Diário da tese (18): sobre processos e formas

rayuela

As últimas semanas foram de intenso trabalho por aqui, tão intenso que mal deu pra postar neste diário. É algo que já previa: a quantidade de texto escrita e a revisar nestas últimas semanas somam horas em frente ao computador, e quando tenho momentos mais livres não é em frente a um dispositivo como este que escolho ficar. Mas também acontece que o diário é uma forma de refletir sobre o próprio processo, uma espécie de “alívio mental” que faz o texto sair da “caixa-preta” que ele se encontra, aberta apenas por quem o escreve e a orientadora que o corrige, e ganhar o mundo, mesmo que as poucas gentes que acompanham este processo e de uma forma diferente daquela a ser lançada na tese. O status de “publicado”, mesmo que aqui no blog, dá a tese uma materialização prévia, um pequeno ensaio do que será quando for defendido e estiver disponível por aí.

Sobre o processo de feitura, dá pra dizer que estas últimas semanas foram de fechamentos. O tempo que estabeleci para o término é até o final deste 2016; janeiro é o tempo de alguém de fora revisar o texto, fevereiro de 2017 é a entrega e março, a defesa. Com alguns meses de escrita, é notável que nosso texto vai ganhando consistência, a mente fica treinada e pega o “tom” das frases, fazendo um trabalho de filtro prévio de forma mais efetiva do que nos primeiros meses, onde tudo parece ser mais vago e os caminhos a seguir menos claros. Percebo também que uma boa organização dos textos lidos – fichamentos, sobretudo – ajudam demais nessa hora: as ideias vem em torrentes fortes e saber relacionar elas com os textos lidos (às vezes tantos que esquecemos) é fundamental para seguir o caminho. Infelizmente não fichei tantos textos como gostaria, então às vezes surge uma ideia que quero relacionar com determinado texto mas não sei em que parte do computador, da estante ou da rede ele está – e ir atrás dessa referência, num momento de turbilhão de ideias, pode frear a criatividade.

Outro aspecto importante desse período é a questão dos conceitos. Uma base teórica (metodológica) como a Teoria Ator-Rede traz muitos conceitos, que somados aos relacionados ao mundo onde estamos entrando (no caso, o da Mídia Ninja), podem fazer com que nos percamos facilmente. Quando o trabalho já tem vários capítulos e páginas, é muito fácil se perder em coisas como: “mas eu já não descrevi esse termo antes”? Não é a toa que muitos trabalhos guiados pela TAR usam de glossários no final, caso de “After Method” de John Law e “Into the Newsroom” de Emma Hemmingway, ou a tese de André Holanda (que fez um glossário online): é uma forma fácil, tanto para o leitor quanto para quem escreve, organizar melhor onde estão e o que definem estes conceitos. Também nesse caso dos conceitos é fundamental a leitura externa, de orientador ou revisor, que vai perceber melhor que a gente as repetições ao longo do trabalho.

Sobre a forma, minha proposta desde o início foi, na medida do possível (ou da briga que quero comprar), não fazer um texto “padrão” acadêmico, formal, em terceira pessoa. Para mim estava claro que isso não significa menos “rigor” na hora de escrever, mas sim buscar ser sincero na própria investigação e usar de recursos estilísticos (alguns poderiam dizer “literários”) que podem tornar o texto mais leve e agradável de se ler. Às vezes nos esquecemos que uma tese, como um TCC e uma dissertação, são para a banca mas também para outras pessoas lerem, e escrever “difícil”, encadeando citações sem “respiro” ou frases que só o autor entende, denota em muitos casos uma confusão de pensamento – que pode ser interessante quando intencional, mas certamente não é quando torna-se ocasional. A primeira pessoa é um procedimento comum em diversas áreas acadêmicas, em especial na antropologia e quando se trata de uso de métodos etnográficos, e nada mais é que a percepção de que o “eu” do autor está sempre presente no texto e na pesquisa. Não há como falar de um grupo onde se fez um trabalho de campo, por exemplo, sem mencionar o “eu” enquanto alguém que interferiu naquele lugar: escrever em primeira pessoa é só a afirmação desse eu e a negação de uma suposta “neutralidade” que sabemos ser irreal.

Outro aspecto que busquei (ou melhor, estou buscando, porque ainda não acabei) trazer na forma foi uma coisa que, por hora, estou chamando de “Interlúdio (Im) prescindível”. São trechos de texto que abrem os capítulos e tratam de temas ditos “complementares” ao capítulo que se segue, às vezes trazendo outros referenciais teóricos e uma escrita algo mais “leve”, narrativa, ou ensaística. É uma proposta inspirada por autores da própria TAR, como John Law e Bruno Latour, que trazem trechos assim, inclusive diagramados de forma diferente, em alguns de seus livros – notadamente “After Method” e “Reagregando o Social”, respectivamente – para trabalhar questões que não se ligam diretamente na sequência dos capítulos das obras, mas que de alguma forma fazem todo sentido estarem ali, como um “saiba mais”. O nome que estou usando para estes trechos vem a partir da inspiração de Rayuela (traduzido no Brasil para “O Jogo da Amarelinha”), de Julio Cortázar, e sua distinção entre a história propriamente dita, contada na parte “Del Lado de Allá“, do capítulo 1 ao 56, e a segunda parte, “De Otros Lados“, os capítulos chamado por ele de “prescindíveis”, do 57 ao 155, que trazem textos que poderiam ser chamados de complementares, mas que podem ser lidos em uma sequência junto aos capítulos da primeira parte, como sugere o próprio autor no início do livro.

Esta divisão foi a forma que encontrei para, também, por trechos de outros textos produzidos durante o doutorado, insights que não tive tempo para desenvolver por completo mas que fazem sentido estar na tese, questões relacionadas que fogem do escopo estritamente da TAR, entre outros motivos. Sobre o jeito que a banca vai ver esses capítulos, só em março para saber.

Diário da tese (17): em trânsito & transformações

trump

Escrito no Facebook em 9 de novembro.
Vou a SBPJor 2016, em Palhoça-SC, depois de alguns anos sem participar desse que é o congresso acadêmico que mais fui na vida. Nas últimas vezes, encontrei pouco diálogo com perspectivas que não fossem centradas num jornalismo “tradicional”, o que excluía (ou deixava bem de lado) pesquisas que não fossem centradas em “veículos jornalísticos empresariais”, ou perspectivas teóricas que também considerassem os “objetos” (ou “as tecnologias”) como participantes do processo de produzir do jornalismo. Como pesquisador interessado em tecnologias e comunicação para além dos grandes meios (alguns chamam de comunicação alternativa/radical/guerrilha), não me via nos debates focados amplamente em conteúdo – e conteúdo de jornais tradicionais. Nesse tempo, fiquei feliz de encontrar diálogo produtivo em áreas como os estudos de ciência e tecnologia, a antropologia, a filosofia, a computação e a arte, e em espaços pra além da universidade, locais autônomos de saber como as ruas, labs e hackerspaces, por exemplo. Mas tô voltando pra apresentar um texto que propõe um diálogo sobre metodologia pra além de só aquela coisa de “regras fixas que tem de seguir pra fazer um trabalho científico”, e que considere, de forma simétrica, “as tecnologias” que tomam (cada vez mais!) parte do processo de produção do jornalismo. Vai ser na sexta pela manhã, sessão 14, pra quem estiver no evento – quem não tiver por lá, logo publico o artigo na rede.
Fico imaginando (e torcendo) que esse diálogo seja mais presente nesta edição.

