro de ambos estarmos sentados na sala de edição da universidade, com aqueles vários monitores e botões típicos da época, quando perguntei a ele: “qual a música que você quer escutar no programa?”. Foi então que ele me falou de “Cambalache”, disse que era a sua música favorita, comentou de como a letra composta no início do século passado ainda era perfeitamente atual no início desse século XXI.

Não lembro de como consegui a música, não existia Youtube e baixar sons “velhos” como “Cambalache” não era algo tão fácil à época. Mas sei que tocou no programa de despedida, ao final da edição, e continuou soando com os créditos finais. O professor depois me abraçou, agradeceu com os olhos marejados, e desde então eu nunca mais esqueci a música. Ouvi ela em diversas outra vezes, tanto na sua versão clássica com Julio Sosa, de 1955, quanto nas versões brasileiras de Caetano Veloso (de 1969, respeitosa e ótima interpretação) como na de Raul Seixas, que traduziu e deu um tom rock pra versão (de 1987; não gosto muito). Até mesmo em tempos de Netflix ela aparece: no 2º episódio da 2º temporada da série “Narcos”, Wagner Moura (ou Pablo Escobar) canta “Cambalache” no chuveiro enquanto seus capangas invadem um prostíbulo e matam várias pessoas, naquelas raras combinações de música, interpretação e imagem que, apesar da crueldade, nos dão um certo arrepio de emoção.

“Cambalache” é um tango extremamente popular, mas diferente da maioria que você ouve com frequência, não fala de amores, noite, corridas de cavalo nem bebida: fala de política. É uma reclamação repleta de citações e ironias sobre um mundo que não é mais o que era – na época, o século XX se iniciava e Discépolo, nascido nem 1901, usava com maestria as palavras para tecer uma crítica social contundente a certas práticas da época (ainda comum hoje, e que provavelmente serão por muitos séculos). Em 2018, o tom algo moralista da canção pode até ser apropriado por defensores brasileiros verde-amarelos “da moral e dos bons costumes”, que podem interpretar a música como uma crítica à tudo que cheira a política, mesmo que a letra genial permite vários outros pontos de vista – inclusive o de ir contra o poder estabelecido, perspectiva esta que gosto mais.

Sobre o professor, nunca mais vi. Soube que ainda está vivo e ativo, na Argentina.

Que el mundo fue y será una porquería
ya lo sé…
(¡En el quinientos seis
y en el dos mil también!).
Que siempre ha habido chorros,
maquiavelos y estafaos,
contentos y amargaos,
valores y dublé…
Pero que el siglo veinte
es un despliegue
de maldá insolente,
ya no hay quien lo niegue.
Vivimos revolcaos
en un merengue
y en un mismo lodo
todos manoseaos…

¡Hoy resulta que es lo mismo
ser derecho que traidor!…
¡Ignorante, sabio o chorro,
generoso o estafador!
¡Todo es igual!
¡Nada es mejor!
¡Lo mismo un burro
que un gran profesor!
No hay aplazaos
ni escalafón,
los inmorales
nos han igualao.
Si uno vive en la impostura
y otro roba en su ambición,
¡da lo mismo que sea cura,
colchonero, rey de bastos,
caradura o polizón!…

¡Qué falta de respeto, qué atropello
a la razón!
¡Cualquiera es un señor!
¡Cualquiera es un ladrón!
Mezclao con Stavisky va Don Bosco
y “La Mignón”,
Don Chicho y Napoleón,
Carnera y San Martín…
Igual que en la vidriera irrespetuosa
de los cambalaches
se ha mezclao la vida,
y herida por un sable sin remaches
ves llorar la Biblia
contra un calefón…

¡Siglo veinte, cambalache
problemático y febril!…
El que no llora no mama
y el que no afana es un gil!
¡Dale nomás!
¡Dale que va!
¡Que allá en el horno
nos vamo a encontrar!
¡No pienses más,
sentate a un lao,
que a nadie importa
si naciste honrao!
Es lo mismo el que labura
noche y día como un buey,
que el que vive de los otros,
que el que mata, que el que cura
o está fuera de la ley…

está fuera de la ley.

Memórias aleatórias de domingos #1

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Em 2010, recém chegado a São Paulo, entrei pela 1º vez no MASP pra ver “Lugares, estranhos e quietos”, uma exposição de fotografias de Wim Wenders. Aquelas 23 fotografias de lugares vazios ao redor do mundo me despertaram alguma coisa que até hoje não sei bem o quê. Fui atrás do catálogo, publicado pela Imprensa Oficial de SP, em várias livrarias e lojas da cidade. Não achei.

