Cultura hacker e jornalismo II

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Registro tosco de mais uma turma da pós em Especialização em Jornalismo Digital  da PUCRS que tenho o prazer de dar aula de “Cultura Hacker e Jornalismo”, disciplina criada especialmente pra essa pós e provavelmente a única da latino-américa focada nesse tema. O tempo é pouco, e também não se “ensina” a ser hacker, mas deu pra fazer um bot de telegram, um site e falar bastante de privacidade, criptografia & táticas antivigilância na rede. Gracias alunxs!

p.s: a foto mostra uma mensagem escrita a mão “Bem vindxs, hackers” – sim, sou desses que às vezes escrevo no quadro – e o pad com as referências da disciplina está aqui. O material-guia das aulas pode ser acessado na aba “Aulas” desse site.

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Vitório

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Duas semanas atrás Vitório Uberti, avô da Sheila (minha compnaheira), fez 90 anos. Gosto de ouvir histórias e Vitório gosta de contar; fechamos uma boa dupla desde que nos conhecemos. Homem simples de origem italiana, Vitório sempre teve uma vida “comum” no interior do RS, trabalhador que saiu do campo pobre para buscar trabalho na cidade, onde se achou na área de mecânica de carros e equipamentos diversos e com isso construiu sua família e sua casa, em Bento Gonçalves. A riqueza de detalhes e da construção narrativa que ele adquiriu de episódios que outros achariam banais é o que fazem dele um excelente contador de causos. Conheci mundos e redescobri outros do interior ouvindo as histórias dele; aprendi muito sobre mecânica, geografia, história, carros e sobre o valor de pequenas coisas como uma música tocada no rádio, amizades fiéis, uma ressaca bem vivida – perdoem o clichê, mas felicidade é construída dessas pequenas coisas.

Segunda-feira 20/8 à noite Vitório morreu. Sempre difícil buscar palavras para dar conta desse mistério tão grande que sempre será a morte, mas lembrei do presente que eu e Sheila damos a ele nos 90: um zine com uma de suas muitas histórias. Chamamos de “Causos do Vitório” e distribuímos como lembrança a todxs os presentes na festa. O texto abaixo é uma pequena biografia que está na publicação, na foto localizado na mala com outros presentes e lembranças de Vitório; a segunda foto foi quando mostrei a ele o zine, agora sei que uma de suas últimas leituras, ele que nos últimos anos lia muito, livros, revistas, jornais, tudo que caía em suas mãos.

“Vitório Uberti nasceu em 9 de agosto de 1928 no interior de Viadutos, pequena cidade ao norte do Estado às margens do rio Uruguai, na divisa do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Saiu de casa aos 18 anos e passou a trabalhar por décadas com mecânica de diversos equipamentos, especialmente máquinas e tratores utilizados na construção de estradas. Trabalhou em cidades como Montenegro, Porto Alegre, Novo Hamburgo, Rio Pardo, Nova Prata, Campos Novos e em acampamentos temporários criados na construção de estradas, como a que liga Santa Cruz do Sul a Rio Pardo (RS)e a Br 116, no trecho chamado Rio-Bahia. É apaixonado por carros e mecânica; teve quatro dessas paixões em forma de carro: uma “Fubica” Chevrolet 32, uma DKW, um Corcel I e um Voyage. Foi morar em Bento Gonçalves em 1979 e ali construiu sua casa, localizada no bairro São Francisco, onde vive até hoje com sua companheira, Angelina De Bona Uberti, de 84 anos. Vitório cumpriu poucos anos de estudos formais, mas tem experiência e habilidade com tanto tipo de trabalho lógico e manual que deixa muito “doutor” formado em universidades no chinelo, como comenta sua neta Sheila Uberti: “Me ensinou e incentivou a usar as ferramentas da oficina, a trabalhar com madeira, com fiação, a pensar em soluções para restaurar cabo de panela e a fazer esquema de iluminação – só pra listar por alto. Do it yourself muito bem feito, se assim quiserem chamar.” Acompanha diariamente o noticiário na rádio e no jornal, lê livros e revistas com frequência e é um contador de causos de mão cheia – lembra de muitas passagens de sua vida em detalhes e é uma ótima parceria para quem gosta de ouvir histórias por horas. Esta publicação nasceu em homenagem aos 90 anos de Vitório.”