*

15 de novembro
De fato, foi um congresso interessante. Participei de duas mesas e de diversas conversas paralelas que me deram ânimo para continuar na pesquisa. Apesar de ainda ser uma perspectiva minoritária na SBPJor, muita gente tem atentado para dois fatos:

a) o jornalismo de veículos tradicionais – Folha de S. Paulo, Estadão, O Globo, Zero Hora e outros jornais chamado “de referência” – tem cada vez menos presença no consumo de informação na sociedade contemporânea. Com os cortes e as transformações do ato de produzir narrativas de informação de interesse público do tempo presente, já faz tempo que o jornalismo “de referência” não é a principal opção dos egressos de uma faculdade de jornalismo (embora ainda seja esse o que predomina no ensino de muitas faculdades por aí…): basta ver, numa turma de 30 alunos, quantos trabalham numa redação “tradicional” jornalística, e quantos trabalham com outras atividades, como assessoria de imprensa, social media, agências de conteúdos, “freelas” de diversos tipos, entre outras funções sendo inventadas a cada dia. Estudar só estes veículos tradicionais, portanto, é se ater a uma cada vez menor parcela da prática social conhecida como jornalismo. Existem outros vários jornalismos para além deste – inclusive para além de somente aquele produzidos por jornalistas.

b) o jornalismo, prática social central na modernidade, não organiza mais a sociedade, não inventa mais a esfera pública – seja qual for esta(s) esfera(s) – como fez durante boa parte do século XX. A vitória do boçal Donald Trump nos Estados Unidos, contra todos os grandes veículos de mídia “de referência” dos EUA, ilustra essa percepção (que não é só minha, foi comentada por um pesquisador na mesa onde apresentei, Elias Machado, da UFSC). Que é mais forte nos Estados Unidos e em outros lugares que aqui no Brasil, haja vista a influência que ainda teve os grandes veículos jornalísticos tradicionais no golpe travestido de Impeachment que tivemos neste ano. Mas é uma constatação importante: o jornalismo está deixando de ocupar, de forma muito veloz, essa posição central de indicador de caminhos para o debate público para se tornar “mais um” ator nesse cenário. Quem está ocupando este lugar que outrora foi do jornalismo? Acertou se você disse o que está pensando: as redes sociais – e especialmente o Facebook.

Semana que vem publico o artigo que apresentei no congresso. É um trecho de um dos capítulos da tese (o que apresenta e traduz os principais conceitos da Teoria Ator-Rede), com algumas inserções da metodologia do trecho de metodologia. Um trabalho em construção, uma versão primeira de algumas reflexões que tenho feito durante o processo de feitura da tese.

Imagem: do apptivismo do En Medio, trumpdonald.org.

Diário da tese (16): até onde ir?

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Uma das primeiras coisas que nos ensinam numa aula de metodologia na universidade é de que precisamos “recortar” nosso referencial teórico, metodologia, objetivos, hipóteses. Se quero estudar comunicação digital, por exemplo, não preciso necessariamente fazer uma revisão bibliográfica que vá ao início da comunicação humana, dos computadores e da internet. Se quero investigar um sistema de publicação online de um jornal, não posso entrevistar os seus criadores, os usuários, fazer uma etnografia na redação para acompanhar como ele é usado E ainda fazer uma análise do discurso dos textos “de ajuda” inseridos no software e uma análise de conteúdo com todas as postagens já publicadas pelo sistema. Ou, no caso de uma pesquisa empírica, se vou estudar a transmissão online “ao vivo” de acontecimentos do tempo presente na Mídia Ninja – para ficar no caso específico de uma parte da tese – não necessito estudar toda a história da transmissão “ao vivo” na comunicação para isso.

A questão é: será que não mesmo? Até onde devemos ir na hora de embasar nosso trabalho conceitualmente, propor nossos objetivos, escolher nossos objetos de pesquisa ou definir nossa metodologia? Uma resposta simples seria: até onde conseguirmos. Questão de tempo: na maioria das situações de pesquisa (ou seriam todas?), não podemos ficar o tempo necessário para uma investigação profunda. Não terminamos um trabalho científico, nos livramos dele em algum momento, em especial quando o prazo (e as bolsas) dizem que devemos entregar…

No caso específico de uma investigação guiada por uma perspectiva ator-rede, a operação pela qual o mundo social e o natural tomam forma é compartilhada por diversos atores, que mobilizam outros para seus cursos de ação, e outros, e assim indefinidamente: quanto mais olhamos de perto essa operação mais veremos atores agindo e fazendo outros agirem e produzindo diferenças. É uma situação parecida com o fractal* de Mandelbrot na ilustração que abre esse post. O “objeto mais complicado da matemática“, segundo alguns, é, como um ator numa rede, algo aparentemente muito simples: digitalmente, 6 toques num teclado são necessários para produzir um.  Mas mergulhos sucessivos em sua estrutura revelam uma complexidade crescente: detalhes aparecem cada vez que você aproximar a imagem. Se você der um zoom, as formas mudam, aparecem regiões dos fractais que lembram animais específicos, mais zoom e um ponto aparentemente negro sem detalhes ganha mais milhares de detalhes, que lembram a estrutura inicial, e assim sucessivamente, numa vertigem sem fim.

Como trabalhamos com textos e não cálculos matemáticos, nos debruçar sobre todos os atores, ou sobre muitos atores, levaria mais tempo e se estenderia por mais espaço que um ser humano dentro de uma universidade poderia ter – nesse aspecto, a matemática é mais rápida: com cálculos, muita coisa que nem conseguimos imaginar, que dirá escrever, pode ser prevista! Por conta disso, temos de fazer recortes, descrever aqueles atores que, ao longo da operação de tradução de uma coisa em outra, produzem mais diferença, ou que produzem outras ações que são significativas para uma dada investigação. Como diz Bruno Latour em Reagregando o Social, “Um bom relato ANT é uma narrativa, uma descrição ou uma proposição na qual todos os atores fazem alguma coisa e não ficam apenas observando. Em vez de simplesmente transportar efeitos sem transformá-los, cada um dos pontos no texto pode se tornar uma encruzilhada, um evento ou a origem de uma nova translação” (LATOUR, 2012, p.198).

