Na cidade do Rio Grande

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 Rio Grande, cidade fundada em 1737 à beira da gigante Lagoa (laguna) dos Patos, uma das quatro primeiras cidades da 1º divisão política-administrativa do Rio Grande do Sul (por D. João VI, em 1809, ao lado de Porto Alegre, Rio Pardo e Santo Antônio da Patrulha), cerca de 300 KM ao sul de Porto Alegre e 200 KM da fronteira com o Uruguai, em Chuy. Cidade histórica e portuária, com um vento forte, barcos atracados, ruas de pedras de séculos, e um ar decadente de horizonte largo que lembra cidades à beira do Rio da Prata, como Colónia do Sacramento, o que na minha memória compõe um cenário que lembra a Santa Maria Onettiana – aliás, não é o Dr. Díaz Grey saindo do bar da esquina borracho, olhando torto para outros homens que ali ficaram, vestidos com seus terno puídos e chapéus defumados em fumaças de cigarro barato?

Mas não é bem de Rio Grande que quero falar nesse relato rápido, mas sim do que me traz aqui. Vim participar do ESUD 2017, XIV Congresso Brasileiro de Ensino Superior a Distância/III Congresso Internacional de Eucação Superior a Distáncia, na FURG. A área da educação, e ainda mais a educação à distância, não é uma que costumo circular, por isso desconhecia o evento. Mas vim aqui para participar de uma mesa, “Caminhos Emergentes da autoria no Ensinar e no Aprender“, com Tel Amiel (Unicamp), e falar dos “10 mitos sobre o acesso aberto ao conhecimento”, um remix mais focado em educação de uma fala que já foi apresentada no Fisl 2016 e na Universidade de Aveiro, em Portugal. Também vou fazer uma roda de conversa sobre cultura livre e a rede de produtoras culturais colaborativas na Maloca Casa Colaborativa, um contato que surgiu a partir do III Encontro SUL. Gosto dessa diversidade: participar de um encontro acadêmico mais tradicional, em salas/auditórios com muitas pessoas, e uma roda de conversa “nas pontas”, com menos gente, sentadas em roda, troca mais olho no olho. Sinto que é uma necessidade minha de falar das “pontas” na academia, e de modo mais teórico/contextual nas “pontas”. Esse talvez não estar totalmente em nenhum dos dois lugares merece outra reflexão depois.

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A fala no ESUD pode ser vista aqui – com direito a interrupção por queda de luz e participação especial da Pirate Box compartilhando arquivos. Já abaixo estão algumas fotos da roda de conversa na Maloca, bem como alguns registros do Cassino, essa praia enorme e das mais ventosas do mundo.

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Notas pós III Encontro SUL das Produtoras Culturais Colaborativas


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Nas últimas semanas estive envolvido na organização do III Encontro SUL das Produtoras Culturais Colaborativas, uma rede que participo desde 2014 e que envolve uma série de pessoas, coletivos e organizações de três regiões do Brasil (norte, nordeste e sul). Dentre muitas ideias fritantes que sempre surgem em um evento como esse, quatro dias de discussões com gente muito interessante de todo o país, separei três pensatas que me vieram após a mesa “Comunicação e Cultura Livre em tempos bicudos”, que ocorreu no dia 5/10, e que foram digeridas pelo meu incosciente nesses 5 dias que separam a mesa desse texto. Segue abaixo, sem me alongar muito em cada uma porque, por hora, só são pensatas mesmo, a serem desenvolvidas em outro momento:

1) Quem termina uma faculdade de jornalismo está, cada vez mais, formando seus próprios projetos, não mais trabalhando no que ainda resta da mídia de massa. A crise de postos de trabalhos no jornalismo dito mainstream pode ser o maior motivo, mas também há outros, como o “apagão” que vive o jornalismo brasileiro desde final de 2013, especialmente a partir das eleições de 2014 e ainda mais depois do golpe, o que faz com que muitxs estudantxs (em especial xs mais críticxs, fatalmente ligado a universidades públicas, mas não só) não queiram mais trabalhar nesses lugares e busquem alternativas. A presença de dois coletivos de jornalistas recém formados e/ou em formação com falas nessa linha, somado à diversas iniciativas que tenho visto em semanas acadêmicas de cursos de comunicação, e ainda outros projetos surgindo (como esse) para ajudar a formar esses novos projetos, endossa essa realidade. Sempre foi assim? Não creio: pelo menos há 10 anos atrás, quando me formei, formar seu próprio veículo e/ou empreendimento era um pensamento praticamente inexistente nas aulas de jornalismo na minha universidade e, arrisco a dizer, em quase todas que conheci. Esse novo cenário ainda não foi assimilado pelas faculdades de comunicação, que, quando falam em empreededorismo em sala de aula, ainda falam de negócios velhos, e de uma forma velha, muitas vezes trazendo aquele professor da administração que nada entende da área da comunicação com seus jargões business que mais cria antipatia do que simpatia pelo que significa empreender. O que leva para a segunda pensata:

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2) Porque inovação ainda, majoritariamente, está relacionada a fins (muito) lucrativos? Por que inovação é mais corriqueiramente associado a um endosso do capitalismo se estamos em plena ascenção de um pós-capitalismo? Na comunicação, em especial, nos programas das raras disciplinas de empreededorismo à bibliografias de ainda mais raros concursos para professores na área, inovação tem excluído ou pouco falado em negócios sociais, associativistas ou cooperativos, ou até mesmo de modelos experimentais como laboratórios de inovação cidadã, medialabs e coletivos colaborativos (problematizo o conceito em outro momento…). O foco dessas disciplinas muitas vezes tem sido ainda em assessorias de imprensa, agências de conteúdo (um outro nome para “comunicaçaõ integrada?”), ou ainda nos veículos caça-cliques e em outros projetos que ignoram ou pouco pensam no desenvolvimento local, nas soluções livres e no pensamento crítico em relação a própria tecnologia – são projetos que, não raro, ficam mais pro lado do marketing digital do que do do jornalismo que busca trazer informação de interesse público para uma dada comunidade. A resposta pras duas perguntas do início desse parágrafo é, claro, a grana. Mas será utopia pensar em fazer comunicação de forma colaborativa, com checagem precisa e atualização mais lenta, sem fins lucrativos (o que não significa não receber pelo que faz e muito menos não ser profissional, mas apenas não visar o lucro como principal fim), e com soluções de código aberto? Talvez. Mas chamo atenção para uma certa necessidade de, nesse momento de transformação dos modelos de fazer e sustentar o jornalismo, ao menos disputar o que tem sido colocado como inovação, de modo a incluir tecnologias sociais como a utilizada na rede de produtoras culturais colaborativas, e outras formas próximas à economia solidária e o cooperativismo.