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A Colaboradora

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Estive em Santos em maio de 2018 para acompanhar a imersão de inauguração da Colaboradora, projeto experimental inspirado na La Colaboradora de Zaragoza, na Espanha, mas com todas as diferenças possíveis que um projeto com 14 artistas e produtores culturais, em vez de empreendedores criativos como na Espanha, num território rico e complexo como esse pode ter. A facilitação nesse processo feita pelo trio Etinerâncias foi coisa linda de se ver e sentir, trazendo o corpo, os sentimentos e a brincadeira para jogar no espaço a ser criado (o que é uma colaboradora? um espaço de colaboração artística e cultural com pelo menos 10 meses de duração, e o que mais?), no território ao redor a ser experimentado e no interior de egos complexos como costumam ser o de gente que se expressa enquanto artista no mundo.

No primeiro relato da documentação, tentei trazer um pouco do que foram os três dias de imersão inicial do projeto, com destaque para o território onde o lab e a Colaboradora se situa, a Bacia do Mercado. Um trecho: “Ao final da tarde do último dia de imersão, seguimos todxs para o espaço em frente ao Mercado Municipal onde ocorre o embarque e o desembarque dos pequenos barcos de madeira chamados catraia. São esses barcos, espécie de canoas maiores e motorizadas que levam até 20 pessoas sentadas, a forma mais rápida de acesso entre Santos e Vicente de Carvalho, distrito de 130 mil habitantes que pertence à cidade de Guarujá. O trajeto de 800 m é feito por pequenos barqueiros que atracam em frente ao Mercado; cobram R$1,50 para a travessia, que percorre em 10 minutos o Estuário de Santos, onde os enormes navios que chegam ao porto atracam, até chegar em Vicente de Carvalho. Para pegar o estuário, as catraias tomam um pequeno canal que passa embaixo de avenidas e armazéns das Docas do porto. Nesse dia, a maré alta fez com que o espaço entre as águas do canal, em baixo, e as ruas e armazéns, em cima, fosse menor que o usual. Os mais altos tiveram que se abaixar para não baterem no concreto enquanto o barco deslizava em direção ao estuário.”

Depois, fiz algo que, enquanto jornalista bissexto, não fazia há muito tempo: perfis. Tinha até me esquecido do quanto é bom ouvir pessoas interessantes e buscar traduzir em palavras suas histórias de um modo mais preciso, correto e sensível possível. Sem o relógio diário da “atualização contínua” a martelar, torna-se um trabalho prazeroso e artesanal, ainda que não ter cobrança diária não signifique não ter prazo, o que sabemos ser a causa mortis de muitos projetos, ideias e pesquisas.

Fiz 13 perfis dos integrantes da Colaboradora. Conheci melhor Santos e a Baixada Santista a partir de cada história dos artistas e produtores culturais participantes. As agruras de se readaptar ao seu país de origem, de sobreviver fazendo arte enquanto outros afazeres do status quo são mais fáceis de pagar as contas, de ser mulher negra e fora dos padrões de beleza, de sair (ou fugir) da casa dos pais para tentar a vida como artista, de fazer arte, dar aulas e cuidar dos filhos pequenos, de se descobrir artista/produtor depois de anos em outras carreiras; tem um pouco de tudo isso nos perfis. Todos eles podem ser vistos aqui.

“Eu não sou um Homem fácil”

Essa semana assisti “Eu não sou um Homem Fácil” (“Je ne suis pas un homme facile”), primeiro filme francês produzido pelo Netflix e dirigido pela tb francesa Eléonore Pourriat. A história traz um protagonista, machão conquistador clássico, que bate a cabeça e acorda em um mundo onde as mulheres e os homens têm seus papéis invertidos na sociedade, e tudo é dominado por mulheres. Somos nós que andamos de roupas curtas preocupados com os olhares e as ações delas nas ruas; são elas que fazem coisas ditas viris, como cortar carnes num açougue, enquanto o homem fica no caixa; somos nós os responsáveis pelos cuidados da casa, enquanto que elas ocupam os cargos de chefia nos trabalhos; entre outras inúmeras situações que a 1h38min do filme permite.

Apesar dos clichês e das simplificações por vezes excessivas típicas de uma comédia para a massa, é um filme muito interessante. Ao virar o olhar patriarcal de cabeça para baixo revertendo os papéis, nos faz refletir sobre o machismo nosso de cada dia absorvido desde a infância e endossado de todos os lados (trabalho, relações, amizades, famílias, esportes, etc). Nos faz perceber ainda mais como o machismo é uma prisão que dificulta a expressão de nossos sentimentos e, em muitos casos, não nos permite ser o que gostaríamos de ser porque “isso não é coisa de homem”. Uma prisão que, como é sabido, causa muitos males às mulheres, mas também a nós homens, que crescemos analfabetos emocionais e não raro pessoas mimadas sem nenhuma responsabilidade nem cuidado conosco, que dirá com outras pessoas.