Emma Hemmingway, em Into the Newsroom (2008, p. 73) afirma que para tentar definir o limite da rede em que os atores agem, muitas vezes se faz necessário seguir um ator para trás, para identificar onde ele se tornou significativo para essa rede e, só então, traçar o processo de tradução que tem sido feito até ali. Mas como definir onde determinado ator foi significativo em algum momento? Onde ele começou a fazer diferença seria uma boa resposta, embora não seja tão fácil quanto parece determinar onde e quando exatamente isso acontece…

No vocabulário da TAR, a diferenciação entre mediadores e intermediários tenta dar conta dessa dificuldade. É uma definição que nos ajuda a entender o que está importando em dado momento e que, por conta disso, devem constar no relato do investigador. Os mediadores são aqueles que transportam algo, produzem ação e alteram o curso das coisas, enquanto os intermediários até transportam, mas não mudam nada – ou não deixam prova de que mudaram algo, ou deixam provas que não conseguimos rastreá-las a ponto de trazermos para a investigação. São os mediadores, é claro, que almejamos descrever numa pesquisa científica, de forma a fazer com que todos aqueles que trazemos no relato científico façam alguma coisa e não fiquem no lugar de outros que não fazem (LATOUR, 2012, p.222). A pergunta, então, que está no título desse post pode ser refeita: até onde devemos ir na hora de escrever uma investigação científica? Questão para a próxima postagem.

*No ótimo perfil que João Moreira Salles faz de Mandelbrot na Revista Piauí, é narrado assim o momento em que o francês precisava dar um nome as “formas selvagens” que tinha descoberto. “Uma tarde, em 1975, seu filho chegara da escola e fazia o dever de casa com um dicionário de latim à mão. Folheando o livro, Mandelbrot caiu no arquivo fractus, do verbo frangere, “quebrar”, “fraturar”. Havia achado a palavra adequada: fractal.
Outro trecho é bem exemplar da importância da descoberta “Mandelbrot observou que formas irregulares – o litoral, por exemplo – tinham uma característica singular: sua complexidade não se alterava com a escala. O homem percebia certos recortes, o réptil percebia outros mais e outros ainda o inseto. Mas não era só isso: independentemente da escala, a forma percebida se mantinha substancialmente a mesma, como se cada segmento repetisse o todo. Essa característica – a autossemelhança – é o centro da geometria criada por Mandelbrot. O mínimo se parece com o imenso. Uma pequena nuvem é semelhante a uma nuvem grande e ambas obedecem a um princípio organizador único. A natureza está repleta de formas assim, cheias de reentrâncias, segmentos retorcidos, entrelaçados, irredutíveis à suavidade das formas puras. O salto que ele deu foi afirmar que essa é a verdadeira geometria do mundo natural. As irregularidades não são deformações da perfeição clássica, mas o idioma próprio da natureza.

Imagem daqui.

Diário da tese (15): descrever, descrever, descrever

twittcasting

Descrever é uma prática comum no jornalismo, nem tanto naquele que é produzido diariamente, mas sim naquele feito com tempo, cuidado e que passa por muitas mãos, seja na hora de mexer no texto (no vídeo, no áudio, em desenho, em site, ou em tudo isso misturado) ou a partir de fontes as mais diversas possíveis. Também é na antropologia, na escrita dos diários de campo etnográficos, em que os detalhes são importantes e a ação observada (e participada) é fundamental para se construir boas considerações teóricas. Não é raro de ver antropólogos com diários de centenas –  milhares! – de páginas de descrição profunda de detalhes para “transformar o exótico em familiar, ou o familiar em exótico”, como diz Roberto Da Matta em “O ofício do etnógrafo, ou como ter anthropological blues“ (1978), já citado por aqui.

E também é parte fundamental do trabalho que use a Teoria Ator-Rede como guia metodológico, como é o meu caso. Mas um trabalho de descrição de redes (de actantes, seres que agem, sejam eles objetos ou humanos), ao contrário do que talvez possa se imaginar, não é uma tarefa simples. Latour, em Reagregando o Social (2012, p.209) diz que a descrição completa, observar um estado de coisas concreto, descobrir o único relato adequado a uma situação, é uma tarefa muito desgastante: “o simples ato de registrar alguma coisa no papel já representa uma imensa transformação que requer tanta habilidade e artifício quanto pintar uma paisagem ou provocar uma complicada reação química (LATOUR, 2012, p.199)”.

Em diversos momentos, o caráter maçante de uma descrição pode nos fazer substituí-la por explicações trazidas por entidades vagas como “Sociedade, Capitalismo, Império, Normas, Individualismo, Campos”, o que faz com que o social escape pelas mãos. Como diz o pesquisador francês: “Ou as redes que tornam possível um estado de coisas são plenamente desdobradas – e, nesse caso, acrescentar uma explicação seria supérfluo – ou “acrescentamos uma explicação” declarando que outro ator ou fator deve ser levado em conta, de sorte que a descrição avance mais um passo. (LATOUR, 2012, p.200).

Trago a descrição pra este diário porque é justo neste processo de descrição do “estado das coisas” das redes de mediação na Mídia Ninja que me encontro neste momento. Ninguém disse que seria fácil, e não tá sendo: são páginas tentando buscar as melhores palavras para descrever como a Mídia Ninja chegou até a cobertura das manifestações de 2013, por exemplo. Muita coisa aconteceu entre 2006 e 2013 na rede que deu a sustentação à formação da Mídia Ninja, o Fora do Eixo, e a decisão de escolher o que foi importante (fez diferença) e o que não fez é sempre uma escolha difícil, ainda mais se tratando de uma rede que, por si só, já não é fácil de entender e tem um caminho muito distinto de redações jornalísticas mais tradicionais. Um caminho pra escolher o que está importando naquele dado momento analisado sempre parece ser as provas: se os atores não deixam provas que agem, ou deixam provas que não conseguimos rastrear de modo a compor um relato convincente dessas ações neste trabalho, então esse ator não vai estar na narrativa. A descrição não deixa de ser o resultado do rastreamento das associações entre actantes. Um trabalho de detetive. Ou de jornalista?

No caso da TAR, há ainda o fato de não separar os objetos dos sujeitos na hora da descrição. Então, se dado objeto está importando em dado momento, ele também vai ser descrito. Na prática, isso significa que você vai ter que descrever aspectos “técnicos” que demandam muita pesquisa para dominá-los a ponto de conseguir produzir uma boa narrativa. Um exemplo do trabalho que tenho feito: o twittcasting, software/aplicativo de streaming usado em junho de 2013 na Ninja. Os momentos de maior visibilidade do grupo se deram a partir de transmissões ao vivo do aplicativo usado a partir de um Iphone, uma prova suficiente de que ele agiu modificando outros atores e fazendo diferença. Mas como ele funciona? quem produziu? quais são os códigos que fizeram ele possibilitar a narrativa de uma dada realidade no que costumamos chamar de “ao vivo”? É necessário abrir esta caixa-preta para entender. E isso não é tarefa fácil para se fazer quando há outros outros atores que também esperam para ser descritos em detalhes.

Felizmente, há boas descrições em diversos relatos atores-rede. Tenho tentado ler alguns para me inspirar e ver melhor como posso construir a minha narrativa. Além dos já citados em outros posts, dois textos que são essenciais para a descrição de objetos técnicos estão abaixo, com seus respectivos arquivos em PDF; o último é indicação de William Araújo, colega doutorando e também um investigador ator-rede.