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3) Processo é importante, porra! Dito de outro modo: os fins justificam os meios? Nesse quesito, costumo citar por aí um causo que aconteceu em um grande encontro da juventude, em Brasília, dezembro de 2015, com gente de todos os cantos do Brasil, organizado pela Secretaria Nacional da Juventude, orgão ligado à Secretaria Geral da Presidência, antes do golpe. Estava como ministrante, junto com Sheila Uberti (FotoLivre), de uma oficina de cobertura colaborativa com ferramentas livres para outros participantes ligados à comunicação. Mostramos softwares livres para edição, tratamento e publicação de fotos, textos e imagens, citando um pouco a questão da privacidade e de segurança da informação com ferramentas antivigilância. As cerca de 30 pessoas que estavam por ali pareciam interessadas e curiosas durante a oficina. Mas quando acabamos, nos reunimos todos numa grande mesa para discutir as pautas do dia e um dos participantes, que esteve presente durante toda a ação, falou: “Agora vamos ao que interessa, depois a gente vê essas amenidades”. Falava da reunião de pauta que ocorreria na sequência da oficina, em que discutimos os conteúdos a serem produzidos durante o evento. A fala, já escutada em versões semelhantes muitas outras vezes, é sintomática da importância que se dá ainda ao produto em nossa sociedade (e especialmente na área da comunicação), e não ao processo. Estávamos em um grupo que discutia os grandes oligopólios de mídia no Brasil, que criticava duramente a cobertura do jornalismo mainstream aos protestos nas ruas, uma cobertura apontada como enviezada, que só via os fatos por um lado (aquele do status quo, de quem dita as regras). E que publicava praticamente 100% de seu conteúdo em redes de grandes monopólios da internet (Google e Facebook), em que todo o processo de produção passava por ferramentas desses grandes grupos (mensageiros como WhatsApp, softwares de edição da Adobe, sistemas operacionais proprietários Windows e Mac). O uso das tecnologias nos processos de produção culturais (e comunicacionais) ainda é visto como uma amenidade. Para a maioria, em especial na comunicação, o importante é que o conteúdo seja relevante, bonito, fácil de fazer e que chegue ao maior número de pessoas, não importando se para isso se utilize caminhos proprietários que tem posturas e posições tão ou mais criticamente condenáveis do que os grandes grupos de comunicação que se critica. E isso não é uma crítica per se, apenas uma constatação. São diversas frentes de batalha que temos nestes tempos brutais que vivemos, e diante delas a maioria das pessoas tem escolhido que a das tecnologias livres não é uma causa urgente. O fim de fazer circular um conteúdo de denúncia em uma dada comunidade é mais importante do que esse conteúdo ser produzido e publicado em software livre.

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Mas existem grupos (utópicos?), como a rede de Produtoras Culturais Colaborativas (e outros tantos), que ainda acham que os processos são importantes, e que ferramentas livres na condução desse processo ainda devem ser, ao menos, consideradas. Que soluções que sejam das pessoas, e não de grande corporações, são fundamentais para a construção de caminhos mais justos e igualitários pra nossa sociedade. Muitos são os desafios dessa opção pelo processo: a dificuldade de se introduzir o germe de autogestão e da responsabilidade de cada um com aquilo que faz e produz é um deles. O pouco alcance que muitas vezes os eventos e conteúdos (os “produtos”) feitos dessa maneira atingem é outro. A crônica falta de dinheiro que, em diversos momentos, especialmente aquele em que os processos democráticos estão em crise (como hoje), é outro. Todos denotam uma característica desse caminho: a lentidão. Colaborar também é insistir, muitas vezes ser chato, dedicar tempo e dinheiro que, em diversos momentos, não se tem, ainda mais no sul global onde nos situamos. Mas ninguém disse que seria fácil, não?

Fotos de Davi Adorna. Disponível no Iteia, espaço de acervo multimídia livre.

 

Diário da tese (12): Ciência Aberta

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Na busca dos últimos meses em softwares e sites que pudessem facilitar o processo de compartilhar a tese, acabei por (re) descobrir a rede Ciência Aberta. Já faço parte desde o ano passado da lista de emails, acompanho algumas discussões, mas não tinha me dado conta de algumas implicações do que a Ciência Aberta significa no processo de compartilhamento do processo de pesquisa. Então esse post é, mais do que uma reflexão, um convite a alguns experimentos.

O que é Ciência Aberta?
É uma comunidade de pesquisadores brasileiros que compartilham, capacitam e refletem sobre práticas acadêmicas abertas em suas variadas manifestações, também defendendo infra-estrutura e políticas adequadas para esse fim. Reconhecem como tendências abertas na pesquisa:

Publicações – acesso aberto
Dados – padrões e repositórios abertos
Instrumentos – designs, hardware, software e facilities compartilhados
Materiais – bancos colaborativos de espécimes, tecidos, amostras, moléculas, objetos
Processos – cadernos abertos, wikipesquisas e colaboração massiva
Ciência cidadã – da contribuição de recursos a cidadãos pesquisadores
Aprendizagem – educação aberta, recursos educacionais abertos
Inovação – incentivos pró-abundância, modelos de negócio abertos
Avaliação – revisão por pares aberta, métricas alternativas, dados sobre ciência
Financiamento – mandatos, crowdfunding, planejamento aberto