Fica a dica, em especial para outros homens: relevem os clichês e as simplificações, assistam o filme, entrem na narrativa vendo a sociedade de outra perspectiva – e discutam sobre isso depois. Tá no Netflix e se encontra fácil para baixar (é de abril deste ano).

 

 

Cambalache

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Quem me conhece sabe que gosto de tango – como de jazz, milonga, afrobeat entre muitas outras coisas que não cabe aqui listar. Quem me conhece de mais perto sabe que “Cambalache“, escrito em 1934 por Enrique Santos Discépolo (imagem acima), é um dos meus tangos favoritos, por motivos que nunca sabemos explicar bem quando se trata de sentir, mas vou tentar organizar algumas impressões aqui sobre ela.

Escutei pela primeira vez a música na faculdade, quando estagiava num programa semanal na TV da universidade em que estudava. O programa era sobre psicologia e tinha a participação de dois professores-psicólogos da universidade e um aluno deles, no formato mais utilizado pela TV na época: todxs sentados numa bancada conversando sobre alguma tema – no caso, psicologia. Eu trabalhava na produção, preparando toda semana um vídeo de uns 3 minutos com diversas cenas de filmes que dialogavam com o tema escolhido. Locava os filmes (em fita) indicados pelo pessoal, selecionava os trechos e editava numa mesa de edição linear, um processo que nem consigo imaginar o quão mais fácil é hoje do que naqueles inícios de anos 2000.

Um dos últimos programas que editei foi o de despedida de um dos professores-psicólogos da universidade. Ele havia se aposentado e já estava de mudança para a Argentina, seu país de origem. Preparamos com toda a equipe uma edição especial e a mim calhou de fazer o que sempre fazia, o vídeo temático. Fui conversar com o professor argentino sobre o que ele queria ver/ouvir no programa, já que o tema era ele. Lembro de ambos estarmos sentados na sala de edição da universidade, com aqueles vários monitores e botões típicos da época, quando perguntei a ele: “qual a música que você quer escutar no programa?”. Foi então que ele me falou de “Cambalache”, disse que era a sua música favorita, comentou de como a letra composta no início do século passado ainda era perfeitamente atual no início desse século XXI.

Não lembro de como consegui a música, não existia Youtube e baixar sons “velhos” como “Cambalache” não era algo tão fácil à época. Mas sei que tocou no programa de despedida, ao final da edição, e continuou soando com os créditos finais. O professor depois me abraçou, agradeceu com os olhos marejados, e desde então eu nunca mais esqueci a música. Ouvi ela em diversas outra vezes, tanto na sua versão clássica com Julio Sosa, de 1955, quanto nas versões brasileiras de Caetano Veloso (de 1969, respeitosa e ótima interpretação) como na de Raul Seixas, que traduziu e deu um tom rock pra versão (de 1987; não gosto muito). Até mesmo em tempos de Netflix ela aparece: no 2º episódio da 2º temporada da série “Narcos”, Wagner Moura (ou Pablo Escobar) canta “Cambalache” no chuveiro enquanto seus capangas invadem um prostíbulo e matam várias pessoas, naquelas raras combinações de música, interpretação e imagem que, apesar da crueldade, nos dão um certo arrepio de emoção.

“Cambalache” é um tango extremamente popular, mas diferente da maioria que você ouve com frequência, não fala de amores, noite, corridas de cavalo nem bebida: fala de política. É uma reclamação repleta de citações e ironias sobre um mundo que não é mais o que era – na época, o século XX se iniciava e Discépolo, nascido nem 1901, usava com maestria as palavras para tecer uma crítica social contundente a certas práticas da época (ainda comum hoje, e que provavelmente serão por muitos séculos). Em 2018, o tom algo moralista da canção pode até ser apropriado por defensores brasileiros verde-amarelos “da moral e dos bons costumes”, que podem interpretar a música como uma crítica à tudo que cheira a política, mesmo que a letra genial permite vários outros pontos de vista – inclusive o de ir contra o poder estabelecido, perspectiva esta que gosto mais.

Sobre o professor, nunca mais vi. Soube que ainda está vivo e ativo, na Argentina.