AKRICH, Madeleine.The De-scription of Techinical Objects. In: BIJKER, W. E., LAW, J. (Eds.).Shaping Technology/ Building Society. Studies in Sociotechnical Change. Cambridge: The MIT Press, 1992, p. 205-224.

CALLON, Michel. (2001). Writing and (Re)writing Devices as Tools for Managing Complexity. In J. Law and A. Mol (Eds.) Complexities in Science, Technology and Medicine. Durham, N. Ca., Duke University Press.

 

Diário da tese (14): bibliografia Jornalismo e Teoria Ator-Rede

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Já escrevi um post específico sobre a Teoria Ator-Rede e outro sobre mediação, hoje é a vez de falar um pouco da relação da TAR com o jornalismo. A bibliografia que cito está no final do post, e os textos que consegui buscar versões online estão com seus respectivos links pra download.

Venho fazendo essa aproximação desde a segunda metade de 2013. Não é fácil, porque são caminhos que partem de visões teóricas bem diferentes: o jornalismo como “filho da modernidade”, baluarte da separação entre natureza e sociedade que a TAR, justamente, discute ao enfatizar a busca pela simetria na descrição dos atores envolvidos em uma dada ação – incluindo aí os “não-humanos”.

Mas apesar disso, a perspectiva ontológica da TAR tem ganhado popularidade nos últimos anos. Um dos motivos é a de que a digitalização experimentada nas últimas décadas tem feito o jornalismo cada vez uma prática complexa que tomam parte os mais variados objetos técnicos, o que tem tornado a TAR útil como lente analítica, como escrevem CW Anderson & Juliette De Maeyer na apresentação de um dossiê de uma das mais prestigiadas revistas acadêmicas da área, a Journalism, publicada no primeiro semestre de de 2015. Na apresentação deste dossiê , os autores apontam três caminhos principais que estas pesquisas têm seguido:

1) os estudos de inovação tecnológica e de novas ferramentas introduzidas nas redações, encontrados em trabalhos como Turner (2005), Plesner (2009), Weiss e Domingo (2010), Micó, Masip e Domingo (2013) e, no Brasil, na pioneira tese de André Holanda (2014) sobre o jornalismo em tablets, apresentada na pós graduação em comunicação e culturas contemporâneas da UFBA. Este talvez seja o caminho mais percorrido por pesquisadores até hoje, seguindo a linha dos primeiros estudos da TAR, o que Micó, Masip e Domingo (2010, p. 121) justificam argumentando que “uma abordagem da teoria ator-rede pode ser especialmente benéfica para rastrear as relações de poder entre diferentes atores envolvidos no desenvolvimento de uma inovação numa redação” (MICÓ, MASIP e DOMINGO, 2010, p.121)”.

2) É aquele em que o social pode se tornar mais visível que o usual. Latour, em “Reagregando o Social” (2012), cita como exemplo situações em que acidentes acontecem, ou quando coisas deixam de ser apenas um dado adquirido e passam a ser colocadas à distância – tanto no tempo como no espaço, o que incluiria pesquisas históricas. Para ilustrar esse tipo de estudo, Anderson e Meyer citam o caso de Le Cam (2015), que analisa um corpus de fotografias de redações na França, Bélgica e Canadá, do século XIX até hoje, para entender as mudanças organizacionais e gerenciais das empresas jornalísticas, e o de Rodgers (2015), que trata de uma história mais recente, do sistema de publicação de conteúdo online do Toronto Star, no Canadá, chamado TOPS. Concluem que “examinando estas evoluções históricas, estudiosos do jornalismo podem mais facilmente abrir as caixas-pretas que mascaram as tensões e descontinuidades subjacentes aos grandes sistemas sociotécnicos sob uma superfície acabada e suave (ANDERSON e MAEYER, 2015, p 6)”.

3) Por fim, o terceiro caminho seria o da cultura organizacional de certos grupos de jornalistas. Esse seria o rumo seguido por Graves (2015), por exemplo, que aborda a prática de jornalistas em duas publicações investigativas separadas por mais de 50 anos, o IF Stone Weekly e o site Talking Points Memo, e o de Usher (2015), que pesquisa a redação do International New York Times e reflete sobre como os objetos, as necessidades humanas, os valores da marca, entre outras outras questões, aparecem no dia a dia e na formação de uma redação jornalística. Esta linha de estudos das culturas organizacionais é a que mais se aproxima de minha pesquisa, embora tenha aqui o diferencial de que a Mídia NINJA não se constitui como uma redação jornalística “profissional”, no sentido de contar com profissionais assalariados para este fim.

Em maio do ano passado, eu e Willian Araújo, colega do PPGCOM que estuda via TAR o newsfeed do Facebook, escrevemos um artigo que aproximou ambas com uma terceira linha: a cultura hacker. O artigo se chama “Actor-network theory, journalism and hacker culture: for beyond the black boxes of digital artifacts in the journalism process” e foi apresentado no congresso Shaping the Future of News Media, em Barcelona, junho de 2015. Foi uma primeira aproximação nossa a este temática, um esforço inicial de compilação de bibliografia. É a partir dela que organizo as referências abaixo; devem ter muitas referências por aí que não encontramos, mas organizar referências é um trabalho sempre em construção.

Livros & Teses

ANDERSON, Christopher W. Breaking journalism down: Work, authority, and networking local news, 1997-2009. 2009. 328 f. Tese (Doutorado em Comunicação Social), Columbia University, Nova York, 2009. Tese de CW Anderson sobre o ecossistema de mídia. Utiliza a TAR como guia teórico-metodológico.

HEMMINGWAY, Emma. 2007. Into the Newsroom: Exploring the Digital Production of Regional Television News. London: Routledge. Etnografia em uma redação de televisão do interior da Inglaterra que usa largamente a TAR como guia teórico-metodológico. Excelente trabalho!

HOLANDA, André. Traduzindo o jornalismo para tablets com a Teoria Ator-Rede. Tese de doutorado (Programa de Pós-Graduação em Comunicação e culturas contemporâneas). Universidade Federal da Bahia (UFBA), Salvador, 2014.

LEMOS, André. A comunicação das coisas: Teoria Ator-Rede e Cibercultura. São Paulo: Annablume, 2013. Entre as discussões propostas via TAR, uma parte aborda o jornalismo.

Journalism, vol.16, 2015

ANDERSON, CW; DE MAEYER, Juliette. Objects of journalism and the news. Journalism, vol. 16 (1), p. 3-9, 2015.

GRAVES, Lucas. Blogging Back then: Annotative journalism in I.F. Stone’s Weekly and Talking Points Memo. In: Journalism, vol. 16 (1), 99-118, 2015.

KEITH, Susan. Horseshoes, stylebooks, wheels, poles, and dummies: Objects of editing power in 20th-century newsrooms. Journalism, vol. 16 (1), 99-118, 2015.

LE CAM, Florence. Photographs of newsrooms: From the printing house to open space offices. Analyzing the transformation of workspaces and information production. Journalism, vol. 16 (1), p. 134-152, 2015.