Em janeiro de 2014, em Berlim, fui visitar o Museum für Fotografie, Helmut Newton Foundation, um lugar que tinha achado bonito quando vi do metrô chegando na cidade, umas semanas antes. Não consegui ir no espaço da exposições, mas na loja do museu achei “Places, strange and quiet“, livro de Wenders com as fotografias de exposição. Gastei a grana de um dia inteiro de comida e hospedagem, mas comprei.

Em maio de 2015, a Sala Redenção, em Porto Alegre, fez uma Mostra Wim Wenders com mais de 20 filmes, novos e antigos. Na noite de uma segunda-feira chuvosa e fria de maio, vi “No Decurso do Tempo” (“Kings of The Road, Im Lauf der Zeit”, 1975), filme da “trilogia da estrada” do alemão que traz a história de um técnico de projeção de cinema e um homem recém-separado viajando pela Alemanha num caminhão. 3h em p&b com poucos e bons diálogos, muitas paisagens da Alemanha, música, introspecção: um filme impressionante.

Hoje fui buscar algum filme pra ver/baixar: achei “Alice nas cidades” (1974), o primeiro dessa trilogia, que ainda não tinha visto (gracias, internet) e uma coletânea em 4 discos das músicas tocadas (e/ou regravadas) nos filmes: “Wim’s – Driven By Music”.

Ainda não consigo entender direito o que as fotos, os filmes e estas músicas me despertam, mas.

A foto de abertura é do interior da Armênia, 2007, capa do livro citado; as outras abaixo também são do livro.

18 de setembro de 2016, Facebook

Wim Wenders: Sun Bather, Palermo, 2007 c-print 132 x 148 cm © Wim Wenders. Courtesy Haunch of Venison.

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Sobre uma foto e o interior do sul

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Essa foto foi feita em 24 de julho de 1943, data do casamento dos meus avós maternos Josephina e Guerino Feltrin, que estavam no coreto da Praça Saldanha Marinho, centro de Santa Maria. Nesse dia, os dois com vinte e poucos anos (ela 21, ele 25), saíram cedo de onde moravam, a Colônia Vacacaí (hoje distrito de Santa Flora, cerca de 30 Km ao sul de Santa Maria), e foram para o cartório mais próximo casar. Com suas mais caras roupas, sentaram-se num banco da praça depois do cartório e pediram um registro ao fotógrafo lambe-lambe. 74 anos depois encontrei esse registro na casa de uma tia, a que nasceria 9 meses depois desse momento.

Ambos eram filhos e netos de agricultores, brutos imigrantes italianos que falavam mais em dialeto (o vêneto) do que em português. Trabalharam desde cedo nas roças de fumo, milho, feijão, trigo e tudo (que poderia dar nas produtivas terras que seus avós receberam (não há registros disso, mas é o que acontecia) do governo brasileiro como recompensa para vir para o interior do Brasil. Sabe-se que, após a Abolição da Escravatura (1888), os agricultores e fazendeiros brasileiros optaram pela mão-de-obra de origem europeia, em vez de de integrarem os ex-escravos ao mercado de trabalho. No caso do interior do Rio Grande do Sul, o governo da época estimulou a imigração também como forma de “ocupar” a região. Santa Maria faria parte da 4º colônia de imigração italiana, que hoje compreende cidades como Faxinal do Soturno, Dona Francisca, Nova Palma, São João do Polêsine, entre outras, na região central do Estado.

Foram da Colônia Vacacaí até o centro de Santa Maria num transporte conhecido como Aranha, uma carroça puxada por cavalos, a melhor forma de chegar ao centro até a chegada do ônibus, anos depois, com duas linhas diárias que permaneceriam como únicas durante muitos anos. Demoraram horas para chegar na cidade; casaram, foram fotografados, comeram e no mesmo dia fizeram o caminho de volta. Raramente voltariam nos próximos anos pra lá, ocupados que estariam com o trabalho no campo e os filhos (4 mulheres e 1 homem). Décadas depois, Josephina, já sem Guerino (que morreria em 1968, aos 51 anos) iria morar na cidade. Uma parte das terras onde viviam ainda são cultivadas por um dos filhos, que hoje vive da produção de soja, a monocultura que a custo de muito investimento externo e agrotóxicos tomou conta das terras sul-riograndenses a partir da década de 1970.