Que el mundo fue y será una porquería
ya lo sé…
(¡En el quinientos seis
y en el dos mil también!).
Que siempre ha habido chorros,
maquiavelos y estafaos,
contentos y amargaos,
valores y dublé…
Pero que el siglo veinte
es un despliegue
de maldá insolente,
ya no hay quien lo niegue.
Vivimos revolcaos
en un merengue
y en un mismo lodo
todos manoseaos…

¡Hoy resulta que es lo mismo
ser derecho que traidor!…
¡Ignorante, sabio o chorro,
generoso o estafador!
¡Todo es igual!
¡Nada es mejor!
¡Lo mismo un burro
que un gran profesor!
No hay aplazaos
ni escalafón,
los inmorales
nos han igualao.
Si uno vive en la impostura
y otro roba en su ambición,
¡da lo mismo que sea cura,
colchonero, rey de bastos,
caradura o polizón!…

¡Qué falta de respeto, qué atropello
a la razón!
¡Cualquiera es un señor!
¡Cualquiera es un ladrón!
Mezclao con Stavisky va Don Bosco
y “La Mignón”,
Don Chicho y Napoleón,
Carnera y San Martín…
Igual que en la vidriera irrespetuosa
de los cambalaches
se ha mezclao la vida,
y herida por un sable sin remaches
ves llorar la Biblia
contra un calefón…

¡Siglo veinte, cambalache
problemático y febril!…
El que no llora no mama
y el que no afana es un gil!
¡Dale nomás!
¡Dale que va!
¡Que allá en el horno
nos vamo a encontrar!
¡No pienses más,
sentate a un lao,
que a nadie importa
si naciste honrao!
Es lo mismo el que labura
noche y día como un buey,
que el que vive de los otros,
que el que mata, que el que cura
o está fuera de la ley…

está fuera de la ley.

Memórias aleatórias de domingos #1

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Em 2010, recém chegado a São Paulo, entrei pela 1º vez no MASP pra ver “Lugares, estranhos e quietos”, uma exposição de fotografias de Wim Wenders. Aquelas 23 fotografias de lugares vazios ao redor do mundo me despertaram alguma coisa que até hoje não sei bem o quê. Fui atrás do catálogo, publicado pela Imprensa Oficial de SP, em várias livrarias e lojas da cidade. Não achei.

Em janeiro de 2014, em Berlim, fui visitar o Museum für Fotografie, Helmut Newton Foundation, um lugar que tinha achado bonito quando vi do metrô chegando na cidade, umas semanas antes. Não consegui ir no espaço da exposições, mas na loja do museu achei “Places, strange and quiet“, livro de Wenders com as fotografias de exposição. Gastei a grana de um dia inteiro de comida e hospedagem, mas comprei.

Em maio de 2015, a Sala Redenção, em Porto Alegre, fez uma Mostra Wim Wenders com mais de 20 filmes, novos e antigos. Na noite de uma segunda-feira chuvosa e fria de maio, vi “No Decurso do Tempo” (“Kings of The Road, Im Lauf der Zeit”, 1975), filme da “trilogia da estrada” do alemão que traz a história de um técnico de projeção de cinema e um homem recém-separado viajando pela Alemanha num caminhão. 3h em p&b com poucos e bons diálogos, muitas paisagens da Alemanha, música, introspecção: um filme impressionante.

Hoje fui buscar algum filme pra ver/baixar: achei “Alice nas cidades” (1974), o primeiro dessa trilogia, que ainda não tinha visto (gracias, internet) e uma coletânea em 4 discos das músicas tocadas (e/ou regravadas) nos filmes: “Wim’s – Driven By Music”.

Ainda não consigo entender direito o que as fotos, os filmes e estas músicas me despertam, mas.

A foto de abertura é do interior da Armênia, 2007, capa do livro citado; as outras abaixo também são do livro.

18 de setembro de 2016, Facebook

Wim Wenders: Sun Bather, Palermo, 2007 c-print 132 x 148 cm © Wim Wenders. Courtesy Haunch of Venison.

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Sobre uma foto e o interior do sul

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Essa foto foi feita em 24 de julho de 1943, data do casamento dos meus avós maternos Josephina e Guerino Feltrin, que estavam no coreto da Praça Saldanha Marinho, centro de Santa Maria. Nesse dia, os dois com vinte e poucos anos (ela 21, ele 25), saíram cedo de onde moravam, a Colônia Vacacaí (hoje distrito de Santa Flora, cerca de 30 Km ao sul de Santa Maria), e foram para o cartório mais próximo casar. Com suas mais caras roupas, sentaram-se num banco da praça depois do cartório e pediram um registro ao fotógrafo lambe-lambe. 74 anos depois encontrei esse registro na casa de uma tia, a que nasceria 9 meses depois desse momento.