RODGERS, Scott. Foreign objects? Web content mangament systems, journalistic cultures and the ontology of software. Journalism, vol. 16 (1), p. 10-26, 2015.

Artigos

ARCE, Tacyana; ALZAMORA, Geane; SALGADO, Thiago Barcelos Pereira. Mediar, verbo defectivo: contribuições da teoria ator-rede para a conjugação da mediação jornalísticas. In: Revista Contemporânea, v.12, nº03, set-dez 2014, p.495-511.

COULDRY, Nick. Actor Network Theory and Media: Do They Connect and on What Terms? In: Connectivity, Networks and Flows: Conceptualizing Contemporary Communications, edited by A. Hepp, F. Krotz, S. Moores, and C. Winter, 93–111. Cresskill, NJ: Hampton Press, 2008.

HOLANDA, A; LEMOS, A. Do Paradigma ao Cosmograma: Sete Contribuições da Teoria Ator-Rede para a Pesquisa em Comunicação. Anais da COMPÓS, Salvador, 2013.

LONGHI, Raquel. SOUSA, Maíra. A dinâmica da notícia na internet: organizações jornalísticas e atores da rede. In: In: Revista Contemporânea, v.10, nº03, set-dez 2012, p.511-529.

MICÓ, Josep Luis; MASIP, Pere; DOMINGO, David. To wish impossible things: Convergence as a process of diffusion of innovations in an actor-network. International Communication Gazette 75: p.118–137. 2013.

OSÓRIO, Moreno. Jornalismo e Teoria Ator-Rede: possibilidades e limites do princípio da simetria a partir da verificação digital. IN: 13º Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo, 2015.

PRIMO, Alex. ZAGO, Gabriela. Who and what do journalism? An actor-network perspective. In: Digital Journalism, 2015; vol.3, nº1, p.38-52. London; Routledge, 2015.

PLESNER, Ursula. An Actor-Network Perspective on Changing Work Practices: Communication Technologies as Actants in Newswork. Journalism 10 (5): 604–626, 2009.

TURNER, Fred. Actor-networking the news. Social Epistemology 19(4): 321–324, 2005.

WEISS, Amy. DOMINGO, David. Innovation processes in online newsrooms as actor-networks and communities of practice. New Media & Society 12(7): p.1156–1171, 2010.

 

Diário da tese (13): junho de 2013 a agosto de 2016

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Na semana final de julgamento do Impeachment de Dilma Roussef, no Senado brasileiro, ficou difícil trabalhar na feitura da tese por aqui. Não é desculpa pra procrastinação (tá, pode ser também), mas é inevitável sentir uma certa tristeza hoje, 29 de agosto, dia em que Dilma foi ao Senado fazer sua defesa, com um discurso corajoso (mas tardio), respondendo e enfrentando senadores com franqueza. Nos últimos dias, tenho analisado postagens da Mídia Ninja e de alguns de seus integrantes em junho de 2013 e lá havia uma esperança de melhora, de resolução de desigualdades históricas no Brasil, que hoje, 3 anos e 2 meses depois, não se concretizaram e nem parece que vão ser tão cedo. Nem o mais pessimista dos manifestantes que saiu às ruas de várias cidades no país em 6, 11, 13, 17 de junho de 2013 imaginaria que hoje estaríamos em um processo claro de perda dos poucos ganhos obtidos da redução da desigualdade e do início de um período de fortalecimento de posições conservadoras e contrárias aos direitos humanos. Ou imaginaria?

Não sei dizer. Minha tese não tem por foco discutir junho de 2013, mas tem esse momento histórico como pano de fundo, e talvez da análise destes dados surjam algumas respostas. O que podemos dizer sobre todo esse processo, que iniciou em 2013 (ou antes, como esse texto argumenta) e que, depois de umas eleições apertadas vai resultar no processo de impeachment de Dilma, é: sabemos que é/foi golpe mesmo (seja político e/ou judiciário, midiático), e nada conseguimos fazer pra evitar – muito por culpa do próprio PT, em boa parcela responsável pela situação chegar a esse ponto em que “os fins justificam os meios”. A “democracia” não parece ser um valor relevante para boa parte d@s brasileir@s, e teremos de lidar de frente com as consequências atuais e futuras deste fato, talvez concentrando energia em buscar “saídas” no micro, na autonomia, no local (é a minha opção, pelo menos). Mas as consequências do que está acontecendo podem ecoar em atrasos de anos, décadas, e que já podem ser sentidos aqui e ali, nas ruas, nas ações autoritárias/retrógradas desse atual governo, na (des) esperança das pessoas, sobretudo quando comparado a otimismo ativo de junho de 2013, onde a energia de transformação pra algo melhor era latente e expressa em cada um dos milhares de manifestantes que foram às ruas – leia “A revolução será pós-televisionada”, escrito por Elizabeth Lorenzotti em 10 de julho de 2013 para o Observatório da Imprensa, à luz dos acontecimentos que ocorreram de lá pra cá e veja como muita coisa mudou. Olhar o que (tod@s) erramos parece ser o caminho doloroso a se percorrer pra quem sabe errar melhor duma outra vez.

P.s: Vou disponibilizar os dados que estou analisando da Ninja e de textos desse período na próxima semana.

Fotos: Mídia Ninja, 17 de junho de 2013 e 29 de agosto de 2016.

Diário da tese (12): Ciência Aberta

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Na busca dos últimos meses em softwares e sites que pudessem facilitar o processo de compartilhar a tese, acabei por (re) descobrir a rede Ciência Aberta. Já faço parte desde o ano passado da lista de emails, acompanho algumas discussões, mas não tinha me dado conta de algumas implicações do que a Ciência Aberta significa no processo de compartilhamento do processo de pesquisa. Então esse post é, mais do que uma reflexão, um convite a alguns experimentos.

O que é Ciência Aberta?
É uma comunidade de pesquisadores brasileiros que compartilham, capacitam e refletem sobre práticas acadêmicas abertas em suas variadas manifestações, também defendendo infra-estrutura e políticas adequadas para esse fim. Reconhecem como tendências abertas na pesquisa:

Publicações – acesso aberto
Dados – padrões e repositórios abertos
Instrumentos – designs, hardware, software e facilities compartilhados
Materiais – bancos colaborativos de espécimes, tecidos, amostras, moléculas, objetos
Processos – cadernos abertos, wikipesquisas e colaboração massiva
Ciência cidadã – da contribuição de recursos a cidadãos pesquisadores
Aprendizagem – educação aberta, recursos educacionais abertos
Inovação – incentivos pró-abundância, modelos de negócio abertos
Avaliação – revisão por pares aberta, métricas alternativas, dados sobre ciência
Financiamento – mandatos, crowdfunding, planejamento aberto

O grupo de Ciência Aberta brasileiro faz atividades desde 2013, de dia dos dados abertos a encontros de acadêmicos pelo conhecimento livre, e ano passado realizou um encontro em São Paulo, na USP e no Garoa hacker Clube, também aí buscando uma aproximação (necessária, fundamental) entre redes produtoras de conhecimento para além da exclusividade da academia – e se você acha que somente se produz conhecimento na universidade, volte um post atrás desse diário/semanário.