O grupo de Ciência Aberta brasileiro faz atividades desde 2013, de dia dos dados abertos a encontros de acadêmicos pelo conhecimento livre, e ano passado realizou um encontro em São Paulo, na USP e no Garoa hacker Clube, também aí buscando uma aproximação (necessária, fundamental) entre redes produtoras de conhecimento para além da exclusividade da academia – e se você acha que somente se produz conhecimento na universidade, volte um post atrás desse diário/semanário.

O grupo, que também é um blog e uma lista de e-mails, produziu um livro no ano passado, “Ciência Aberta, questões abertas”, organizado por Sarita Albagli e Maria Lucia Maciel (IBICT – Unirio) e Alexanbdre Hannud Abdo, doutor em física pela USP, que ajudou a fundar o Garoa e a Open Knowledge Foundation Brasil, além de administrar a Wikiversidade. É de Abdo o último artigo do livro, “Direções para uma academia contemporânea e aberta”, de onde saiu esse trecho, que desenha um cenário que, por uma outra perspectiva, dialoga com o que falei no último post, de que necessitamos buscar outras formas de fazer na academia que captam as texturas confusas do mundo para além do que consideramos hoje como “ciência e conhecimento”.

“Universidades, institutos e agências de pesquisa, particularmente brasileiros, vivem há pelo menos uma década em estado de contradição. Por um lado, é inadiável um movimento por maior compartilhamento e colaboração do conhecimento mantido e produzido, assim como dos recursos disponíveis, aplicando-se na academia as inovações proporcionadas pela tecnologia e cultura da colaboração e compartilhamento, que já transformaram e dinamizaram a sociedade e a economia (benkler, 2006). Até nos aspectos administrativos há necessidade urgente de projetar luz sobre as contas e contratos dessas instituições. Por outro lado, uma atitude corporativa, de muros e de “donos do conhecimento” incide na contramão dessas inovações. Desconectada da contemporaneidade e mantida pelo hábito e para a sustentação, justificada, do modo de vida de uma parcela da academia, essa atitude manifesta-se em diversos aspectos da vida acadêmica, aparecendo também, por vezes, entrincheirada em círculos viciosos de privilégios e interesses anacrônicos. Estes precisam ser superados para que, aos poucos, a academia possa dar espaço a novas experimentações nos modos de produção acadêmica.”

O grupo também mantém um excelente Manual para Ciência Aberta, com dicas de ferramentas, softwares, sites e outras informações pra quem quer abrir sua pesquisa. Dele pesquei três ferramentas que estou vendo a possibilidade de abrir esta pesquisa para além deste site:

Open Science Framework: é um site para administrar de projetos, compartilhar e organizar arquivos. Open source e sem fins lucrativos, é administrado pelo Center for Open Science. Ainda não testei, mas tem milhares de pessoas por aí usando.

GitHub/GitLab: GitHub é a rede mais utilizada por desenvolvedores para compartilhar códigos de projeto de sites, softwares e aplicativos – mas serve pra muito mais coisa, inclusive postar texto. O sistema de discussão é o forte, focado em caça a bugs (issues), especialmente na área do software, mas requer um pouco mais de expertise técnica.

Wikiversidade: É o site wiki voltado a educação administrado pela Wikimedia Foundation. Funciona como a Wikipedia, fácil de editar e de ver todas as alterações realizadas. Ganha pontos pela facilidade de uso e ser um sistema mais familiar a todos que usam a rede.

Zenodo: ferramenta mais pra pós-pesquisa, arquiva dados de forma bastante interessante – e pros fãs do Lattes, o que se carrega lá ganha até um “DOI”, um padrão para identificação de documentos em redes de computadores.

Foto: OKFN Brasil.

P.s: Gracias ao Abdo pelas indicações das ferramentas/softwares.