Ambos eram filhos e netos de agricultores, brutos imigrantes italianos que falavam mais em dialeto (o vêneto) do que em português. Trabalharam desde cedo nas roças de fumo, milho, feijão, trigo e tudo (que poderia dar nas produtivas terras que seus avós receberam (não há registros disso, mas é o que acontecia) do governo brasileiro como recompensa para vir para o interior do Brasil. Sabe-se que, após a Abolição da Escravatura (1888), os agricultores e fazendeiros brasileiros optaram pela mão-de-obra de origem europeia, em vez de de integrarem os ex-escravos ao mercado de trabalho. No caso do interior do Rio Grande do Sul, o governo da época estimulou a imigração também como forma de “ocupar” a região. Santa Maria faria parte da 4º colônia de imigração italiana, que hoje compreende cidades como Faxinal do Soturno, Dona Francisca, Nova Palma, São João do Polêsine, entre outras, na região central do Estado.

Foram da Colônia Vacacaí até o centro de Santa Maria num transporte conhecido como Aranha, uma carroça puxada por cavalos, a melhor forma de chegar ao centro até a chegada do ônibus, anos depois, com duas linhas diárias que permaneceriam como únicas durante muitos anos. Demoraram horas para chegar na cidade; casaram, foram fotografados, comeram e no mesmo dia fizeram o caminho de volta. Raramente voltariam nos próximos anos pra lá, ocupados que estariam com o trabalho no campo e os filhos (4 mulheres e 1 homem). Décadas depois, Josephina, já sem Guerino (que morreria em 1968, aos 51 anos) iria morar na cidade. Uma parte das terras onde viviam ainda são cultivadas por um dos filhos, que hoje vive da produção de soja, a monocultura que a custo de muito investimento externo e agrotóxicos tomou conta das terras sul-riograndenses a partir da década de 1970.

“Entraram ali dentro. O dono da venda estava mudando de ramo e agora representava uma firma. Defensivos agrícolas de todos os tipos, latas novas que tionham caveiras sobre a tinta. Vidros, ampolas, galões, sacos plásticos, caixas, estojos, pulverizadores costais, máscaras, pipetas, misturadores, macacões, luvas coloridas, parafusos dourados, esguichos, bisnagas, baldes, embornais, botas de borracha, bonés. Ele esboçou uma crua ciência sobre todo o lote da mercadoria, excitado, batendo com o nó dos dedos nas latas e indo de uma direção a outra, aturdido como se estivesse vendo aquilo pela primeira vez. Estavam muito atentos, tocando com muito jeito os objetos, mas ajustavam os bonés nas cabeças e os pés nas botas novas. Era uma concentração química poderosa, de que ainda não sabiam o nome, era um produto, então, mas ele esclarecia que “um tanto disso mais aquilo e é um estrago bárbaro”. Com a faca retirou um lacre de um galão e depois outro e misturou duas coisas em um recipiente e chacoalhou e respingou aquilo no piso para olhares em círculo, alertas, que esperavam acalamar o fervilhar frio e leitoso. Era uma mistura branca, aguada, com aparência viva, girando num bojo de vidro. Ele saiu com o recipiente nas mãos, que fedia, e todos o seguiram. Fora, ele falava agora sem parar como se procurasse uma coisa e por onde ia levava “um tanto disso mais aquilo” erguido na altura do peito. (…) Mais tarde estavam todos envolvendo uma grande figueira cujas velhas raízes estavam a céu aberto. Derramaram nelas o líquido que rapidamente efervesceu e foi se entranhando e clareando os marrons da árvore. A luz da lua mostrava a supresa e a maravilha nos semblantes. Ficaram fazendo rodas em outras árvores, seguiam para onde fosse o vidro com o líquido branco, que fora renovado. Estavam mudos e estranhamente decididos. Quando retornaram à figueira ainda havia uns verdes neça. O experimento estava dando certo. Valia para pequenos e grandes projetos. Desde os canteiros domésticos até a lavoura imensa. Bastava ver o tipo de folha para se saber qual a mistura. Estavam enterrando as exnadas e as capinas, abrindo o sul para a técnica, anônimos, na noite alta, usando suas próprias árvores de sombra para provar a exatidão da química.” Luiz Sérgio Metz, Assim na Terra (p.45-46).