O grupo, que também é um blog e uma lista de e-mails, produziu um livro no ano passado, “Ciência Aberta, questões abertas”, organizado por Sarita Albagli e Maria Lucia Maciel (IBICT – Unirio) e Alexanbdre Hannud Abdo, doutor em física pela USP, que ajudou a fundar o Garoa e a Open Knowledge Foundation Brasil, além de administrar a Wikiversidade. É de Abdo o último artigo do livro, “Direções para uma academia contemporânea e aberta”, de onde saiu esse trecho, que desenha um cenário que, por uma outra perspectiva, dialoga com o que falei no último post, de que necessitamos buscar outras formas de fazer na academia que captam as texturas confusas do mundo para além do que consideramos hoje como “ciência e conhecimento”.

“Universidades, institutos e agências de pesquisa, particularmente brasileiros, vivem há pelo menos uma década em estado de contradição. Por um lado, é inadiável um movimento por maior compartilhamento e colaboração do conhecimento mantido e produzido, assim como dos recursos disponíveis, aplicando-se na academia as inovações proporcionadas pela tecnologia e cultura da colaboração e compartilhamento, que já transformaram e dinamizaram a sociedade e a economia (benkler, 2006). Até nos aspectos administrativos há necessidade urgente de projetar luz sobre as contas e contratos dessas instituições. Por outro lado, uma atitude corporativa, de muros e de “donos do conhecimento” incide na contramão dessas inovações. Desconectada da contemporaneidade e mantida pelo hábito e para a sustentação, justificada, do modo de vida de uma parcela da academia, essa atitude manifesta-se em diversos aspectos da vida acadêmica, aparecendo também, por vezes, entrincheirada em círculos viciosos de privilégios e interesses anacrônicos. Estes precisam ser superados para que, aos poucos, a academia possa dar espaço a novas experimentações nos modos de produção acadêmica.”

O grupo também mantém um excelente Manual para Ciência Aberta, com dicas de ferramentas, softwares, sites e outras informações pra quem quer abrir sua pesquisa. Dele pesquei três ferramentas que estou vendo a possibilidade de abrir esta pesquisa para além deste site:

Open Science Framework: é um site para administrar de projetos, compartilhar e organizar arquivos. Open source e sem fins lucrativos, é administrado pelo Center for Open Science. Ainda não testei, mas tem milhares de pessoas por aí usando.

GitHub/GitLab: GitHub é a rede mais utilizada por desenvolvedores para compartilhar códigos de projeto de sites, softwares e aplicativos – mas serve pra muito mais coisa, inclusive postar texto. O sistema de discussão é o forte, focado em caça a bugs (issues), especialmente na área do software, mas requer um pouco mais de expertise técnica.

Wikiversidade: É o site wiki voltado a educação administrado pela Wikimedia Foundation. Funciona como a Wikipedia, fácil de editar e de ver todas as alterações realizadas. Ganha pontos pela facilidade de uso e ser um sistema mais familiar a todos que usam a rede.

Zenodo: ferramenta mais pra pós-pesquisa, arquiva dados de forma bastante interessante – e pros fãs do Lattes, o que se carrega lá ganha até um “DOI”, um padrão para identificação de documentos em redes de computadores.

Foto: OKFN Brasil.

P.s: Gracias ao Abdo pelas indicações das ferramentas/softwares.

Diário da tese (11): Depois do método

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Em 1974, o austríaco Paul Feyerabend estava cansado: era professor convidado na Universidade de Sussex, em Brighton, na Inglaterra, trabalhando 12 horas por semana e não dava mais conta de ensinar. Tendo lutado no Exército Nazista alemão da Segunda Guerra Mundial (atingido por uma bala, viveria desde então de muletas), estudado com Karl Popper em Londres e estado professor de filosofia na Universidade de Berkeley, na Califórnia, Feyerabend havia trabalhado nos últimos anos em um texto junto de seu amigo Imre Lakatos, matemático e professor na London School of Economics, sobre “anarquismo metodológico”. O livro consistiria de duas partes: a primeira, a cargo do austríaco, traria uma crítica a posição racionalista na ciência: Lakatos, por sua vez, reformularia essa posição para defendê-la e rebater os argumentos de Feyerabend. Juntas, as duas partes deviam retratar os longos debates dos dois em torno desse tema — que tiveram início em 1964, prosseguiram em cartas, aulas, chamadas telefônicas, artigos, e só tiveram fim com a morte repentina de Lakatos, em 2 de fevereiro de 1974.

Como homenagem ao colega, Paul Feyerabend resolveu publicar o livro assim mesmo, só com uma parte, e assim nasceu Contra o Método (1975), um manifesto contra o método científico racionalista que recorre a psicologia, sociologia e história da ciência para se perguntar: será que é desejável apoiarmos uma tradição que se mantém una e intacta, através de regras restritas, e ainda concedê-la direitos excusivos sobre a manipulação do conhecimento sobre as demais? A resposta dele é taxativa: “um firme e vibrante NÃO” (p.24).

30 anos depois, John Law, um dos pesquisadores mais diretamente ligado à TAR, escreve um livro inteiro que, embora não aborde diretamente as referências do austríaco, tem um mesmo objetivo: discutir o método científico da tradição Euro-Americana. O argumento central de After Method: mess in social science research traz a ideia de que os modos de inquirir acadêmicos não captam as texturas confusas do mundo tal como elas se apresentam. Partes do mundo são capturados nas etnografias, histórias e estatísticas, mas outras partes não. Ele então se pergunta: “If much of the world is vague, diffuse or unspecific, slippery, emotional, ephemeral, elusive or indistinct, changes like a kaleidoscope, or doesn’t really have much of a pattern at all, then where does this leave social science? How might we catch some of the realities we are currently missing? Can we know them well? Should we know them? Is ‘knowing’ the metaphor that we need? And if it isn’t, then how might we relate to them?” (p.2)

Law não tem uma única resposta para estas questões, mas uma certeza: se queremos pensar sobre a bagunça (mess) da realidade, então nós vamos ter de nos ensinar a pensar, praticar, relatar e conhecer de novas maneiras, não apenas do jeito que nos ensinaram nas aulas de metodologia. After Method é, então, um livro que sustenta um modo de pensar sobre o método que é mais amplo, solto e devagar, que afirma que os métodos, suas regras e práticas metodológicas não apenas descrevem a realidade como também ajudam a produzir a realidade que estão compreendendo (p.5). O método – como a tecnologia, os objetos – jamais é inocente ou somente técnico, e, diferente do que a tradição metafísica racionalista Euro-Americana de estudos científicos ensina, ele não é apenas um meio para o fim de conhecer melhor algo.