“Entraram ali dentro. O dono da venda estava mudando de ramo e agora representava uma firma. Defensivos agrícolas de todos os tipos, latas novas que tionham caveiras sobre a tinta. Vidros, ampolas, galões, sacos plásticos, caixas, estojos, pulverizadores costais, máscaras, pipetas, misturadores, macacões, luvas coloridas, parafusos dourados, esguichos, bisnagas, baldes, embornais, botas de borracha, bonés. Ele esboçou uma crua ciência sobre todo o lote da mercadoria, excitado, batendo com o nó dos dedos nas latas e indo de uma direção a outra, aturdido como se estivesse vendo aquilo pela primeira vez. Estavam muito atentos, tocando com muito jeito os objetos, mas ajustavam os bonés nas cabeças e os pés nas botas novas. Era uma concentração química poderosa, de que ainda não sabiam o nome, era um produto, então, mas ele esclarecia que “um tanto disso mais aquilo e é um estrago bárbaro”. Com a faca retirou um lacre de um galão e depois outro e misturou duas coisas em um recipiente e chacoalhou e respingou aquilo no piso para olhares em círculo, alertas, que esperavam acalamar o fervilhar frio e leitoso. Era uma mistura branca, aguada, com aparência viva, girando num bojo de vidro. Ele saiu com o recipiente nas mãos, que fedia, e todos o seguiram. Fora, ele falava agora sem parar como se procurasse uma coisa e por onde ia levava “um tanto disso mais aquilo” erguido na altura do peito. (…) Mais tarde estavam todos envolvendo uma grande figueira cujas velhas raízes estavam a céu aberto. Derramaram nelas o líquido que rapidamente efervesceu e foi se entranhando e clareando os marrons da árvore. A luz da lua mostrava a supresa e a maravilha nos semblantes. Ficaram fazendo rodas em outras árvores, seguiam para onde fosse o vidro com o líquido branco, que fora renovado. Estavam mudos e estranhamente decididos. Quando retornaram à figueira ainda havia uns verdes neça. O experimento estava dando certo. Valia para pequenos e grandes projetos. Desde os canteiros domésticos até a lavoura imensa. Bastava ver o tipo de folha para se saber qual a mistura. Estavam enterrando as exnadas e as capinas, abrindo o sul para a técnica, anônimos, na noite alta, usando suas próprias árvores de sombra para provar a exatidão da química.” Luiz Sérgio Metz, Assim na Terra (p.45-46).

Na cidade do Rio Grande

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 Rio Grande, cidade fundada em 1737 à beira da gigante Lagoa (laguna) dos Patos, uma das quatro primeiras cidades da 1º divisão política-administrativa do Rio Grande do Sul (por D. João VI, em 1809, ao lado de Porto Alegre, Rio Pardo e Santo Antônio da Patrulha), cerca de 300 KM ao sul de Porto Alegre e 200 KM da fronteira com o Uruguai, em Chuy. Cidade histórica e portuária, com um vento forte, barcos atracados, ruas de pedras de séculos, e um ar decadente de horizonte largo que lembra cidades à beira do Rio da Prata, como Colónia do Sacramento, o que na minha memória compõe um cenário que lembra a Santa Maria Onettiana – aliás, não é o Dr. Díaz Grey saindo do bar da esquina borracho, olhando torto para outros homens que ali ficaram, vestidos com seus terno puídos e chapéus defumados em fumaças de cigarro barato?

Mas não é bem de Rio Grande que quero falar nesse relato rápido, mas sim do que me traz aqui. Vim participar do ESUD 2017, XIV Congresso Brasileiro de Ensino Superior a Distância/III Congresso Internacional de Eucação Superior a Distáncia, na FURG. A área da educação, e ainda mais a educação à distância, não é uma que costumo circular, por isso desconhecia o evento. Mas vim aqui para participar de uma mesa, “Caminhos Emergentes da autoria no Ensinar e no Aprender“, com Tel Amiel (Unicamp), e falar dos “10 mitos sobre o acesso aberto ao conhecimento”, um remix mais focado em educação de uma fala que já foi apresentada no Fisl 2016 e na Universidade de Aveiro, em Portugal. Também vou fazer uma roda de conversa sobre cultura livre e a rede de produtoras culturais colaborativas na Maloca Casa Colaborativa, um contato que surgiu a partir do III Encontro SUL. Gosto dessa diversidade: participar de um encontro acadêmico mais tradicional, em salas/auditórios com muitas pessoas, e uma roda de conversa “nas pontas”, com menos gente, sentadas em roda, troca mais olho no olho. Sinto que é uma necessidade minha de falar das “pontas” na academia, e de modo mais teórico/contextual nas “pontas”. Esse talvez não estar totalmente em nenhum dos dois lugares merece outra reflexão depois.

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A fala no ESUD pode ser vista aqui – com direito a interrupção por queda de luz e participação especial da Pirate Box compartilhando arquivos. Já abaixo estão algumas fotos da roda de conversa na Maloca, bem como alguns registros do Cassino, essa praia enorme e das mais ventosas do mundo.

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