Na cidade do Rio Grande

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 Rio Grande, cidade fundada em 1737 à beira da gigante Lagoa (laguna) dos Patos, uma das quatro primeiras cidades da 1º divisão política-administrativa do Rio Grande do Sul (por D. João VI, em 1809, ao lado de Porto Alegre, Rio Pardo e Santo Antônio da Patrulha), cerca de 300 KM ao sul de Porto Alegre e 200 KM da fronteira com o Uruguai, em Chuy. Cidade histórica e portuária, com um vento forte, barcos atracados, ruas de pedras de séculos, e um ar decadente de horizonte largo que lembra cidades à beira do Rio da Prata, como Colónia do Sacramento, o que na minha memória compõe um cenário que lembra a Santa Maria Onettiana – aliás, não é o Dr. Díaz Grey saindo do bar da esquina borracho, olhando torto para outros homens que ali ficaram, vestidos com seus terno puídos e chapéus defumados em fumaças de cigarro barato?

Mas não é bem de Rio Grande que quero falar nesse relato rápido, mas sim do que me traz aqui. Vim participar do ESUD 2017, XIV Congresso Brasileiro de Ensino Superior a Distância/III Congresso Internacional de Eucação Superior a Distáncia, na FURG. A área da educação, e ainda mais a educação à distância, não é uma que costumo circular, por isso desconhecia o evento. Mas vim aqui para participar de uma mesa, “Caminhos Emergentes da autoria no Ensinar e no Aprender“, com Tel Amiel (Unicamp), e falar dos “10 mitos sobre o acesso aberto ao conhecimento”, um remix mais focado em educação de uma fala que já foi apresentada no Fisl 2016 e na Universidade de Aveiro, em Portugal. Também vou fazer uma roda de conversa sobre cultura livre e a rede de produtoras culturais colaborativas na Maloca Casa Colaborativa, um contato que surgiu a partir do III Encontro SUL. Gosto dessa diversidade: participar de um encontro acadêmico mais tradicional, em salas/auditórios com muitas pessoas, e uma roda de conversa “nas pontas”, com menos gente, sentadas em roda, troca mais olho no olho. Sinto que é uma necessidade minha de falar das “pontas” na academia, e de modo mais teórico/contextual nas “pontas”. Esse talvez não estar totalmente em nenhum dos dois lugares merece outra reflexão depois.

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A fala no ESUD pode ser vista aqui – com direito a interrupção por queda de luz e participação especial da Pirate Box compartilhando arquivos. Já abaixo estão algumas fotos da roda de conversa na Maloca, bem como alguns registros do Cassino, essa praia enorme e das mais ventosas do mundo.

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Notas pós III Encontro SUL das Produtoras Culturais Colaborativas


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Nas últimas semanas estive envolvido na organização do III Encontro SUL das Produtoras Culturais Colaborativas, uma rede que participo desde 2014 e que envolve uma série de pessoas, coletivos e organizações de três regiões do Brasil (norte, nordeste e sul). Dentre muitas ideias fritantes que sempre surgem em um evento como esse, quatro dias de discussões com gente muito interessante de todo o país, separei três pensatas que me vieram após a mesa “Comunicação e Cultura Livre em tempos bicudos”, que ocorreu no dia 5/10, e que foram digeridas pelo meu incosciente nesses 5 dias que separam a mesa desse texto. Segue abaixo, sem me alongar muito em cada uma porque, por hora, só são pensatas mesmo, a serem desenvolvidas em outro momento:

1) Quem termina uma faculdade de jornalismo está, cada vez mais, formando seus próprios projetos, não mais trabalhando no que ainda resta da mídia de massa. A crise de postos de trabalhos no jornalismo dito mainstream pode ser o maior motivo, mas também há outros, como o “apagão” que vive o jornalismo brasileiro desde final de 2013, especialmente a partir das eleições de 2014 e ainda mais depois do golpe, o que faz com que muitxs estudantxs (em especial xs mais críticxs, fatalmente ligado a universidades públicas, mas não só) não queiram mais trabalhar nesses lugares e busquem alternativas. A presença de dois coletivos de jornalistas recém formados e/ou em formação com falas nessa linha, somado à diversas iniciativas que tenho visto em semanas acadêmicas de cursos de comunicação, e ainda outros projetos surgindo (como esse) para ajudar a formar esses novos projetos, endossa essa realidade. Sempre foi assim? Não creio: pelo menos há 10 anos atrás, quando me formei, formar seu próprio veículo e/ou empreendimento era um pensamento praticamente inexistente nas aulas de jornalismo na minha universidade e, arrisco a dizer, em quase todas que conheci. Esse novo cenário ainda não foi assimilado pelas faculdades de comunicação, que, quando falam em empreededorismo em sala de aula, ainda falam de negócios velhos, e de uma forma velha, muitas vezes trazendo aquele professor da administração que nada entende da área da comunicação com seus jargões business que mais cria antipatia do que simpatia pelo que significa empreender. O que leva para a segunda pensata:

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2) Porque inovação ainda, majoritariamente, está relacionada a fins (muito) lucrativos? Por que inovação é mais corriqueiramente associado a um endosso do capitalismo se estamos em plena ascenção de um pós-capitalismo? Na comunicação, em especial, nos programas das raras disciplinas de empreededorismo à bibliografias de ainda mais raros concursos para professores na área, inovação tem excluído ou pouco falado em negócios sociais, associativistas ou cooperativos, ou até mesmo de modelos experimentais como laboratórios de inovação cidadã, medialabs e coletivos colaborativos (problematizo o conceito em outro momento…). O foco dessas disciplinas muitas vezes tem sido ainda em assessorias de imprensa, agências de conteúdo (um outro nome para “comunicaçaõ integrada?”), ou ainda nos veículos caça-cliques e em outros projetos que ignoram ou pouco pensam no desenvolvimento local, nas soluções livres e no pensamento crítico em relação a própria tecnologia – são projetos que, não raro, ficam mais pro lado do marketing digital do que do do jornalismo que busca trazer informação de interesse público para uma dada comunidade. A resposta pras duas perguntas do início desse parágrafo é, claro, a grana. Mas será utopia pensar em fazer comunicação de forma colaborativa, com checagem precisa e atualização mais lenta, sem fins lucrativos (o que não significa não receber pelo que faz e muito menos não ser profissional, mas apenas não visar o lucro como principal fim), e com soluções de código aberto? Talvez. Mas chamo atenção para uma certa necessidade de, nesse momento de transformação dos modelos de fazer e sustentar o jornalismo, ao menos disputar o que tem sido colocado como inovação, de modo a incluir tecnologias sociais como a utilizada na rede de produtoras culturais colaborativas, e outras formas próximas à economia solidária e o cooperativismo.

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3) Processo é importante, porra! Dito de outro modo: os fins justificam os meios? Nesse quesito, costumo citar por aí um causo que aconteceu em um grande encontro da juventude, em Brasília, dezembro de 2015, com gente de todos os cantos do Brasil, organizado pela Secretaria Nacional da Juventude, orgão ligado à Secretaria Geral da Presidência, antes do golpe. Estava como ministrante, junto com Sheila Uberti (FotoLivre), de uma oficina de cobertura colaborativa com ferramentas livres para outros participantes ligados à comunicação. Mostramos softwares livres para edição, tratamento e publicação de fotos, textos e imagens, citando um pouco a questão da privacidade e de segurança da informação com ferramentas antivigilância. As cerca de 30 pessoas que estavam por ali pareciam interessadas e curiosas durante a oficina. Mas quando acabamos, nos reunimos todos numa grande mesa para discutir as pautas do dia e um dos participantes, que esteve presente durante toda a ação, falou: “Agora vamos ao que interessa, depois a gente vê essas amenidades”. Falava da reunião de pauta que ocorreria na sequência da oficina, em que discutimos os conteúdos a serem produzidos durante o evento. A fala, já escutada em versões semelhantes muitas outras vezes, é sintomática da importância que se dá ainda ao produto em nossa sociedade (e especialmente na área da comunicação), e não ao processo. Estávamos em um grupo que discutia os grandes oligopólios de mídia no Brasil, que criticava duramente a cobertura do jornalismo mainstream aos protestos nas ruas, uma cobertura apontada como enviezada, que só via os fatos por um lado (aquele do status quo, de quem dita as regras). E que publicava praticamente 100% de seu conteúdo em redes de grandes monopólios da internet (Google e Facebook), em que todo o processo de produção passava por ferramentas desses grandes grupos (mensageiros como WhatsApp, softwares de edição da Adobe, sistemas operacionais proprietários Windows e Mac). O uso das tecnologias nos processos de produção culturais (e comunicacionais) ainda é visto como uma amenidade. Para a maioria, em especial na comunicação, o importante é que o conteúdo seja relevante, bonito, fácil de fazer e que chegue ao maior número de pessoas, não importando se para isso se utilize caminhos proprietários que tem posturas e posições tão ou mais criticamente condenáveis do que os grandes grupos de comunicação que se critica. E isso não é uma crítica per se, apenas uma constatação. São diversas frentes de batalha que temos nestes tempos brutais que vivemos, e diante delas a maioria das pessoas tem escolhido que a das tecnologias livres não é uma causa urgente. O fim de fazer circular um conteúdo de denúncia em uma dada comunidade é mais importante do que esse conteúdo ser produzido e publicado em software livre.