Para descrever sua proposta, Law traz diversos estudos e situações na história da ciência e tecnologia. No capítulo dois, ele vai ao livro de Bruno Latour e Steve Woolgar, A vida no Laboratório: a produção dos fatos científicos, publicado em 1979, e ver, “sob os ombros dos etnógrafos da ciência”, como cientistas e outros produzem conhecimento na prática. Com Latour e Woolgar, Law introduz sua não-proposta de método a partir da ideia de assemblage, oriunda da filosofia de Giles Deleuze e Félix Guattari em Mil Platôs (1980): “a process of bundling, of assembling, or better of recursive self-assembling in which the elements put together are not fixed in shape, do not belong to a larger pre-given list but are constructed at least in part as they are entangled together” (LAW, 2004, p.42). A ideia de assemblage recusa fórmulas fixas que definam a priori o que é bom ou ruim como método e determina que este ocorra como um processo contínuo de elaborar e performar (enact) os limites necessários entre presença, ausência e alteridade.

O método assemblage também pode ser entendido como ressonância que cria e detecta periodicidades e padrões no fluxo das coisas (p.143). Mas que padrões e periodicidades ele estabelece e quais nega? Com a perspectiva de não trazer respostas generalistas e nem partir de relações assimétricas em sua busca, o método assemblage pode percorrer os desvios e a indecisão das múltiplas realidades e delas captar questões que mantém estabilidades temporárias que podem ajudar a performar outras estabilizações temporárias, e assim indefinidamente. Se, como diz Law, a metafísica Euro-Americana se compromete com a estabilidade e a precisão de suas investigações, mesmo que ao custo de posições tomadas a priori do observador e da aparente universalidade de suas afirmações, esta metafísica alternativa proposta por Law em After Method quer incluir a inconstância de modos alegóricos, ambíguos, pouco tácitos, na hora de construir métodos heterogêneos que performem uma dada realidade mais do que a tentem representar.

Law encerra o livro sugerindo que as afirmações metafísicas que o método científico tradicional Euro-Americano propõe devem ser erodidas. Mas de que forma prática fazer isso? Quais os métodos alternativos que são lentos, incertos, que dediquem atenção ao processo e consigam capturar as múltiplas realidades performadas de maneira mais heterogênea? A resposta, é claro, é que não há uma única resposta – nem deve haver (p.151). Mas a capacidade de colocar as questões é tão importante como quaisquer respostas particulares que possam ser obtidas – no que Feyerabend, com sua radical e ainda atual provocação ao método trinta anos antes, talvez concordaria.

Baixe:

LAW, John. After Method: mess in social science research. New York: Routledge, 2004.
FEYERABEND, Paul. Contra o Método. Tradução de Octanny S. da Mota e Leonidas Hegenberg. Rio de Janeiro, Francisco Alves Editora, 1977.

P.s1: After Law é um caminho sem volta de leitura, e como tal estará na tese que, nesse momento, anda lenta no segundo capítulo. A imagem de abertura é da introdução do livro, p.1.
Ps2: Agradeço a Fundação Ecarta e ao Léo Felipe pela aleatoriedade de cruzar meu caminho, na semana passada, com o catálogo da exposição “Um firme e Vibrante NÃO“, de 2015, onde Leo cita Feyerabend – e por conta disso é que surgiu a ideia de ligar Law e Feyerabend.

Diário da tese (10): as telas e os lugares

 

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Pode parecer um detalhe, algo que não importa diante da quantidade de assuntos a serem abordados numa investigação, seja ela de doutorado ou não. Mas se até mesmo a TAR nos diz para prestar atenção aos detalhes e considerar objetos e humanos como simétricos na ação-mediação-movimento, como não falar dos lugares e dos objetos que nos cercam na hora de escrever a tese?

É fato: não é fácil achar um lugar que a escrita flua. [E aqui convém lembrar o óbvio: uma tese, como uma dissertação e um trabalho de conclusão de curso, é escrita: estamos falando de composição de narrativas (mesmo que não raras embebidas de um estilo acadêmico chato, ainda assim é uma narrativa) a partir de uma determinada língua. Uma tese poderia ser feita pela fala como nas discussões da Grécia Antiga vencidas pela melhor oratória; com gestos e a dança, como em muitas comunidades indígenas mundo afora; ou mesmo uma narrativa audiovisual ou num game acadêmico, como alguns fazem. Poderia, mas, por enquanto, no sistema acadêmico que prevalece no mundo ocidental, é o texto escrito que conta – seja isso limitante ou organizador, escolha a sua interpretação.] Aquele espaço onde, mesmo não estando num dia produtivo, ainda assim o trabalho proposto no início do dia consegue ser realizado.

Por aqui, me sinto um privilegiado por poder escolher entre alguns lugares. O mais comum é a casa; já foi um quarto isolado como escritório, um sofá na sala mais confortável pras costas, a mesa de comer porque mais ampla que outras, ou ainda o chão porque calhou de ser. Agora, é o que a imagem mostra acima; uma bancada com múltiplas telas, um notebook, um monitor extra e um tablete. Exagero? Claro, mas sempre há os poréns: as duas telas são uma forma de organização de tarefas que tenho testado recentemente, uma destinada a buscas na internet, traduções e leituras em arquivos de texto; a outra, dedicada à escrita somente. Tem se provado eficiente, especialmente quando na tarefa de tradução ou de escrita com base em fichamentos e trechos de livros/artigos. O tablete entrou na composição porque ainda é uma forma boa de ler textos longos, como artigos e livros, em lugares variados e mais confortáveis sem precisar apelar para compra do livro/artigo ou gastar com xerox/impressão e podendo sublinhar/destacar. O mate é sempre companheiro do final das manhãs, ainda mais em temperaturas menores a 20°C, como tem sido as por aqui nos últimos meses.

É uma organização nova ainda pra mim, inspirada na configuração do lugar que mais rende trabalhar em Porto Alegre: a biblioteca da PUCRS. Um espaço amplo, silencioso, sempre com temperatura agradável, horário flexível (7h30-22h45) e com a possibilidade de usar dois computadores: levo o meu notebook para deixá-lo para a escrita, desconectado da internet, e uso um dos vários computadores do local para buscas e outros acessos na internet. Não precisa ser aluno da universidade pra acessar, basta preencher um cadastro (aka “pagar com seus dados”) que dá acesso ao local e a leitura de livros (somente no local, empréstimos não pode). Três ou quatro horas lá ajudam a render qualquer tipo de tarefa que você tenha que fazer com texto e que exija silêncio e concentração. Tanto que vale o investimento de duas passagens de ônibus até lá, caso more longe.

Outros lugares em Porto Alegre onde costumo ir são as bibliotecas da UFRGS – em especial a da psicologia, que conserva umas mesas boas e antigas de madeira e quase sempre tem pouco barulho. Cafés são uma boa pedida para tarefas que não exigem imersão plena-silenciosa em alguma tarefa, como mandar e-mails, corrigir certos textos e outros tipos de coisas que podem ser conciliadas com uma zapeada em redes sociais. Nesse quesito, o Baden Café ainda é imbatível, uma referência na cidade em cafés & espaço de trabalho pelo espaço convidativo e o cardápio do café, embora a internet tenha deixado a desejar nos últimos tempos. Com um fone de ouvido que isole bem o ambiente e uma música (eu prefiro jazz instrumental, tipo a seleção da Accuradio anos 50 ou algo mais na linha Cool/BeBop/Hardbop/swing, ou ainda um som tipo White Noise), às vezes rola escrever em mergulho também. Ainda há os centros culturais públicos, como a Casa de Cultura Mário Quintana, que mantém (ou mantinha, porque faz meses que não vou lá) mesas com acesso gratuito à internet, ou a Biblioteca Pública Josué Guimarães, localizada no Centro Municipal de Cultura Lupicínio Rodrigues, também com muitas mesas e internet grátis. E outros vários a descobrir, mas por hora já está.