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Mas existem grupos (utópicos?), como a rede de Produtoras Culturais Colaborativas (e outros tantos), que ainda acham que os processos são importantes, e que ferramentas livres na condução desse processo ainda devem ser, ao menos, consideradas. Que soluções que sejam das pessoas, e não de grande corporações, são fundamentais para a construção de caminhos mais justos e igualitários pra nossa sociedade. Muitos são os desafios dessa opção pelo processo: a dificuldade de se introduzir o germe de autogestão e da responsabilidade de cada um com aquilo que faz e produz é um deles. O pouco alcance que muitas vezes os eventos e conteúdos (os “produtos”) feitos dessa maneira atingem é outro. A crônica falta de dinheiro que, em diversos momentos, especialmente aquele em que os processos democráticos estão em crise (como hoje), é outro. Todos denotam uma característica desse caminho: a lentidão. Colaborar também é insistir, muitas vezes ser chato, dedicar tempo e dinheiro que, em diversos momentos, não se tem, ainda mais no sul global onde nos situamos. Mas ninguém disse que seria fácil, não?

Fotos de Davi Adorna. Disponível no Iteia, espaço de acervo multimídia livre.

 

A busca da memória

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Já de volta ao sul, leio o livro de Samarone Lima, ” O Aquário Desenterrado” (2015). Jornalista e escritor, Samarone é um recente dono de sebo em Olinda, a Casa Azul, onde fizemos o lançamento dos zines do BaixaCultura e uma roda de conversa (registros em foto aqui; relato mais detalhado em breve). Nasceu no Crato, no interior do Ceará, mas habita Recife desde 1987, onde já escreveu sete livros, entre reportagens, crônicas e poesia. Abriu seu sebo na região do Carmo, Cidade Alta de Olinda, no início de 2017, no início da temporada de chuvas do inverno nordestino, e lá tem promovido alguns cursos, sediado algumas peças de teatro, tudo aos poucos, devagar como a vida em Olinda durante um inverno chuvoso sem (tantos) turistas. O sebo tem uma seleção preciosa de livros de ficção e teoria, poucas e boas prateleiras que ocupam as duas salas da frente de um casarão típico daquela região da cidade, com uma estreita face virada para a rua que não sugere os diversos cômodos e o amplo pátio que se extendem ao longo da casa.

Samarone é um cronista dos bons, e em sua página, Estuario, é possível ter uma amostra disso – dos mais recentes, leia, em especial, “Anotações de um dono de sebo em Olinda“, relato de coisas simples que acontecem no seu dia a dia na Casa Azul. Gostei de vários poemas de “O Aquário Desenterrado”, poesias que evocam a memória, a infância, com imagens simples e poderosas, escritas com a precisão de palavras de um bom jornalista de tempos da máquina de escrever, onde apagar era mais custoso. Um dos que mais me interessou se chama “A Busca da Memória”, pg. 44-45, que reproduzo aqui abaixo não na exata diagramação livresca porque ela é impossível na tela, mas ao menos me atendo às quebras de linhas e espaços. Depois do texto, algumas fotos que fiz na Casa Azul e nos arredores, em Olinda.

A BUSCA DA MEMÓRIA

Saio à procura de memórias, palavras
murmúrios.
Encontro escadas, corredores
maçanetas geladas
de lugares que nunca vi.

De nada adianta
esta busca frenética:
tudo está no subsolo.

O esquecimento passa, arando.
O esquecimento anda com uma sacola
cheia de outras sementes
(é aleatório em seus costumes. Ama e esquece. Ama e malquer. Não ama e diz Amor).

Melhor não buscar, Samarone.
Aquieta-te.

Amordaça teu desejo de alcançar
o que já nem sombra é.

Nunca foi.

Deixa que a memória adormeça
que se proteja
como as vítimas do frio.

Apenas se tocando
em gestos impulsivos
em silêncio.

Apenas se aquecendo.

Apenas morrendo.

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Isabelita nos zines

Isabelita nos zines