Diário da tese (9): o pioneiro Fleck

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As duas aulas finais da disciplina de Antropologia da Ciência que fiz neste primeiro semestre de 2016 foram dedicadas a um autor hoje conhecido na filosofia da ciência/sociologia do conhecimento e nos estudos de ciência e tecnologia (STS), mas desconhecido fora daí: o médico Ludwik Fleck. Hoje ele é considerado um dos pioneiros destas áreas, referência bastante citada na antropologia, sobretudo nos estudos relacionados a saúde, e a influência de sua obra se espalha por muitas das ideias da TAR. Mas nem sempre foi assim, e este post é um pouco para contar a sua história, ainda pouco conhecida.

Em 1935, Ludwik Fleck trabalhava no departamento de medicina interna do hospital de Lviv, sua cidade natal, na Ucrânia quase fronteira com a Polônia. Atendia e exercia funções administrativas durante à tarde, e, pela manhã, se debruçava em leituras de filosofia, sociologia e história da ciência, estimulado pela formação interdisciplinar que teve, como médico, no ambiente efervescente em ideias da universidade de Lviv. Desde 1927 também publicava artigos acadêmicos na área da epistemologia da ciência, “sociologizando” sua área de atuação, a medicina, ao percebê-la como uma atividade coletiva complexa, em que fatores externos a certas descobertas médicas, como o contexto histórico em que foram produzidas, o sistema de ideias vigente e o caráter coletivo de qualquer saber, tinham extrema importância e, portanto, deveriam ser estudados com mais dedicação do que à época se fazia.

As ideias trabalhadas por Fleck teriam seu clímax com o livro “Gênese e Desenvolvimento de um Fato Científico“, publicado em alemão por uma editora de Basiléia, Suiça, em 1935. Numa linguagem não dirigida a especialistas, o livro investiga um caso importante da história da medicina – o desenvolvimento do conceito de sífilis – para, a seguir, tecer suas considerações epistemológicas sobre a estrutura sociológica do saber. Para Fleck, o conhecimento científico, como o conceito da sifílis, se dá a partir de uma série de elementos – o indivíduo, o coletivo e a realidade objetiva – sendo que não há distinção prévia entra qual dos três elementos seria mais importante nem uma observação livre de suposições. Os coletivos de pensamento são o que permitem emergir a produção de um determinado fato científico – coletivos entendido aqui como uma comunidade que desenvolve uma mentalidade própria de comunicar, agir e pensar.

Quando apareceu, a obra de Fleck parecia ter todas as qualidades para ser exitosa; entretanto, teve pouca repercussão. Uma série de situações, da consolidação do Nazismo na Alemanha à somente uma resenha da obra ter sido veiculada em uma revista acadêmica de filosofia e técnica, fizeram com que a obra do médico judeu não circulasse pela Europa. Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial e a ocupação nazista de Lviv, Fleck seria levado aos campos de concentração de Auschwitz e Buchenwald, onde trabalharia forçado nos laboratórios nazistas. Ao fim da guerra, em 1946, junto de sua esposa e filho voltaria a sua Lviv natal. Trabalharia como médico, professor e membro de associações científicas de seu país, tendo por foco não mais a epistemologia da ciência mas o atendimento clínico e os estudos de microbiologia. Morreria em 1961, em Israel.

No ano seguinte a sua morte, em 1962, o alemão Thomas S. Kuhn publicaria aquele que seria o livro mais lembrado de sua obra: “A Estrutura das Revoluções Científicas“. No prólogo, Kuhn cita o livro de Fleck, de passagem, como “uma monografia quase desconhecida de Ludwik Fleck (…), um ensaio que antecipa muitas de minhas próprias ideias” (KUHN, 2006, p.11). Publicado em inglês, por uma grande editora, Kuhn chamaria atenção para o livro de Fleck, que 17 anos depois seria traduzido para o inglês e publicado pela University of Chicago Press, nos Estados Unidos, com prefácio do alemão. Era o início de uma redescoberta da obra, que na sequência do inglês teria suas traduções para o italiano (1983), espanhol (1986) e francês (2005), antes da brasileira, em 2010. Segundo Curi e Santos (2011), só recentemente começam a ser exploradas outras possibilidades do livro de Fleck para além das noções de estilo de pensamento e coletivo de pensamento, consideradas precursoras e semelhantes as de epistémè de Michel Foucault e de paradigma de Kuhn.

No prefácio à edição em francês de “Gênese e Desenvolvimento de um Fato Científico”, Latour critica aqueles que consideram a noção de coletivo de pensamento de Fleck como precursoras de Foucault e Kuhn, dizendo que Fleck “não tratava apenas de estudar o contexto social das ciências, mas de perseguir todas as relações, embates e alianças envolvidas na produção do conhecimento e da história do pensamento” (CURI & SANTOS, 2011). Latour ainda dedicaria um de seus vários boxes de “Reagregando o Social” a Fleck, o que me faz ainda mais crer que muito de seu pensamento enquanto TAR, sua noção do social enquanto movimento – ação – transformação, está em Fleck.

Se quiser dar uma olhada no livro e conferir por si o quanto esta influência existe (ou não), aqui vai a edição em espanhol.

capa piaui tropicalia

Estes dias estava lendo a Revista Piauí 117, de junho de 2016, que comprei pela soberba capa (acima) com a cúpula golpista no Brasil retratada como no clássico disco “Tropicália” – aliás, algo que não fazia há anos, comprar revista pela capa. Uma das reportagens da edição é a “Conspiração Amarga“, escrita por Ian Leslie para o Guardian e traduzida para o ptbr por Sergio Tellaroli, um relato amplo sobre a construção da ideia de que a gordura é a grande vilã da alimentação, quando se sabe hoje que o açúcar sempre teve papel mais nocivo ao corpo humano do que a gordura. O texto narra como certos cientistas dos EUA e institutos científicos ligados ao governo de lá tiveram papel considerável na popularização da ideia de que a gordura deveria ser reduzida drasticamente da alimentação cotidiana do cidadão estadunidense, tudo isso a partir de pesquisas com amostras bem questionáveis. E não é que, lá pelo meio da matéria, quando Leslie fala dos meandros internos da construção de verdades nos “coletivos de pensamento” na ciência da nutrição, ele cita Fleck? Foi uma coincidência curiosa ler Fleck em uma revista como Piauí no mesmo momento em que lia seu livro “Gênese e Desenvolvimento”. Zeitgeist.

Imagem de Fleck daqui.